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Maquiagem agora é a nova tática de guerrilha do 'terrorismo de gênero'

Letícia Naísa

Do TAB, em São Paulo

24/10/2019 04h01

Em tempos reacionários, em que os tradicionalistas querem que cores e comportamentos sejam "de menino" ou "de menina", há quem radicalize na outra ponta e proponha todas as cores da maquiagem como ferramenta dentro da atual guerra cultural no Brasil.

"Se a gente pensar no formato do batom, ele é muito parecido com uma bala de revólver", compara Karlla Girotto, artista e curadora do CCSP (Centro Cultural São Paulo). O espaço emblemático da cidade foi palco de uma oficina intitulada "Make Guerrilha: Maquiagem e Terrorismo de Gênero", que buscou ressignificar a noção que temos do uso de maquiagem. "Tudo isso é construção", diz a curadora.

Ao longo da história, a maquiagem se tornou uma cobrança para as mulheres e uma proibição para os homens. O conceito da maquiagem de guerrilha é apresentado por Ramirona, que é Felipe Ramires, um homem branco, paulistano e cisgênero (a pessoa que se identifica com gênero com o qual foi designado ao nascer) que se define como bicha, e Alma Negrot, Raphael Jacques, que é drag queen e gaúcha.

Para além dos papéis de gênero, ambos são artistas e trabalham com maquiagem, principalmente artística. "Quando comecei a oferecer essa oficina, inicialmente, eram focadas em questões técnicas: como tampar a sobrancelha, como afinar o nariz", conta Ramirona. "Mas os corpos que faziam parte já eram dissidentes. Não era direcionado para LGBTs, mas vinha uma galera não binária, gente em transição de gênero, gente que já trabalhava com arte, com o próprio corpo."

#ramironadospincéis

Uma publicação compartilhada por @ ramirona em

Com o passar dos encontros, o espaço ali se tornou um lugar de troca e de debate em torno de questões de gênero e, principalmente, de estratégias de sobrevivência para as minorias. E a maquiagem, uma arma. "Quando a maquiagem é usada dessa forma é uma ferramenta de luta. Quando um corpo masculino usa um esmalte, uma coisa que pertence ao universo feminino, a maquiagem está nesse lugar", explica Ramirona. "E ela entra para unificar mente e corpo. Eu uso meu corpo como plataforma de expressão."

Para Alma Negrot, a ideologia de gênero sempre existiu. "E a ideologia de gênero é exatamente você obrigar as pessoas a crescerem dentro de um molde super limitado de masculino e feminino. A gente está aqui exatamente para destruir essa ideologia de gênero e ir contra isso. A gente é a dissidência. E é só maquiagem."

A gente está fazendo uma coisa que dentro dessa guerra moral não é permitido

Alma Negrot

Performer e artista Raphael Jacques mostra maquiagem durante curso "Make Guerrilha" - Mariah Kay/UOL
Performer e artista Raphael Jacques mostra maquiagem durante curso "Make Guerrilha"
Imagem: Mariah Kay/UOL

A tática de guerra faz parte do que Ramirona, Alma e Girotto chamam de terrorismo de gênero: "É promover uma quebra, uma ruptura de dentro mesmo do sistema onde as coisas estão acontecendo", diz a curadora. Para Ramirona, tudo o que subverte padrões é terrorista hoje, porque "causa o caos".

Tentando romper com padrões, até mesmo a forma de se maquiar foge do comum. Com Alma e Ramirona, ninguém vai aprender a fazer o olho de gatinha e a sombra esfumaçada. "Uma maquiagem boa não é a que tem um delineado perfeito, que tem os desenhos com as cores mais harmônicas. Mas vem quando é a sua identidade ali, quando você está conseguindo passar a sua mensagem", diz Alma. O objetivo é pensar a maquiagem para além da noção de beleza, explica Alma, usando também formas lúdicas.

As reações ao tipo de maquiagem feitas por Ramirona e Alma divergem. As crianças, dizem os artistas, ficam impressionadas e às vezes apontam, querem tocar. Já os adultos se incomodam. "Ou as pessoas objetificam, vão para uma visão meio erótica, ou elas ficam chocadas. É um homem barbudo peludo e tatuado com um salto, maquiagem e lingerie!", ri Ramirona. "E a montagem entra nesse lugar: não é homem nem mulher nem humano nem animal."

Raphael Jacques, performer conhecido como Alma Negrot - Mariah Kay/UOL
Raphael Jacques, performer conhecido como Alma Negrot
Imagem: Mariah Kay/UOL

Nascida em Gramado, Alma chocou sua cidade natal ao aparecer maquiada. "Um dia disseram que eu morri. Bicha, as pessoas inventam tanta história, nem sei como eu morri. Fui visitar minha mãe e apareci montada, era meia-noite. Fui à igreja e foi um evento", lembra. "O olho todo preto, estava o próprio demônio", brinca.

Mas nem sempre o objetivo é causar. "Percebi que existe uma coisa interessante que é você captar a atenção das pessoas com uma certa beleza dentro de toda a monstruosidade. Às vezes, é melhor do que simplesmente dar um choque", opina Alma.

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