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Em Pernambuco, maracatu é tema de disputa entre fé e tradição

Ministério Rugido do Leão, durante evangelização no carnaval do Recife - Divulgação
Ministério Rugido do Leão, durante evangelização no carnaval do Recife Imagem: Divulgação

Mateus Araújo

Colaboração para o TAB

20/02/2020 04h00

O maracatu nação, como é chamado o folguedo recifense, e o maracatu de baque solto, aquele das regiões rurais, são dois dos maiores símbolos da cultura popular pernambucana, famosos no Carnaval, mas que vão além da festa. Com origem no sincretismo afro-ameríndio, são considerados Patrimônio Imaterial do Brasil - título concedido pelo Iphan, em 2014.

No Recife, baianas com vestidos rodados e batuqueiros marcando um ritmo cadente em alfaias acompanham o cortejo do rei e da rainha, em louvor aos orixás. Na zona da mata do Estado, região historicamente marcada pelo cultivo de cana-de-açúcar, homens cobertos por coloridas golas de lantejoulas, com um cravo na boca, cabeleiras brilhantes e lanças nas mãos, também acompanham majestades em celebração ao divino.

Mas essas tradições centenárias têm convivido cada vez mais com as transformações sociais no Estado que tem a maior concentração de evangélicos do Nordeste, de acordo com o censo demográfico de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em Pernambuco, 1.788.973 se declaram protestantes - uma em cada cinco pessoas.

"Conheço vários casos de pessoas que deixaram o maracatu para se tornarem evangélicos", afirma Elex Miguel, do Maracatu Águia Misteriosa, de Nazaré da Mata, cidade a 66 km da capital pernambucana.

Neto e filho de brincantes (como são chamadas as pessoas que participam dos folguedos), ele tem 38 anos e desde criança está em agremiações — incluindo o Cambinda Brasileira, grupo centenário, do qual foi vice-presidente. "O Águia é um grupo muito grande, com 170 componentes. E eu venho com uma função, com uma missão, junto dessa parte que chegou agora, de inovar o maracatu."

"Lá vai o cão"

Essa inovação à qual Miguel se refere passa, sobretudo, pelo processo de manter fortes as ligações afetivas dos integrantes aos grupos, abrir espaços para jovens se aproximarem mais das agremiações e ampliar as redes de contatos e produção dos maracatus. Mas não só isso: enfrentar ainda as mudanças trazidas por novos elementos de fé e cultura na região.

"Há muitos integrantes de maracatus, parentes de fundadores também, que hoje são evangélicos e abandonaram o grupo. Não podem mais brincar de maracatu porque a religião não permite", diz o rapaz, que assina a trilha sonora de "Azougue Nazaré" (2018), longa-metragem de Tiago Melo sobre intolerância religiosa e a tentativa de grupos neopentecostais de evangelizar integrantes dos maracatus - situação que se torna um problema nas famílias e na cidade em que se passa a história. "'Azougue Nazaré' é uma história muito verdadeira."

Segundo Elex Miguel, em Nazaré da Mata a pressão evangélica sobre os grupos populares é grande. "Quando passa um caboclo de lança na rua, eles dizem: 'Lá vai o cão' ou 'Lá vai o Satanás'. E essas pessoas que brincaram no maracatu [e se tornaram evangélicas] hoje têm essa mesma visão. Isso é que é interessante. Eles participaram do maracatu, brincaram o maracatu, e hoje, quando veem um caboclo de lança, eles começam a xingar."

Devoção e sincretismo

No dossiê entregue pelo governo de Pernambuco ao Iphan para solicitar o tombamento dos maracatus do Estado, há uma frase do Mestre Biá, dono e presidente do Leão Vencedor, de Carpina (PE): "A lei do maracatu é a lei do Candomblé". É um resumo, segundo os autores do documento, da relação "secreta" do folguedo com as divindades dos cultos afro-brasileiros. Todo maracatu tem base religiosa: o nação, com os orixás; o rural, com os caboclos da Jurema.

"Todos [os grupos] têm um pai de santo que faz a preparação, faz a segurança do maracatu, dos integrantes, dos símbolos. [...] Então, essa influência é muito forte dentro do maracatu", explica Anderson Miguel. "Por isso, o movimento evangélico não para de tentar tirar as pessoas de dentro dos grupos."

Para Manoelzinho Salustiano, presidente do Maracatu Piaba de Ouro, de Olinda, e da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, não há necessariamente "uma guerra, uma discussão" entre grupos e evangélicos. "Vai de pessoa pra pessoa", pondera. "Vou te dar exemplo: do lado da nossa sede tem uma igreja evangélica, e hoje nós pedimos cadeiras emprestadas pra eles e eles pedem cadeiras emprestadas pra gente. Tem também um brincante, Mestre Ferreira, que é um evangélico da Assembleia de Deus junto com a esposa, e participa do encontro estadual dos maracatus de baque solto, todo ano."

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Imagem: Divulgação

Filho do Mestre Salustiano, principal representante dos maracatus rurais pernambucanos, que morreu em 2008, aos 62 anos, Manoelzinho usa como exemplo a história de vida dos próprios pais que eram evangélicos. "Meu pai, quando morreu, era evangélico. E minha mãe, foi quem me botou na cultura popular e foi mãe de santo na Jurema, depois resolveu ser evangélica, casada com um pastor. Mas ela vem pra minha casa, eu vou pra casa dela. E a gente não discute cultura. Pois, se houvesse uma discussão, eu diria pra ela: 'Foi você que me ensinou isso daqui'."

Segundo Manoelzinho Salustiano, é preciso ter cuidado para falar "dessas questões de religião". "É um assunto delicado, que pode se tornar um conflito, e quem vai perder é o povo simples, o povo da cultura popular."

No caso do técnico ambiental Wilson Oliveira, ex-integrante de um grupo de maracatu nação — mais comuns no Recife e ligados ao candomblé —, a convivência também é boa. Ele decidiu se afastar dele depois de 10 anos, quando virou evangélico, "mas o amor por eles continua igual", diz.

"Na escola onde eu estudava, tinha um grupo de arte. O maracatu surgiu dali, e as coisas foram evoluindo tanto que o grupo saiu de lá para se vincular a centro espírita. Aí surgiu o Maracatu Nação Aurora Africana", conta. "Não imaginava nunca sair do maracatu, pois fui uns dos fundadores. Daí uma irmã me encontrou na rua e disse que eu tinha que adorar a outro Deus. Depois de uma semana, tive um sonho que mostrava que era verdade o que a irmã tinha falado. Então, recebi um convite de uma amiga pra ir pra igreja, e quando cheguei lá tudo foi confirmado por uma pregação que escutei."

Hoje frequentando a Igreja Batista, Oliveira faz parte do grupo de louvor nos cultos e diz que o que aprendeu no maracatu sobre música levou para a sua comunidade religiosa. No entanto, discorda que as igrejas possam influenciar os grupos de cultura popular. "Da mesma forma que os grupos culturais conseguem fazer um bom acolhimento dos jovens, a igreja também tem esse papel social. E não acredito acredito que a igreja influencie na transformação ou mudança dos grupos culturais."

Batuques para Jesus

O crescimento das igrejas evangélicas em Pernambuco também fez surgir um outro fenômeno cultural. Se, no interior, há relatos de intolerância aos grupos de baque solto, na capital, os maracatus nação ganharam "releituras" cristãs, com grupos de percussão que pregam o Evangelho — ao que Wilson Oliveira é contra. "Não concordo que toquem nesse período, pois não dá para distinguir pra quem está tocando", diz.

O Ministério Rugido do Leão é um desses grupos. Ele foi criado em 2005, na Igreja Obreiros de Cristo, no Recife, após um dos integrantes ter um sonho no qual "um grande grupo tocava alfaias e os demais instrumentos louvando ao Senhor", lembra a pastora Jacqueline Melo.

Com alfaias, coreografias e encenação teatral, o grupo percorre as ruas do centro histórico recifense, onde acontece o Carnaval da cidade, louvando a Deus. "Não estamos indo [ali] para criticar ou causar discórdia com nenhum grupo, pois nosso trabalho se baseia em levar a paz de Jesus", frisa. O Rugido não se considera um maracatu, apesar da percussão semelhante. "Tocamos instrumentos pernambucanos e baianos", explica a pastora.

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Imagem: Divulgação

O grupo desfila da sexta-feira até a terça-feira - incluindo uma evangelização em pleno Galo da Madrugada, no sábado. Nos desfiles, conta Melo, eles entregam panfletos com textos bíblicos e, no final, convidam as pessoas ao centro de uma roda para receber oração. "Finalizamos com entrega de Bíblias", diz.

Apesar de cada vez mais populares, os percussionistas de Jesus causam estranhamento à primeira vista, como conta o músico Samuel Cardoso, líder do grupo Tangedores, da Igreja Batista do Largo da Paz, também no Recife.

"Quando o pessoal se aproxima, é um mix de reação. Alguns acham legal, muito massa, por ser uma coisa diferenciada. São pessoas que estão ali falando de Deus, [levando] uma palavra de amor. [...] Mas tem uns que não gostam, que acham desnecessário", conta Cardoso, responsável por introduzir nos cultos os instrumentos de percussão como alfaias, abê, caixas e atabaques - únicas características que, segundo ele, que têm a ver com os grupos tradicionais de maracatu.

Ver batuques de louvor foi estranho também para os próprios frequentadores da igreja, segundo o músico. "Tudo que é novidade passa por uma fase de análise. Com os tambores não foi diferente. Principalmente aqui no Recife, onde o tambor está muito ligado à questão religiosa", recorda. "Hoje tem se desmistificado mais isso, porque tem mais igreja utilizando [alfaias], e as pessoas passaram a ver o propósito e a forma que estamos usando."

Nas evangelizações, os Tangedores usam os batuques para tocar também xote, baião, samba-reggae, frevo e ciranda. Dançarinos, atores e pregadores acompanham os músicos na evangelização.

Há polêmica, é claro, em torno dos grupos, em alguns casos acusados de apropriação cultural - preocupação que Samuel Cardoso já mostrou desde o primeiro contato com a reportagem do TAB, ao lembrar que, em 2019, uma reportagem publicada no Recife levantava tal questionamento. Cuidadoso, ele pontua o distanciamento. "A gente não se denomina maracatu, porque sabemos que existem neles os rituais, os adereços, os símbolos que são utilizados e que nós não utilizamos", conta.

Para o presidente da Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco, Fábio Sotero, porém, os grupos evangélicos que tocam o ritmo não têm a "simplicidade de reconhecer que estão reproduzindo uma manifestação secular" - o que, segundo ele, é "falta de respeito com a cultura popular". "Se eles não reconhecem isso, acredito que não é coisa boa nem pra gente, nem pra eles."

"Os maracatus que existem dentro de igrejas evangélicas [...] se utilizam dos instrumentos, nossas batidas, nossos sotaques, características do maracatu, mas não admitem que são maracatus e não usam para difundir uma cultura secular, um patrimônio, e sim, para tentar evangelizar, atrair jovens", diz Sotero. "Se eles usassem e fizessem esse tipo de trabalho a partir de um trabalho social, reconhecendo que aquilo é de maracatu, [...] aí a gente não teria problema nenhum, pois seria uma divulgação", acrescenta.

Para o presidente da Associação, o que as igrejas têm feito é "apropriação indevida". "Então, após o carnaval, a gente vai sentar junto com o Iphan e tentar dialogar com o Ministério Público para que isso seja impedido, de eles se utilizarem da nossa manifestações dizendo que é outra história. Fazer como o que aconteceu na Bahia, que imitavam o acarajé e chamavam de Bolinho de Jesus."

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