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Game 'Tibia' tem lógica de empresa, extorsões e faz brasileiro milionário

O servidor público Renan Honorato - Arquivo pessoal
O servidor público Renan Honorato Imagem: Arquivo pessoal

Giacomo Vicenzo

Colaboração para o TAB

12/06/2020 04h00

Criado pela empresa alemã Cipsoft em 1997, o jogo Tibia é um fenômeno. Sem som, com elementos visuais 2D e animações gráficas retrô, ele reúne até 40 mil jogadores online simultaneamente. Todos os dias, a audiência chega a 120 mil usuários.

Agora, fenômeno mesmo é o que jogadores têm conseguido fazer a partir dele.

Há cerca de 10 anos, Tibia era apenas diversão para o porto-alegrense Gunnar Ferreira, 26, que passava o dia todo jogando em frente ao computador. A chegada à maioridade e a pressão da família para que ele encontrasse um emprego fez com que o jogo virasse uma fonte de renda. Ele passou a comprar e vender as moedas de ouro (gold coins) ganhas no jogo para amigos — aos poucos, era só isso que fazia naquele ambiente.

Ferreira criou o site TibiaforSale para concentrar as transações. Com o tempo, sua rede de relacionamentos cresceu dentro do game, a ponto de comprar o dinheiro do jogo e revender por dinheiro real. "Tibia mudou minha vida. Com 21 anos eu fiz R$ 1 milhão negociando", diz.

Hoje, seu site revende Tibia Coins, um tipo de moeda virtual do jogo que pode ser comprada dentro do mercado do game, por Gold Coins, ou fora dele por dinheiro real. No site oficial do game, o câmbio está em R$ 56 pela quantia de 250 Tibia Coins, com a qual é possível comprar também 30 dias de Premium Time, que dá acesso a todas as cidades e outras vantagens que ajudam no avanço dos personagens.

Do andar de cima da casa da família, trabalhando cerca de 16 horas por dia, as atividades no game que viraram negócio em 2013 garantiram que Ferreira, que nunca trabalhou antes em um emprego formal, pudesse comprar sua casa própria, viajasse para a Europa e Estados Unidos, ajudasse nas despesas da graduação em medicina de sua irmã e ostentasse fotos em carros esportivos em sua conta do Instagram. "Nunca fui muito de sair ir para baladas. No começo, dividia uma marmita para o almoço e janta, enquanto fazia as transações de itens do jogo", lembra ele.

A possibilidade de ganhar dinheiro jogando atrai diversos jogadores, que veem no jogo uma oportunidade de ganhar dinheiro de verdade caçando criaturas e vendendo seus itens, até conseguirem comprar quantidade suficiente de Tibia Coins. Muitos vendem as moedas a outras pessoas ou a sites como o de Gunnar. A transação permite que se avance mais rápido no jogo. "Hoje pagamos R$ 42 em 250 Tibia Coins e revendemos por R$ 52", explica Ferreira.

Em maio, o site TibiaforSale se tornou um dos três revendedores oficiais brasileiros e a empresa agora pode comprar as moedas com 18% de desconto do próprio desenvolvedor do game. "Já vendemos até R$ 60 mil reais em um dia", revela.

Estrutura do jogo

O estilo MMORPG (massively multiplayer online role playing game) permite que se criem personagens e interaja de forma dinâmica em um mundo persistente, aberto, sem objetivos pré-definidos.

Dentro do game, cuja narrativa remonta à era medieval, é possível escolher entre quatro classes: druida, feiticeiro, cavaleiro ou paladino, que podem se unir em times chamados guildas, caçar criaturas, declarar guerras, fazer amizades dentro da comunidade ou simplesmente explorar o mapa. O jogo, em si, é gratuito.

E seguimos em casa nerdiando

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É possível demorar meses ou anos para conseguir vencer um embate com as guildas mais fortes e tornar-se o melhor jogador de um dos 77 servidores disponíveis para iniciar uma aventura ou acessar todas as áreas do jogo. Uma porta restrita para jogadores de nível 999 ou acima só foi aberta 12 anos após sua implementação no game, por exemplo.

Pessoas de mais de 200 países jogam Tibia. O Brasil está junto com os Estados Unidos, Suécia, Polônia e México, entre os países que mais têm jogadores, de acordo com um infográfico divulgado pela desenvolvedora.

Brincadeira ou extorsão?

Longe das ambições de vender moedas no jogo, o servidor público Renan Honorato, 34, de Guaratinguetá (SP), aproveita o tempo livre para se divertir com sua esposa jogando cerca de duas horas por dia no servidor do game chamado Zunera, em que não é possível trocar os personagens para outro servidor. Jogando todos os dias por cerca de um ano, ele conseguiu alcançar o nível 251 em um personagem.

Recentemente, Honorato passou por uma experiência nada agradável: foi seguido dentro do jogo, derrotado e morto.

Quando isso acontece, o personagem perde uma porcentagem de pontos de experiência conquistados e pode ou não perder equipamentos — algo comum à mecânica do game, com a diferença da proposta de paz.

A guilda que o matou lhe ofereceu um "acordo de paz", em troca do pagamento do dinheiro monetizável do jogo. Para poder jogar sem adversários, Honorato e a esposa pagam 25 Tibia Coins mensais a esse grupo de jogadores (entre R$ 5 a R$ 6). Esse é o custo para passar a ser um membro do time que reúne o maior número de jogadores ativos nesse servidor. "Não tive opção. Ou entrava na guilda pagando essa mensalidade ou esse grupo dominante me perturbava o jogo todo tentando me matar."

TAB testou o jogo e também teve um personagem perseguido e derrotado. Ao questionar o porquê do ataque, o grupo alegou que persegue a todos que não fazem parte da sua guilda, e abriu a proposta de integrá-la mediante pagamento. Somente os líderes têm acesso à moeda virtual.

Para o advogado Fabricio Posocco, que trabalha na área do Direito Digital, a prática pode ser encarada como uma extorsão virtual. "Se admitirmos que as moedas virtuais são hoje valores econômicos, em tese, as chantagens virtuais existentes poderiam ser apontadas como extorsão virtual, admitindo uma interpretação ampla da legislação criminal nacional."

No entanto, o advogado lembra que a interpretação não é admitida pela jurisprudência. "Parte dos profissionais alega que deve existir uma legislação específica para o mundo virtual, sob o argumento de que condutas específicas ocorridas no mundo virtual não são criminalizadas e, portanto, não podem ser punidas."

Estar no jogo é opcional, mas Helen Barbosa dos Santos, doutora em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), vê um quadro de submissão virtual nos jogadores. "O prazer do jogo pode fazer algumas pessoas se submeterem a alguns exemplos de violência, que pode ser a patrimonial, pode ser a psicológica. Essa pessoa vai pagar um preço se o jogo significar algo a mais para ela", comenta.

O TAB questionou a Cipsoft, desenvolvedora do jogo. Em nota, a empresa informou que as Tibia Coins podem ser transferidas entre jogadores, mas são válidas apenas nos servidores oficiais do jogo e não apoiam o uso para outros fins. Alertam ainda que o risco de fraude é grande entre transações com dinheiro real, e que veta esse tipo de publicidade no jogo, penalizando quem faz isso. A empresa declarou que a prática conhecida como Guild Bank é permitida, e os usuários são livres para decidir como esses times serão estruturados.

Organização, poder e rebelião virtual

As guildas são um sistema criado pelo próprio Tibia. Ao entrar em uma, o personagem tem o nome dela atribuído e apresentado juntamente com as informações de nível e vocação, que são públicas e disponíveis para outros jogadores online. Para uma guilda ser considerada "dominante", algo que não existe nas regras, é preciso que ela, na maioria das vezes, vença seus adversários pelo cansaço e pela possibilidade de ter mais jogadores online e por mais tempo.

O policial militar Wellington Ildebrando, 27, de Itapira (SP), pertence a uma guilda considerada "dominante". "Tinha de pagar todo mês. Eles diziam que esse valor seria revertido para nos ajudar, mas nunca vi essa ajuda e fingia que esquecia de pagar. Quando eles lembravam, me cobravam e ameaçavam me expulsar."

Felipe Rubini Pereira, 28, de Campo Grande (MS), é um dos líderes de uma guilda. Conhecido no jogo como Rubini, o jovem joga há 15 anos. Sua renda é proveniente das lives que faz há quatro anos na plataforma Twitch, dedicada a conteúdo gamer. Ele garante que o dinheiro do Guild Bank não era usado em benefício próprio.

Foi por ter encontrado essa situação no game que Natan Ganum, 22, montou um time-rebelião contra os dominantes que cobravam a taxa. Ganum vive de lives na Twitch e dos patrocínios que tem, "Muitos achavam que os líderes roubavam, isso me motivou e motivou muita gente a fazer isso. É abuso de poder", lembra ele.

Ganum saiu do Acre, onde morava com sua mãe, e alugou uma casa em Maringá (PR), com o dinheiro que ganha com as lives. "Prefiro não falar em valores, mas consigo ajudar minha mãe que é professora e ganhava muito pouco."

Financiar essas guerras virtuais custa caro. Um patrocinador que trabalha na área de investimentos aceitou conversar com o TAB em condição de anonimato. Ele afirma ter investido cerca de R$ 50 mil em dois meses no time de Natan Ganum. "É um hobby, né? Quem vai para a noitada gasta dinheiro também. Trabalho o dia inteiro, mas a molecada tem tempo. Era a forma de ajudar e poder chegar à noite e brincar", afirma.

O investidor afirma ter pago a um grupo de jogadores venezuelanos para jogar em seu lugar. "Tinha 20 venezuelanos contratados jogando. Eles faziam mais dinheiro que o chefe da família na casa deles e recebiam por hora em dinheiro do jogo, o que era equivalente a 4 dólares", comenta. "Qualquer pessoa acharia um absurdo gastar tanto dinheiro nesse game, mas dá para retornar alguma coisa, tem itens que custam R$ 10 mil e se você tem um servidor dominado, há mais chances de ter acesso a esse item."

O mexicano Luis Alfonso Carreño, de 25 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O mexicano Luis Alfonso Carreño, de 25 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Saída em meio à pandemia

A quantia ganha no jogo foi suficiente para fazer com que Leonardo Oliveira, 29, que mora em Macaé (RJ), deixasse o emprego de taxista para trás. Na praça ele trabalhava 12 horas ao dia; agora, investe três horas a menos do seu dia, ganhando o mesmo. "Quando começou a quarentena eu fiquei só no Tibia. Com a venda de Tibia Coins, consigo em média R$ 2 mil", comenta.

O mexicano Luis Alfonso Carreño, 25, mora em Puerto Escondido, na cidade de Oaxaca, e também lucra garimpando essas moedas de criaturas no game. Ele criou uma conta comercial no Instagram dedicada a vender essas moedas do jogo. Carreño consegue lucrar o equivalente a R$ 6 mil por mês com a venda das Tibia Coins. "Tenho compradores de todos os tipos, de criminosos até crianças de 10 anos", afirma ao TAB.