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Brilho e bloquinho: como as redes sociais fizeram o Carnaval de rua crescer

Pedro Xicão/Purpurinárias/Divulgação
Imagem: Pedro Xicão/Purpurinárias/Divulgação

Luiza Pollo

Do TAB

05/02/2020 04h01

Não há festa brasileira mais imagética do que o Carnaval. Fantasias, maquiagem, cores e, claro, glitter por toda parte. Enquanto os desfiles dos sambódromos são tradicionalmente transmitidos pela televisão para todo mundo ver, as festas de rua costumavam encher os olhos só de quem saía de casa para curtir.

Agora, com as redes sociais, milhares de celulares captam os melhores ângulos e muito disso vai parar principalmente no Instagram. O que nos faz pensar: será que as redes estão mudando a nossa forma de curtir a festa?

Para Thiago Costa, coordenador da pós-graduação em Comunicação e Marketing Digital da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), não há dúvidas de que sim. O Carnaval de rua tem crescido nas capitais, e a impressão do pesquisador é de que as redes têm peso nisso. "Acho que podemos ver com mais clareza essa influência de uns três anos para cá. Isso coincide muito com a força maior do Carnaval de rua, principalmente o de São Paulo, que explodiu nesse tempo", afirma o pesquisador.

O historiador Luiz Antonio Simas também tem essa impressão, como contou ao TAB em entrevista sobre as fantasias problematizadas para a folia: "de certa maneira, as redes sociais alteraram o comportamento do folião. Hoje você não tem mais o folião que busca, com uma fantasia, estar escondido, estar velado. Você tem o folião que quer aparecer, o cara se fantasia e coloca no Instagram, diz para que blocos ele foi, fica acompanhando as redes sociais para ver quantas curtidas vai ter a fantasia dele", disse o pesquisador de cultura popular, samba e Carnaval, e autor de "Dicionário da História Social do Samba", vencedor do Prêmio Jabuti em 2016.

Isso tem tudo a ver com a imagem que queremos passar online, reforça Costa: você vê vários conhecidos no bloquinho e, mesmo que inconscientemente, também quer participar. Um estudo da FAAP em parceria com a MindMiners, divulgado em outubro de 2019, perguntou a quase mil usuários de redes sociais se concordavam com a frase: "Quando alguém posta uma foto de viagem nas redes sociais, aumenta minha vontade de conhecer o lugar". Entre os entrevistados, 57% disseram concordar total ou parcialmente com a afirmação. E quem posta nas redes costuma conferir ao menos uma vez o número de curtidas ou visualizações (e quem curtiu ou visualizou) o post: 64% concordaram total ou parcialmente.

Para Costa, é a prova do sentimento para o qual temos nome há menos de uma década: o FOMO (em inglês "fear of missing out", ou medo de ficar de fora). "Tenho certeza que as pessoas vão mais para a rua porque veem outras lá", opina ele.

Look paulistano

"Nos últimos anos, ganhou força a ideia de como as plataformas nos representam para os outros. Elas mostram o jeito que eu quero que as pessoas me vejam, e aí o que acontece? Eu acabo editando a minha vida de um jeito que pareça bem nas redes sociais", afirma Costa. Nada melhor do que um feriado em que dá para se vestir do que a gente quiser para alimentar essa imagem.

Para quem trabalha com a parte visual do Carnaval, isso fica bem claro. Lorena Rabelo, dona da marca de acessórios Purpurinárias, confirma que o conteúdo postado nas redes sociais dita as vendas. "Cada vez mais as pessoas estão interessadas em algo que fotografe bem. No começo, eu sentia que era algo de onda, o tema da moda. Mas mudou", relata. A empresa começou com a fabricação de itens com a temática de unicórnio (hit de 2016) para o público que frequentava as festas de Brasília, cidade onde Rabelo mora.

Com o passar dos anos, ela percebeu a transformação da tendência. "As pessoas se interessam por coisas diferentes que vão chamar a atenção. Isso tem crescido principalmente entre as nossas clientes de São Paulo, mais do que em qualquer lugar. Foge do Carnaval tradicional, e tem um grupo de pessoas que está interessado em algo que seja mais estético e artístico."

Considerando o tamanho do Carnaval de São Paulo — que já ultrapassou o do Rio de Janeiro em número de blocos em 2019 — dá para imaginar que as tendências daqui acabam se espalhando para outras cidades, principalmente aquelas que não têm tanta tradição na festa. Enquanto Rio, Salvador e Recife já têm sua marca, outras capitais, como Belo Horizonte, veem os bloquinhos de rua se multiplicar.

A capital mineira anunciava cerca de 200 blocos para o Carnaval de 2015, considerando os fins de semana de pré e pós-Carnaval. Em 2020, serão mais de 400. Nas ruas, os looks são montados principalmente com acessórios e maquiagem.

Curitiba, que sempre se assumiu dona de um Carnaval "alternativo" para quem queria fugir da folia e curtir a Zombie Walk e um desfile ao ar livre com grande chance de chuva, viu o número de bloquinhos crescer exponencialmente, assim como o público. Marcel Cruz, um dos organizadores do Garibaldes e Sacis, bloco tradicional da capital paranaense, observa que as redes sociais foram essenciais na popularização da festa. "Em 2009 isso já começou com o Orkut. Desde então, é um crescimento em PG (progressão geométrica)", conta ao TAB. Ele relata que, nos últimos anos, multiplicou-se também a diversidade de blocos, e a consolidação da festa vem ganhando aos poucos mais atenção da prefeitura, diz Cruz.

Hashtag e tutorial

O interesse pelo tema nas redes se reflete pelo número e pelo tipo de posts. No Instagram, por exemplo, a quantidade de publicações com a hashtag #Carnaval2020 mais que dobrou em 15 dias: eram cerca de 320 mil publicações em 20/01, e quase 690 mil em 4/02.

E a preparação começa cada vez mais cedo. No Pinterest, plataforma conhecida por fornecer inúmeras fontes de inspiração estéticas, as buscas por Carnaval começaram a ganhar força em setembro de 2019. No ano anterior, tinham começado em outubro. Em 2017, em dezembro.

"O Pinterest é uma plataforma de busca visual, um lugar para as pessoas encontrarem inspiração para fazer as coisas que amam. No geral, as pesquisas por 'Carnaval' aumentaram 25% neste último ano", afirma ao TAB Mariana Sensini, country manager do Pinterest para Brasil e América Latina.

E, para quem ainda está procurando inspiração, o Pinterest dá a dica: foque nos acessórios. A busca por tiaras, por exemplo, cresceu 757% de dezembro de 2018 a dezembro de 2019. No mesmo período, a procura por ombreiras subiu 193%. Outras tendências são unhas brancas com glitter (+1.600%), unhas com glitter nas pontas (+1.469%), maquiagem rosa com glitter (+539%), make com glitter prata (+535%), e maquiagem preta com glitter (+528%).

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