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O que o fim de GoT diz sobre nós e a dificuldade em lidar com términos

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A personagem Daenerys faz discurso para seu povo no último episódio da série Game of Thrones Imagem: Divulgação

Giuliana Bergamo

Colaboração para o TAB, em São Paulo

2019-05-22T04:01:00

22/05/2019 04h01

O inverno finalmente chegou. Depois de oito temporadas exibidas ao longo de nove anos, "Game of Thrones" terminou. Foi um desfecho sofrível. Os roteiristas produziram milhares de mortos e feridos (alguns poucos sobreviventes) e legiões de fãs em absoluta frustração. Isso porque o público tem agora de lidar com um fato angustiante e contra o qual não há argumento: acabou. Fim. E términos parecem ser um problemão para a sociedade contemporânea - neste caso, não estamos falando de spoilers.

Segundo o site IMDB (Internet Movie Database), em que a audiência dá notas de zero a dez para cada episódio, a última temporada foi a mais mal avaliada de todo o conjunto. E também a única com 100% dos capítulos abaixo da média. Os motivos para tamanho desgosto são os mais variados possíveis. Houve até quem propusesse a regravação do episódio, com um desfecho diferente e reescrito. Achismos à parte, do ponto de vista técnico, o final é o que poderíamos chamar de correto. "Em uma derivação do que diz Aristóteles na Poética, finais devem ficar no limite tênue entre o imprevisível, que surpreende o público, e o inevitável", diz o roteirista e professor Ricardo Tiezzi. E foi isso o que aconteceu.

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O personagem Tyrion observa muralha em chamas em cena do último episódio Imagem: Divulgação

Seguindo a regra dos bons roteiros, "Game of Thrones" entregou no final o que prometeu no início. Os elementos principais do desfecho estavam ali, evidentes já no piloto. Os irmãos incestuosos Cersei e Jaime Lannister despontam ligados visceralmente e dispostos a qualquer coisa para permanecer juntos (até mesmo a própria morte). No primeiro episódio, por exemplo, Jaime empurra Brandon do alto da torre - o jovem Stark havia descoberto o segredo do casal.

Daenerys Targaryen aparece como uma virgem pura e aparentemente indefesa, mas já suscita certo mistério. Sempre altiva e com olhar penetrante, desconfia do irmão e até do homem que os mantém como hóspedes. Jon Snow era e sempre será um outsider (literalmente, porque acabou partindo para o outro lado, além da muralha, para viver livre com os selvagens). É um sujeito correto, de princípios e honra, "um herói de guerra", afirma Varys no quarto episódio da temporada final, mas não um governante, como muitos fãs desejavam.

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Na cena aparece o castelo de Porto Real dominado pelas tropas de Daenerys Imagem: Divulgação

Sansa Stark já aspirava ao poder (é apresentada como pretendente do futuro rei, Joffrey Baratheon). E Arya surge como uma personagem que foge à regra dos costumes impostos para a mulher, com um gosto especial pela aventura e dada a uma jornada individual. Em sua primeira cena, demonstra falta de talento pelas coisas das moçoilas (seu bordado é um fiasco), mas é irreverente e tem habilidade surpreendente com outros objetos cortantes, como a flecha que acerta em cheio no alvo.

Até mesmo Bran, cuja escolha como rei foi a grande surpresa do episódio (e também uma das maiores decepções dos descontentes), já era uma aposta. No piloto, o garotinho aparece sob os olhos do pai, Ned Stark, durante uma espécie de treino em que os irmãos, Robb Stark e o bastardo Jon Snow o ensinam a usar o arco e a flecha. Vai mal, mas o pai parece empenhado em preparar o filho, então com apenas 10 anos, para o inverno que se aproxima e, assim, o escala para assistir a uma execução. É para ele também que o lorde de Winterfell lança a última piscadela antes de deixar o Norte rumo à capital, onde morrerá. Revendo agora, é como se Ned dissesse: "Segura firme porque a bronca é sua, filhão."

Já no final, quando Tyrion Lannister pergunta se ele, apesar de não ter interesse no poder, está apto a governar, Brandon, que tudo vê e tudo sabe, responde: "Por que acha que eu cheguei até aqui?". É quase um recado dos roteiristas sobre a importância da personagem.

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As opiniões sobre as possíveis variáveis para o final são inesgotáveis. E é verdade que os elementos plantados no início podem ser manipulados de outras formas no desfecho. Ao longo de tanto tempo, é preciso ser fiel à essência de cada personagem, mas muitos fatores contam, inclusive a reação do público. Pouco se falou nisso nos últimos dias, mas é inegável que a temperatura dos debates sobre o protagonismo feminino só aumentou nesses últimos nove anos. Consequentemente, o discurso feminista foi ganhando cada vez mais espaço nas falas e atitudes das personagens. No quarto episódio da temporada final, Varys e Tyrion discutem sobre quem seria melhor governante, Daenerys ou Jon. "Não acredito que pinto seja uma qualificação válida", diz Tyrion, ao que o colega responde: "E ele é o herdeiro legítimo ao trono porque ele é um homem. Sim, pintos são importantes, infelizmente".

A conversa segue e os dois debatem sobre a possibilidade de um casamento para que Jon e Daenerys governem juntos. "Ela é muito forte para ele. Ela o faria se curvar a ela, como já faz, aliás", diz Varys. Em um duelo entre Daenerys e Jon, entregar o trono para ele talvez desagradasse uma parcela importante da audiência...

Para além de todas as possíveis e impossíveis considerações, a reação majoritariamente negativa do público parece dizer mais sobre o próprio público do que sobre os erros e acertos da história. Temos uma dificuldade tremenda de lidar com o fim de praticamente qualquer coisa: de séries, de livros, de relacionamentos, de empregos, da vida.

Na maior parte dos casos, o luto se sobrepõe a qualquer outro sentimento. A empresa ia mal, o chefe era um crápula, o plano de carreira simplesmente não existia, e, ainda assim, a demissão é devastadora. Muitos casamentos chegam ao fim justamente para que as duas partes sejam mais felizes, mas nada parece ser maior do que a frustração de amigos, parentes e do próprio casal.

"Game of Thrones" não era um casamento ruim. Pelo contrário. Ao longo de quase uma década, os fãs seguiram fiéis à trama e contentes com os desenlaces da história - o conjunto da obra tem nota 9,4, segundo avaliação do IMDB. Aguardar ansiosamente as 22h do domingo nos meses de abril e maio, período em que tradicionalmente as temporadas eram exibidas, virou um hábito na rotina de milhares de pessoas no Brasil e no mundo. Especialmente nesta última e curta temporada (foram apenas seis episódios, enquanto a anterior teve sete e as demais, dez), em que espectadores se reuniam em bares ou casas de amigos para assistirem juntos.

Ao longo de tanto tempo, o público acabou criando uma relação afetiva com a série e seus personagens. Uma amiga, por exemplo, contou que o relacionamento com atual marido engrenou depois que os dois entraram no assunto GoT. "A gente tinha saído uma vez, estávamos interessados um no outro, mas foi no segundo encontro, quando ele comentou sobre a série, que engatamos numa conversa de cinco horas", disse. Para eles, a série é um ícone do relacionamento. E eles não são os únicos. Se cada um de nós que acompanhou as oito temporadas olhar para trás, vai perceber que muita coisa aconteceu em nossas vidas, mas Jon Snow, Danny, Cersei, Tyrion e os outros continuaram ali, como pessoas próximas por quem nutrimos todo tipo de afeto. E o fato de que não estarão mais é difícil de encarar.

"Poderíamos fazer uma aproximação, sempre com cautela, entre a ideia de catarse e o fenômeno bastante contemporâneo da relação passional que os espectadores estabelecem com algumas séries, livros e filmes, com seus enredos e com suas personagens", diz a psicanalista Fabiane Secches, fazendo uma referência a Aristóteles, para quem a tragédia oferecia uma possibilidade de purificação aos espectadores. "Por meio de processos de identificação e de projeção, as pessoas acabam se aproximando de algumas obras de modo bastante afetivo", completa.

Embora esse efeito catártico tenha estado presente ao longo de gerações e gerações de espectadores, há um componente a mais na atualidade: a compulsão. Consumimos produtos de ficção de maneira muito semelhante à qual nos alimentamos de fast foods ou compramos roupas descartáveis nas redes de fast fashion. Focados sempre no que vem depois, temos ansiedade de sobra e pressa para liquidar o assunto.

Até mesmo o comportamento sexual ocidental tem essa marca. Ao contrário de outras culturas em que o orgasmo, o ápice do prazer, é encarado como parte do ato sexual, para nós, ele é o objetivo principal e também o sinal de que a transa chegou ao fim. Preocupados com o desfecho, esquecemos do que teve de bom ao longo da história e nem damos importância para a forma como os fatos aconteceram. Apagamos da memória a batalha que liquidou os white walkers e a performance de Arya, uma verdadeira guerreira, ao matar o Rei da Noite. Quem precisava de gran finale depois daquilo? Mais: nem percebemos a beleza fotográfica de algumas cenas, como a imagem de Tyrion chorando a morte dos irmãos. O casal surge em meio aos escombros, sob um jogo e luz e sombra digno de obras primas.

Apesar de tudo, parece que nunca estamos contentes. Perdemos a capacidade de aproveitar a estrada. O objetivo é o destino e o que vem depois. Afinal, sempre há outra atração turística, outra lanchonete, outro tênis, outro canal, outro date. E, quando não há mais nada além, como no final derradeiro de "Game of Thrones", nos mostramos inábeis para lidar com a frustração. Feito crianças birrentas, então, encontramos uma desculpa para não gostar do final. Seja ela qual for.

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