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Guerra ao coronavírus em NY recruta jovens da geração Z e separa casais

Giranette e Nalu: Separadas após chamado do governo dos Estados Unidos - Arquivo Pessoal
Giranette e Nalu: Separadas após chamado do governo dos Estados Unidos Imagem: Arquivo Pessoal

Tiago Dias

Do TAB

03/04/2020 04h00

"Guarda Nacional: Sempre pronta, sempre lá". O lema da força militar dos Estados Unidos serve para lembrar a seus membros que é preciso estar permanentemente atento para qualquer possível ameaça. O chamado para dominicana americana Girannette Lister, 22 anos, chegou realmente sem muito aviso, às 20h da última quinta-feira (26).

Ela estava em em Nova York e assistia uma série com a esposa, a brasileira Nalü Romano, 22, justamente para desopilar das informações sobre o avanço do novo coronavírus. Foi quando o celular vibrou. A mensagem era breve: Lister precisava juntar itens essenciais de higiene "para meses" e se apresentar à base do exército às 9h do dia seguinte. E só. Chocada, Romano abriu o Twitter e desabafou: "Minha esposa está indo embora hoje sem previsão de voltar".

"Eles não dão muita informação [sobre o destino dos soldados] e daí vem a angústia", conta a brasileira ao TAB. "O pior de tudo é isso, é abraçar a pessoa que você ama sem saber quando vai vê-la de novo ou qual é o risco que ela está correndo. Isso é uma dor psicológica muito grande, quase física."

Romano e Lister moram juntas há dois anos num bairro no Brooklyn, em Nova York, um dos epicentros da epidemia nos Estados Unidos. A cidade, famosa por nunca parar, parece hoje um território abandonado. Por lá, ao menos 75 mil pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus. O número de óbitos aumenta a cada dia: eram 1.550 até terça-feira (31).

Na última semana, após desacreditar da potência do vírus, o presidente Donald Trump mudou a postura e autorizou a mobilização da Guarda Nacional dos EUA para ajudar os estados mais atingidos, como Nova York, Califórnia e Washington. Composta por membros da ativa ou inativos das forças armadas, essa força federal pode ser chamada a agir pelos governantes em situações de emergências domésticas ou desastres, como os causados por furacões, enchentes e terremotos.

O chamado foi disparado na semana passada para mais de 10 mil membros, entre eles o deputado democrata Max Rose, 34 — que precisou se ausentar das funções no congresso americano para encarar a pandemia —, mas uma fatia considerável de quem vai estar na linha de frente está em sua primeira missão. São jovens de 17 e 25 anos, assim como Lister, e que fazem parte da geração Z, antenas do tempo que conheciam momentos decisivos apenas nos livros e, agora, encaram o primeiro chamado de um mundo em perigo.

"A nossa geração nunca pensou real que ia passar por uma coisa dessa", observa Romano. "É muito louco porque parece que a gente vive um filme de terror, a gente já tinha uma ansiedade que isso poderia acontecer. Mas se aconteceu é porque tudo ficou muito pior."

Nas poucas horas restantes antes da despedida, Romano raspou o cabelo da esposa, um das exigências para a apresentação. "A reação dela foi menos pior do que a minha. Por causa do treinamento anual, ela tem um pouco da mente e do coração preparados para esse momento", diz.

Autora do livro "Você (e todas as outras coisas que me machucam também)", sobre as agruras do primeiro relacionamento, Romano abriu um canal forte nas redes sociais com outras garotas de sua idade. Com tantas trocas, ela observa alguns impactos já sentidos por essa geração. "Nunca vivemos antes esse mundo parado, nessa intensidade, com tanta informação e com tanto acesso", observa.

"A gente tem muito pra falar porque a gente está sozinho. E isso é uma coisa da nossa geração: a gente já fala pra caramba sem saber das coisas, e agora que estamos vivendo um momento histórico, não vamos calar a boca. Nós vamos virar mais velhos muito mais rápido."

Servir e proteger

O casal assistia o avanço da pandemia pelo mundo dentro de casa, onde estavam há duas semanas de quarentena. Da janela, elas viam apenas uma ou outra pessoa que saia para correr ou passear com cachorro. "Nova York teve uma virada muito rápida, e foi muito louco porque parte das pessoas demorou demais para acreditar. O ritmo aqui é muito louco. É difícil derrubar um nova-iorquino. Acho que demoraram para dar o braço a torcer. Arrisco dizer que isso foi precursor do problema, dessa quantidade toda de gente infectada", avalia.

Se as informações nas redes sociais não cessam, o mesmo não pode ser dito sobre os recrutados. Seus destinos e funções são restritos a poucas pessoas do círculo familiar.

Em muitos estados, eles estão sendo chamados para aplicar recursos e alocar pessoas, equipamentos e fundos. No Arizona, alguns membros são responsáveis por abastecer as prateleiras dos mercados com alimentos e medicações. Segundo o chefe do departamento da Guarda Nacional, o general Joseph Lengyel, é o que essa força militar faz quando não está travando guerras. "Protegemos nossas comunidades."

Treinamento da Guarda Nacional: Jovens entre 17 e 25 anos estão na linha de frente na guerra contra o coronavírus nos Estados Unidos - National Guard
Treinamento da Guarda Nacional: Jovens entre 17 e 25 anos estão na linha de frente na guerra contra o coronavírus nos Estados Unidos
Imagem: National Guard

Dias depois da partida, já se sabe onde Lister está. Com formação médica, ela está alocada em um dos hospitais provisórios montados pelo governo de Nova York. A comunicação entre elas não é restrita, mas não é garantida, depende da demanda do momento. As mensagens breves de bom dia, por enquanto, não cessaram.

"Já acordo chorando. Por enquanto está dando certo, mas a gente não sabe o dia da amanhã, literalmente", diz. "O que eu sei é que é tudo provisório e as coisas mudam conforme a necessidade. Nesse momento, é seguir as instruções e fazer o melhor que dá. Pelas nossas mensagens e ligações, é o que eu tenho absorvido disso".

Em poucos dias no front de uma guerra sem tiros, Lister comentou com a esposa sobre o misto de energia que anda sentindo. "Ela me falou sobre estar entre a energia da solidariedade, de estar fazendo parte de um movimento de amor, mas também ver outro extremo, de ver famílias sofrendo, as coisas que você escuta, as instruções aos soldados. É difícil ouvir as instruções num momento como esse de escassez de equipamentos, leito, espaço."

Tudo será diferente

No Brasil, os militares têm ido na contramão das ideias aventadas pelo presidente Jair Bolsonaro, que sinalizou, em discursos oficiais, ser contra o isolamento total da população. Nesta terça-feira (31), o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, afirmou que a Força Nacional brasileira será convocada para ajudar na guerra contra o coronavírus.

Ainda não se sabe o tamanho do contingente, mas a ajuda estará concentrada em escoltas e ações sanitárias. "Essa ajuda ainda vai ser discutida com o ministério da Saúde, foi uma medida oportuna para deixar a Força Nacional preparada, caso uma intervenção em relação à segurança pública seja necessária", disse Moro.

Dentro de casa, como muitos de nós, Romano observa o momento inédito. Ainda sem saber o desfecho dessa história, ela observa que essa geração estará diferente quando tudo passar.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu mesma estou me preparando para receber uma Girannette diferente, que eu não conheço", diz. "Enquanto jovem artista, acho que isso vai ter um impacto no que eu vou escrever daqui pra frente. De certa forma, isso vai estar dentro de nós. São feridas que, por mais que se fechem, vão sempre ser uma cicatriz. Essas cicatrizes vão definir muito no nosso percorrer."