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Onde os políticos veem inimigos, os fotógrafos enxergam o ser humano

Marcelo Justo/UOL
John Moore Moore é fotógrafo da Getty Images e acaba de lançar o livro "Undocumented" que aborda a questão e imigração ilegal na fronteira do Mexico com os EUA Imagem: Marcelo Justo/UOL

Letícia Naísa

Do TAB, em São Paulo

2019-03-21T04:01:00

21/03/2019 04h01

Depois de algumas recusas a pedidos para registrar a fronteira dos Estados Unidos com o México no ano passado, o fotógrafo John Moore, 51, recebeu autorização para passar apenas um dia trabalhando no local. "Eu sabia que teria uma oportunidade muito breve para fazer fotos muito importantes", afirmou em entrevista ao TAB. Uma das imagens que Moore clicou naquele dia foi a icônica foto de uma garotinha chorando ao ver sua mãe ser abordada por policiais, que concorre ao prêmio World Press Photo deste ano.

A foto virou símbolo da política de separação de crianças de seus pais na fronteira entre os dois países, que entrou em vigor em 2018. Moore não tem certeza do quanto o registro teve impacto na política de migração dos EUA, mas espera que seu trabalho toque e eduque o público sobre temas relativos à crise migratória. "Mas sei que [essa foto] tocou muitas pessoas e tocou o público norte-americano, que se envolveu e passou a se preocupar com essa menina", diz.

Moore tem ampla experiência na cobertura de desastres e catástrofes. Ele acompanha há dez anos os conflitos na fronteira entre os EUA e o México. Em 2018, reuniu alguns de seus melhores registros e lançou o livro "Undocumented: Immigration and the Militarization of the United States-Mexico Border" (Sem documentos: Imigração e Militarização da Fronteira dos EUA com o México, em tradução livre para o português). Na publicação (bilíngue, inglês e espanhol), Moore conta histórias de pessoas sem documentos que tentam atravessar a fronteira.

Para o fotojornalista, não há solução em curto prazo para uma das questões mais importantes do mundo atualmente, mas ele espera poder dar voz e humanidade às pessoas que buscam uma vida melhor em sua terra natal. "Acho que se nosso país eventualmente encontrar soluções, será porque passamos a enxergar essas pessoas como pessoas e não como inimigos", opina Moore, que ganhou dezenas de prêmios por suas imagens, entre eles, o Pulitzer e o Robert Capa.

John Moore/Getty Images/World Press Photo
Foto concorre a World Press Photo deste ano: No clique de Moore, Yana, de Honduras, chora enquanto sua mãe Sandra Sanchez é revistada por um agente da Patrulha na fronteira americana, em McAllen, Texas, em 12 de junho de 2018 Imagem: John Moore/Getty Images/World Press Photo

TAB: Quais são as suas técnicas de trabalho? Como você consegue capturar esses momentos da forma como você captura?

John Moore: Quando jovem, nós aprendemos a técnica, aspectos da fotografia. Fiz muitas fotos fora de foco, momentos que perdi. Mas conforme fui ficando mais velho, fui perdendo menos momentos importantes. Na maior parte das vezes, eu consigo a foto que quero. Então a parte técnica ficou fácil. Como um fotógrafo mais maduro, eu me concentro mais em contar a história ou encontrar pequenos momentos em que as expressões nas pessoas contam uma história mais complexa. Com o tempo, a fotografia passou a ser menos difícil, mas o jornalismo é sempre um desafio. E é por isso que eu ainda gosto desse trabalho mesmo depois de tantos anos. Eu comecei minha carreira em 1991, oficialmente.

Quais são os limites do jornalismo? Como você aborda as pessoas?

Eu me aproximo das pessoas de forma muito direta. Clara e direta. Eu digo para as pessoas que o que elas estão fazendo ali é importante e que eu gostaria de mostrar aquilo, com a permissão delas. Então eu converso com as pessoas antes de fotografá-las. Às vezes não é possível, às vezes eu faço a foto antes de conseguir falar com as pessoas, mas converso sempre que possível. Gosto de ter permissão, mesmo que não oficial.

A fotografia interfere no que está acontecendo naquele momento? Como você faz para não interferir, isso é importante?

Eu tento muito não interferir na cena diante dos meus olhos, tento fazer uma fotografia verdadeira e natural. Mas, naturalmente, a fotografia muda as coisas num ambiente, só a nossa presença já muda. Então é um desafio reduzir esse efeito da minha presença e fazer uma foto natural. Eu não faço fotos posadas, retratos assim. Mas se a foto é documental, ela tem que ser completamente natural e não montada pelo fotógrafo.

As pessoas mudam quando percebem que você está fotografando?

Às vezes eu tenho que passar mais tempo com elas para que elas voltem a agir naturalmente. Às vezes é uma questão de tempo.

Você consegue captar a verdade com uma foto?

Não é garantido que é possível fazer isso toda vez, mas acho que é um bom objetivo: tentar falar a verdade. E acho que é importante num sentido mais amplo da profissão, porque a confiança do público na imprensa está baixa. Acho que temos que ter muito cuidado e sermos honestos com o nosso trabalho. Não só com as imagens, mas com as informações que eu coloco com elas, elas têm que estar certas. Às vezes é melhor desacelerar, não enviar as fotos tão rapidamente, coletar todas as informações corretamente e depois mandar, porque, num mundo de redes sociais, se você comete erros, há pessoas prontas para te atacar. Então, de certa forma, o ambiente hostil das redes sociais pode nos fazer jornalistas melhores, porque temos que tomar o cuidado de fazer tudo certo.

Como você enxerga a fotografia em um mundo de fake news?

Para mim, é importante que as minhas imagens sejam honestas e tenham informações corretas. Depois, se uma foto é usada de forma politizada, os assinantes do Getty Images, editores de grandes jornais que usam as fotos, eles conseguem acessar a foto original no site e mostrá-la. Ter acesso a um documento original garante precisão e isso é importante porque às vezes as fotos são usadas de forma política. Mas se você pode olhar a imagem original e saber que está correta, nós podemos manter a nossa credibilidade sem cometer erros.

A tecnologia impactou o seu trabalho?

De muitas formas, sim. A qualidade das câmeras que temos agora é muito alta. Eu posso fotografar em muitas situações que há anos era impossível. Existe uma sensibilidade à luz muito maior nas câmeras modernas, o que era impossível anos atrás. É possível fotografar no escuro. Nem sempre as imagens saem perfeitas, mas é possível ver no escuro agora. Algumas câmeras veem melhor do que o olho humano. A tecnologia facilitou a fotografia. Nós não usamos mais muito flash. Quando eu comecei a fotografar, o flash era usado o tempo todo. Hoje, é usado como um elemento artístico, não é uma necessidade. Eu usei luz natural na maior parte das fotos desse projeto da fronteira. Eu fiz alguns retratos, mas a maior parte das fotos é documental.

No campo, eu carrego um estúdio portátil e os retratos eu fiz com luz de estúdio, o fundo preto eu prendo com fita adesiva e uso uma só luz. Fiz retratos de imigrantes e de agentes de patrulha da fronteira. Tento fazer todos com a mesma luz. São lados diferentes da mesma história, mas mostrados da mesma forma para tentar humanizar a história, porque eu quero que todos sejam vistos como seres humanos e não como inimigos. Como na foto da garotinha chorando.

Como você fez aquela foto?

Bom, ela e a mãe dela, Sandra, estavam de pé ao lado de um veículo e as luzes do veículo batendo nelas.

O que você acha dos filtros dos aplicativos?

Para propósitos jornalísticos, eu não uso filtros. Se for pessoal, fotos com a minha família, um pôr-do-sol, para se divertir, filtros são ok. Mas para o trabalho, tem que ser natural para o trabalho.

Como seria um filtro John Moore?

Interessante. Acho que um filtro John Moore teria emoção, uma composição perfeita, uma exposição requintada e tudo estaria bem focado.

Você usa muitos aplicativos?

Não, eu não uso. No Photoshop, às vezes eu aumento o contraste, algumas áreas com muita luz eu escureço, mas não mexo muito na foto. O Getty Images tem uma política muito rígida, de zero tolerância com esse tipo de coisa.

Você cobriu muitas guerras e conflitos. Como você lida psicologicamente com cenas tão fortes?

Bom, eu faço isso há muito tempo. Cobri guerras, fomes e terremotos, todo tipo de desastre. E eu trabalhei com pessoas muito traumatizadas. Eu tento não traumatizá-las ainda mais com a minha presença. Eu penso muito sobre isso. Há fotografias que eu não consigo fazer porque seria muito difícil para as pessoas. Às vezes eu tenho que esperar, preciso saber que a pessoa se sente confortável em ser fotografada para não criar um trauma ali. Para mim, é importante conversar com outros jornalistas que tiveram experiências parecidas. Esse é o melhor jeito de lidar, para mim, de falar sobre como fotografar traumas. E eu também acredito em terapia. Conversar com um psicólogo é bom, não só pelo trabalho, mas por todo motivo. Acho saúde mental importante. Algumas pessoas nessa profissão têm uma resiliência maior do que outras. Meu nível de resiliência é bem alto, mas acho que temos que cuidar de nós se quisermos ficar muito tempo nessa profissão. Muitos jornalistas não duram muito, porque eles veem algo terrível e não conseguem esquecer.

Marcelo Justo/UOL
John Moore lança o livro "Undocumented" Imagem: Marcelo Justo/UOL
Qual foi a cena mais chocante que você já viu?

Vi muitas cenas chocantes. Sempre que eu vejo crianças sofrendo é difícil para mim. Eu estava presente no atentado suicida que matou a ex-primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, em 2007. Eu estava a apenas 20 metros da bomba que explodiu. Muitas pessoas foram mortas. Ela foi morta e muitas pessoas em volta do carro dela também. E eu não me machuquei. Fiquei surdo por algumas horas, mas não fiquei machucado. Tive muita sorte. Se tivesse sido um carro bomba, teria matado todo o mundo, mas era uma pessoa com um colete suicida. Acho que matou umas 15 pessoas. Eu estava muito perto desse evento. Acho que foi a cena mais violenta que eu já presenciei tão de perto.

Você já teve medo de morrer?

Algumas vezes. Em diferentes ocasiões. Uma vez eu estava procurando valas comuns escondidas no Congo. E foi isso. Eu estava sozinho no meio de uma floresta. Totalmente sozinho. Foi bem assustador. Houve momentos em que eu escapei do perigo. Tive muita sorte durante a minha carreira, tive por perto muitas pessoas que me ajudaram no caminho.

E vale a pena?

Sim, porque eu acredito que o que fazemos é importante. E isso faz parte da questão de como manter a saúde mental nesse meio. Se você não acredita que o que o que faz tem importância, então tem que mudar de profissão, porque essa profissão nunca vai pagar o suficiente e você verá coisas que você dificilmente esquecerá. Acho que se você acredita que é importante, então importa.

Você pensa sobre as pessoas que fotografa? Como o que aconteceu com aquela garotinha?

Eu mantenho contato com a mãe dela. Trocamos mensagem de texto dois dias atrás. Continuo acompanhando o caso dela. Eu as fotografei em fevereiro para uma outra história sobre elas. Ela [a mãe] está pedindo asilo político nos Estados Unidos. Então eu não falo muito sobre os detalhes do caso dela, porque eu não quero afetar o caso dela. Mas eu mantive contato, a garotinha tinha quase dois anos quando eu fiz a foto, agora ela está com dois anos e meio. Quanto a outras pessoas, às vezes mantenho contato. Tem uma mãe que eu comecei a fotografar em 2011 e continuei a fotografá-la por anos. Ela me escreve e fez um depoimento para o meu livro. Ela é ativista e tem uma mãe sem documentos no Colorado. Ela está enfrentando um processo de deportação agora. Algumas pessoas eu acompanho as histórias por ano.

Você disse que não fala sobre os detalhes do caso da garotinha da foto, mas você acredita que a fotografia teve algum impacto nesse caso?

Essa é uma boa pergunta que eu adoraria saber a resposta. Queria saber se essa foto impactou a política do governo norte-americano, porque uma semana depois dela, o governo parou oficialmente de separar pais dos filhos na fronteira. Não tenho como medir o impacto do meu trabalho, se teve algum papel nesse tipo de decisão. Mas sei que tocou muitas pessoas e tocou o público americano, que se envolveu e passou a se preocupar com essa menina e com a política norte-americana com relação à imigração no geral. Sei que teve algum efeito, mas não sei se afetou a real mudança política, porque eu não tenho contatos na Casa Branca [risos].

Falando sobre política, o que você acha da política norte-americana em relação à imigração?

Eu não sou um analista, sou um fotojornalista. Não quero sair do meu papel falando sobre a política. Também tem a questão, provavelmente a mesma no Brasil, sei que é assim nos EUA, de que não é meu trabalho debater muito esse assunto e tomar um partido dizendo que isso ou aquilo é terrível, porque talvez 50% da população dos EUA não vai querer mais ver as minhas fotos. Não interessa se meu trabalho diz a verdade, elas vão pensar que são falsas se acharem que eu tenho uma agenda, uma opinião pessoal sobre o governo americano. Prefiro que a fotografia mostre isso.

Espero que as pessoas enxerguem minhas opiniões nas minhas fotos

Que linguagem usar para mostrar a realidade para as pessoas?

Quero que o público veja as pessoas que eu fotografo como seres humanos. Acho que, como uma nação, se nosso país eventualmente encontrar soluções, será porque enxergamos essas pessoas como pessoas e não como inimigos.

Marcelo Justo/UOL
Imagem: Marcelo Justo/UOL
Tendo visto tantos conflitos, você acha que esse conflito na fronteira norte-americana é comparável com algum outro?

Imigração é uma questão em muitas partes do mundo. Certamente a imigração de africanos e pessoas do Oriente Médio para a Europa teve um peso na atual política na Europa. Também sabemos a crise que a Venezuela produziu um número enorme de imigrantes refugiados em muitas direções, para o Brasil, para o Chile, para a Argentina, Colômbia. Essa é uma história nossa [dos norte-americanos], mas também é um indicativo de questões muito maiores no mundo todo.

Como você vê o crescimento da extrema-direita hoje? O que acha disso?

O mundo passou por ciclos parecidos antes. Houve tempos em que a esquerda esteve no comando por longos períodos e houve tempos em que a direita esteve no comando também. Eu acho que, pelo menos espero, que as nossas sociedades se corrijam com o tempo para se mover de posições extremas para posições mais centradas, em que as pessoas possam se comprometer e entrar em acordo ao invés de apenas gritar uns com os outros.

Essa polarização torna o seu trabalho mais fácil ou mais difícil?

A polarização das sociedades tornou muito importante para nós sermos precisos e justos no nosso trabalho. Se quisermos que políticos acreditem no nosso trabalho, precisamos ser justos com as histórias que estamos contando. Se é mais difícil ou mais fácil, eu não sei, mas requer que sejamos mais cuidadosos e contemos histórias honestamente. E fotografemos de forma honesta também.

Como e por que você começou a fotografar a fronteira?

Eu vivi na América Latina nos primeiros anos da minha carreira, no México e na América Central, então quando eu voltei para o meu país depois de viver 17 anos fora, eu me senti atraído por essa questão porque eu vi esse drama do outro lado da fronteira. Eu tinha uma visão mais ampla dessa história. Entre 2007 e 2010, eu vi, no estado do Arizona, certa xenofobia crescendo entre uma parcela da população. Vi isso crescendo pelo país. E foi uma das questões que deu poder ao presidente Trump. E ele continua usando isso. Eu sei que imigração será um tópico diário nos noticiários por pelo menos mais um ano e meio. Possivelmente mais cinco anos e meio, se ele for reeleito.

O que você acha do discurso do Trump?

É triste, na verdade. Não acho que seja saudável. Tem muitas coisas que podemos falar sobre isso e falamos sempre. O que o Trump quer é que falemos dele o tempo todo. Ele já tem atenção suficiente.

Você acha que a crise migratória tem solução?

Em curto prazo não. Porque os políticos, como o presidente, podem usar esse assunto para ganho político, ter vantagens políticas. Então não vejo solução em curto prazo. Mas espero que em longo prazo sim. Os Estados Unidos dependem do trabalho imigrante. É um país que foi construído com imigração. Sempre foi. E fala muitas línguas. Então de repente proibir todo tipo de imigração, legal ou ilegal, é não-americano. Porque a história do nosso país é construída em cima da imigração.

Qual é a parte mais difícil desse trabalho de registrar a fronteira?

Acho que eu sempre espero que o meu trabalho tenha algum impacto. Que ele mude o mundo, de alguma forma. Normalmente não muda nada, mas, no mínimo se eu puder educar as pessoas sobre esse tópico e se eu puder mudar algum viés, pelo menos um pouco, então meu trabalho teve sucesso. Às vezes, uma imagem vai ter muito mais impacto. Como é o caso da garotinha. Mas isso não acontece todo dia. Mas conseguir acesso a esse tipo de lugar é o maior desafio, a parte mais difícil, conseguir autorização. Eu gosto de tentar me colocar em situações que sejam difíceis para outros fotógrafos terem acesso. É um desafio que eu gosto e que eu fui ficando bom com o tempo. O ato de fotografar é algo que eu aprendi anos atrás quando era um jovem fotógrafo, mas me colocar nesse tipo de situação só se aprende com o caminho e com o tempo.

Qual foi o caminho até a fronteira e até a garotinha?

Eu fiz muitos pedidos para a patrulha da fronteira, e eles não me deram resposta. Até que uma hora eles me deram um dia. Uma tarde só para fotografar pessoas detidas na fronteira. Então eu sabia que teria uma oportunidade muito breve para fazer fotos muito importantes. Eu não fazia ideia de que iria fotografar aquela menina chorando, claro, mas eu queria mostrar as pessoas tentando entrar no sistema. Eu não saberia o que iria acontecer depois que eles passassem por ali, mas, no mínimo, eu queria dar uma cara humana àquela história.

Como foi sua relação com a polícia da fronteira?

Há algumas fotos que eles não gostam, com certeza. Mas eu os fotografei por tantos anos que eles sabem que eu não tenho uma agenda pessoal e me deixaram voltar, mesmo depois daquela foto [da garotinha], porque eles sabem que o meu trabalho é justo.

Recentemente, o Brasil liberou visto para os americanos.

Essa decisão saiu um dia depois de eu conseguir o meu visto. Meu passaporte tem um visto de dez anos, agora pode entrar para um museu, é um souvenir que me deram ontem [risos].

O que você acha da aproximação do Brasil com os EUA? Muita gente compara Bolsonaro a Trump. Você acha que eles são comparáveis?

Eles parecem estar falando coisas parecidas. Mas se o que eles estão dizendo é terrível. O modo como estão falando tem efeito, está motivando pessoas que concordam com eles a votarem. Como sociedade, temos que ficar atentos a isso e analisar como isso funciona, porque o discurso de ódio é eficiente. Não é bom, mas funciona. E a sociedade tem que olhar para isso e decidir o que ela é.

Como isso afeta o seu trabalho?

Eu tento ser direto no meu trabalho e eu não discuto políticas governamentais abertamente, quero que as minhas fotos falem por mim.

Os discursos de ódio te deram mais material de trabalho?

Não muito. Acho que funciona melhor para vídeo. Mas para fotografia não é importante. Quero dizer, tenho algumas fotos de pessoas se comportando mal, mas não muitas.

É possível ser objetivo com esse tipo de linguagem fotográfica?

Deixa eu te dar um contexto. Nós levamos nossas experiências de vida quando reportamos questões importantes. Ser completamente objetivo não é possível, porque somos humanos com experiências. Mas acho que podemos ser justos. Podemos pegar nossas experiências passadas e ver o que está na nossa frente e fazer uma reportagem que reflete a realidade e que seja justa. Objetividade é um objetivo abstrato, mas justiça eu acho que é possível e é isso que eu tento fazer.

Qual é o papel da fotografia hoje?

A fotografia é mais importante do que nunca. As pessoas têm fome por conteúdo novo hoje, por novas fotografias. As pessoas passam o dia inteiro olhando para o celular buscando material novo. E a fotografia é mais importante do que jamais foi. O vídeo é tão importante quanto. Eu também faço vídeos. Algumas histórias são mais bem contadas em vídeo, pelo visual e pelo movimento do que por fotos. Mas a fotografia tem um elemento icônico que as pessoas lembram. Você consegue se lembrar de uma fotografia por muito mais tempo do que de um vídeo.

Marcelo Justo/UOL
Imagem: Marcelo Justo/UOL
O seu trabalho vai entrar para a história?

Seria muito prepotente afirmar isso, prefiro que outras pessoas decidam esse tipo de coisa. Mas eu tento dizer a verdade e, às vezes, tem momentos dos quais as pessoas se lembram. Como essa garotinha que eu fotografei no verão. Aquela foto recebeu muita atenção e é parte de um projeto de longo prazo muito maior que eu pretendo continuar trabalhando no futuro. Enquanto as pessoas se importarem com essa história, a foto vai durar.

O que mudou nesses dez anos que você está acompanhando o conflito da fronteira?

As leis não mudaram, continuam as mesmas. Os agentes da patrulha também são os mesmos. É a execução da política de Washington que mudou. Por isso virou um tópico controverso hoje. Especialmente depois da política de separação das crianças dos pais no ano passado. Outra grande mudança foi que a maioria das pessoas que cruzavam a fronteira eram homens buscando trabalho nos Estados Unidos. Hoje, a maioria das pessoas são famílias da América Central com crianças buscando asilo político nos EUA. Então as fotos são muito diferentes hoje, porque são famílias e não só homens. Então visualmente, isso mudou, é uma história diferente.

Por que houve essa mudança?

Com o passar dos anos, a violência aumentou nos países de onde esses imigrantes vêm. E as pessoas viam seus parentes prosperando nos EUA e mandando dinheiro para casa, então estão buscando vidas melhores para si e para os filhos. Há fatores climáticos também, por causa do aquecimento global, muita gente tem perdido fazendas. Há muitas razões que mudaram durantes os anos.

E mudou sua forma de contar histórias?

Mudou a história que eu estou contando, porque é uma história diferente. Mas meu interesse se manteve por essa razão, não é a mesma história. Eu não estou tirando as mesmas fotos todos os dias. Eu sou pai também e eu entendo a dificuldade de viajar com crianças, então tenho empatia pelas famílias que eu vejo viajando.

As pessoas têm medo das suas fotos?

É importante o fato de eu falar espanhol. Se eu chegasse falando inglês com os imigrantes, acho que eles teriam medo, tenho certeza. Comunicação é importante. E às vezes as pessoas não querem que eu tire foto e eu não tiro. É bom ter um entendimento.

Como foi quando a mãe da garotinha viu sua foto pelo mundo?

Quando ela viu a foto, ela ficou surpresa. Ela viu que eu estava ali, mas não prestou atenção. Ela ficou surpresa, mas ela me contou que acha que a foto teve um impacto positivo na história dela, em todo o debate sobre imigração. Nós mantivemos contato e temos uma relação positiva.

Alguém já ficou irritado com as suas fotos?

Na internet as pessoas ficam irritadas o tempo todo. Não tem como controlar isso. E você não pode controlar as fotos depois que elas caem na internet. Por isso é importante ser preciso em primeiro lugar. Não podemos controlar as imagens que estão viajando por aí.

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