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Isolados, turistas brasileiros na Índia temem enfrentar crise humanitária

Wendell de Oliveira (dir) com a família, na casa onde vivem há mais de um mês - Arquivo pessoal
Wendell de Oliveira (dir) com a família, na casa onde vivem há mais de um mês Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Fabre

Colaboração para o TAB, de Quetzaltenango, na Guatemala

08/04/2020 04h00

"No restante do mundo, as pessoas estão em quarentena com medo do novo coronavírus. Aqui o coronavírus é a menor das nossas preocupações. A gente tem medo de passar fome, de ser agredido. Aqui, a gente tem medo de uma revolta social", é assim que o turista brasileiro Wendell de Oliveira resume a sensação de estar retido na Índia durante a quarentena imposta para controlar o avanço da covid-19.

A medida, que entrou em vigor em 25 de março e terá duração de 21 dias, inclui fechamento de aeroportos e a restrição de serviços. Com isso, muitos turistas brasileiros ficaram impossibilitados de deixar o país. Antes mesmo disso, contudo, eles já enfrentavam dificuldades. O redator de mídias sociais Rodrigo Lemos de Faria chegou à Índia em 7 de março e, poucos dias depois, já passou a ser chamado de "corona" nas ruas. Desde o dia 13, o país proibiu a entrada de estrangeiros e, com a diminuição dos hóspedes, muitos hotéis e albergues fecharam as portas.

Após quase três semanas isolado, Rodrigo Lemos de Faria foi ao supermercado pela primeira vez e encontrou as prateleiras vazias - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Após quase três semanas isolado, Rodrigo Lemos de Faria foi ao supermercado pela primeira vez e encontrou as prateleiras vazias
Imagem: Arquivo pessoal

Claudia Segobia havia planejado passar dois meses na Índia praticando meditação e turismo, mas, com o avanço da pandemia, foi expulsa do hotel em que estava — 10 dias antes do término de sua reserva. A servidora pública aposentada diz ainda que tentaram confiscar seu passaporte para entregar à polícia. Ao deixar o hotel, em 25 de março, passou a notar que as pessoas se afastavam dela nas ruas, enquanto "outros me chamavam de 'corona' e me mandavam ir para casa".

Faria conseguiu abrigo em um albergue em Jaipur, a 270 km da capital. Com oferta limitada de restaurantes que realizam entrega e apenas recebendo pagamento em cartão, o brasileiro conta com apoio de voluntários: "eles até se arriscam por mim, não me deixam sair, porque eles sabem que não é seguro". O brasileiro conta que boa parte da população — incluindo membros da força policial — acredita que os estrangeiros estão contaminados com o vírus. Oliveira avalia que a reação dos moradores é de medo em relação a qualquer estrangeiro. "Eles estão tratando o estrangeiro como se fosse a encarnação do novo coronavírus", relata.

Ao aterrissar na Índia há pouco mais de um mês, Oliveira e sua família foram colocados em isolamento domiciliar. Era previsto que a restrição durasse 14 dias, com direito a saídas para serviços essenciais, mas, poucos dias depois, policiais foram até a casa e ampliaram o período de quarentena para 28 dias, afirmando que somente após esse prazo a família teria direito ao Certificado de Conclusão de Quarentena e poderia, então, sair às ruas.

Contando apenas com serviços de entrega de comida, a família precisou da ajuda dos vizinhos. "Virou uma prisão domiciliar, essa é a verdade. Qualquer um que saia na rua eles já partem para a agressão. Por isso que, para a gente que é estrangeiro, é importante ter esse documento", explica Oliveira, que vive na Tailândia com a esposa, agora grávida de 4 meses.

O casal se juntou aos pais e ao irmão de Oliveira, que saíram do Brasil para o que seria uma viagem curta à Índia. Agora, conseguiram ir a uma maternidade próxima para agendar uma consulta de pré-natal — e se preparam psicologicamente para a possibilidade de o parto ser realizado lá. A família está em Kochi, localizada 2,7 mil km ao sul da capital. "Mesmo que a Embaixada traga um voo saindo de Nova Délhi, nós não conseguiremos chegar até lá, porque o transporte interno do país não está funcionando", lamenta.

Notícias que mostram milhares de trabalhadores desempregados caminhando para voltar às suas cidades natais e vídeos de policiais agredindo com varas de bambu pessoas que descumprem a quarentena aumentam o clima de insegurança entre os brasileiros. "Eu sinto que a crise em breve vai deixar de ser diplomática para se tornar humanitária", opina Oliveira.

Com 1,3 bilhão de habitantes, a Índia possui 2.032 casos confirmados de infectados pela covid-19, com 58 mortos e 148 recuperados, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins (EUA). Entre os brasileiros, uma das maiores preocupações é a possível extensão do período de quarentena e a instabilidade que isso pode gerar na Índia. "A situação é de bomba-relógio. É assim que o grupo tem definido, porque a gente sabe do potencial epidêmico da Índia", conta Faria. Diante disso, eles se organizaram em um grupo de WhatsApp para reunir informações e manter contato com a Embaixada Brasileira. O grupo já reúne 178 brasileiros, espalhados por 27 cidades na Índia e duas no Nepal. De acordo com o Itamaraty, 271 brasileiros permanecem na Índia aguardando repatriação.

Chantagem sexual

Ao ser expulsa do hotel, Segobia conseguiu se hospedar na casa de uma família na cidade de Vrindavana, a 180 km de Nova Délhi. Chegando lá, entretanto, a aposentada foi vítima de assédio e tentativa de chantagem sexual. "Ele pediu que eu saísse e disse: 'Mas você pode ficar se...' e aí nesse momento ele passou a mão no meio das pernas dele, indicando que eu deveria trocar a minha estadia por uma relação sexual." Segobia ligou, então, para uma amiga que lhe ofereceu abrigo e enviou o marido para ajudá-la a sair do local em segurança.

No quarto onde está agora, tampou a janela com um pano para não ser notada. Desde que chegou, há sete dias, não saiu às ruas e tem se alimentado com doações de um templo próximo à casa: "fome a gente não está passando, mas é por caridade dos outros". A aposentada diz que, às vezes, ainda recebe ameaças de que será denunciada para a polícia por ser estrangeira. "Eu estou num estado muito complicado de alteração da minha mente, estou depressiva e com medo de sair para a rua", conta Segobia.

A servidora pública aposentada Claudia Segobia, que agora vive no quarto oferecido pela amiga de janelas fechadas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A servidora pública aposentada Claudia Segobia, que agora vive no quarto oferecido pela amiga de janelas fechadas
Imagem: Arquivo pessoal

Repatriação inviável

"O Itamaraty sempre foi muito sincero com a gente sobre a dificuldade de logística. Só que o cerco está se fechando", alerta Faria. Em nota, o Itamaraty informou que o número estimado de brasileiros aguardando repatriação é de 6.521 pessoas distribuídas, em 80 países. "O que esperamos é que venham nos buscar, porque a maioria já não tem mais recursos para sobreviver aqui no país", afirma Segobia. A servidora aposentada teve a passagem de retorno cancelada e reclama dos altos valores cobrados para as próximas datas disponíveis. "As companhias aéreas estão aproveitando esse momento para extorquir as pessoas", opina. Segundo Oliveira, a embaixada ofereceu levar mantimentos enquanto a família estava isolada, mas a assistência apenas ameniza a situação, uma vez que o tamanho do país dificulta o resgate dos brasileiros.

Rodrigo Lemos de Faria (dir) com a equipe do hostel, que se reveza para atender os hóspedes estrangeiros - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Rodrigo Lemos de Faria (dir) com a equipe do hostel, que se reveza para atender os hóspedes estrangeiros
Imagem: Arquivo pessoal

A Embaixada do Brasil anunciou que o governo brasileiro autorizou o fretamento de um avião para repatriar os brasileiros que se encontram retidos na Índia. A previsão seria que o voo ocorreria ainda esta semana, mas até o momento, os brasileiros de lá ainda não receberam confirmação. Como há brasileiros em mais de 20 cidades do país, ônibus partirão de pontos de encontro para levá-los a Nova Délhi e Mumbai. Ainda segundo o comunicado, todos os custos serão cobertos pelo governo brasileiro.