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No 'novo normal' ainda teremos crise política, diz ativista da Nicarágua

16.jul.18 - Amigos e familiares carregam o caixão do estudante Gerald Vasquez, morto pelas forças pró-governamentais da Nicarágua - Inti Ocon/AFP
16.jul.18 - Amigos e familiares carregam o caixão do estudante Gerald Vasquez, morto pelas forças pró-governamentais da Nicarágua Imagem: Inti Ocon/AFP

Daniela Arcanjo

Colaboração para o TAB

24/06/2020 04h00

No primeiro mês da pandemia, o presidente desapareceu. No segundo mês, a vice (que é sua mulher), convocou uma marcha: "O amor nos tempos de Covid". Como o livro de Gabriel García Marquez. O presidente reapareceu após 34 dias, mas não falou sobre a enfermidade. No quarto mês, ainda não haviam suspendido campeonatos de esporte.

O governo da Nicarágua ainda não tomou medidas rígidas de isolamento social, mas as cifras oficiais surpreendem: são 55 mortos e quase 1500 casos -- número que, pelos dados do governo, pode diminuir de um dia para o outro, já que os recuperados não entram na conta. "Os que pedem o confinamento são aqueles que queriam a destruição do país em 2018", afirma o ditador Daniel Ortega, referindo-se aos protestos que, segundo a Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos, podem ter sido o palco de mais de 500 mortes.

A população ia às ruas, inicialmente, contra uma reforma da previdência. As marchas logo mudaram de foco e passaram a mirar a renúncia de Ortega. Naquele ano, um vídeo de um jovem de 20 anos viralizou (assista abaixo). Lesther Alemán estava em uma mesa de negociação com o presidente, ao lado de outros estudantes, quando se levantou. "Esta não é uma mesa de diálogo. É uma mesa para negociar sua saída", afirmou. "Faz 12 anos que ouvimos isso", disse, referindo-se ao período em que Ortega estava no cargo.

Ortega está na presidência desde 2007. Antes disso, já havia sido eleito para chefiar o executivo do país em 1984, mas tinha completado apenas um mandato. Adquiriu fama justamente por lutar, com a Frente Sandinista de Libertação Nacional, contra o ditador Anastasio Somoza Debayle, na década de 1970.

Alemán é um estudante de Comunicação na Nicarágua. Como muitos jovens, envolveu-se em política na universidade. Após a sua intervenção, teve sair do país por conta das ameaças que recebeu. Foi para os Estados Unidos, de onde voltou há seis meses. "Se eu tivesse pensado nas consequências, creio que não teria feito, talvez", diz sobre o confronto. "Ali, eu pensei em solucionar uma crise."

Mal voltou e uma nova crise se instalou no país: a sanitária, pela disseminação do novo coronavírus. Na Aliança Cívica Nicarágua, um dos maiores movimentos de oposição à Ortega, o estudante colabora fazendo campanhas de isolamento social e distribuindo máscaras aos cidadãos. Mas não é otimista: "Se existir um novo normal depois do coronavírus, nós continuaremos em uma crise política. Quando resolvermos a crise política, posso tentar responder sobre como fazer esse novo normal", diz Alemán, em entrevista ao TAB.

TAB: Como têm sido os últimos seis meses desde que você voltou à Nicarágua?

Lesther Alemán: Meus primeiros seis meses em Nicarágua têm sido similares aos do restante da população. Vivemos em um estado policial. Há perseguição diária a toda pessoa que se destaque como um opositor do regime de Ortega. Tenho vivido um dia de cada vez, porque o contexto muda diariamente. Há uma constante vigilância sobre nós.

TAB: Se um brasileiro for colocado agora no centro de Manágua, capital do país, o que ele vai ver?

LA: Se um brasileiro for colocado na rua central de Manágua, vai encontrar um ambiente de medo. Ele não vai poder perguntar sobre temas políticos, porque todos vão evitar falar disso. Ao seu redor, vai ver pessoas com máscaras. Máscaras baratas, de pano, ou uma camiseta no rosto. As máscaras médicas estão escassas, há desabastecimento e falta dinheiro para comprar. Um dos temas sobre o qual esse brasileiro poderá falar será economia. Há muitas pessoas com problemas econômicos.

TAB: Você participa de um dos principais movimentos de oposição a Daniel Ortega, a Aliança Cívica Nicarágua. Quais são as prioridades do movimento agora?

LA: Bom, a pandemia é de caráter urgente. Colocamos a vida dos nicaraguenses no centro de qualquer decisão. Proteger todos sem qualquer distinção política, ideológica, de gênero ou raça. Não estamos aqui para aumentar a polarização ou danificar o tecido social mais do que ele já está danificado. Também é uma das nossas prioridades resolver a crise política que se instalou a partir de 2018.

Seguimos pressionando por uma reforma eleitoral que proporcione eleições justas, competitivas e transparentes, assim como pressionamos a ditadura para liberar os presos políticos e garantir os direitos civis aos cidadãos.

TAB: Esses movimentos se identificam com alguma corrente política?

LA: Aqui não é uma luta da direita querendo acabar com a esquerda nem da esquerda resistindo à direita. Há uma confluência de distintas procedências ideológicas: esquerda, direita, dissidência de esquerda, centro-esquerda, centro-direita, social-democrata, social-cristão. Aqui, isso é quase insignificante perto do desafio que temos para construir a Nicarágua. Todos concordamos em sair da ditadura. Essa perspectiva tirou da nossa frente a bandeira política, o que foi enriquecedor.

TAB: Na América Latina, há muitas pessoas que vivem daquilo que conseguem no dia, trabalhadores informais. Para elas, é muito difícil fazer quarentena. Como estão lidando com isso na Nicarágua?

LA: Para pessoas que não podem ficar em casa, temos trabalhado na entrega de kits para se protegerem. São os trabalhadores informais, que vendem no semáforo, nas ruas, pontos de ônibus e feiras. São os que mais têm dificuldade de ficar em casa e comprar um álcool em gel ou máscara. É como em todas as partes do mundo, o trabalhador informal não tem uma organização para apoiá-lo.

TAB: O mundo passa por uma ebulição, com protestos por toda parte, especialmente após a morte de George Floyd no Estados Unidos. Vocês pensam em sair às ruas agora?

LA: Não. Não podemos sair às ruas em meio à crise que a Nicarágua enfrenta. Acho que fomos e devemos ser muito conscientes quando falamos que o regime estava sendo inconsequente ao aglomerar seus fanáticos. E nós não podemos fazer isso, estaríamos nos empurrando rumo a um contágio massivo. Creio que há outras lutas que demandam a nossa atenção nesse caso: a vida e a saúde dos nicaraguenses. Podemos protestar em nossas casas, nas redes sociais, em grupos pequenos, mas, na Nicarágua, você tem que sobreviver primeiro à pandemia e à perseguição da ditadura.



TAB: Neste mês, o governo Bolsonaro parou de informar os mortos totais e está informando somente os mortos do dia [a decisão já foi revista pelo Supremo Tribunal Federal]. Além disso, há uma tentativa de recontar os mortos. Na Nicarágua, os infectados diminuem com o passar dos dias porque o regime ignora os que já foram curados. Como essas medidas impactaram o país?

LA: Acho que ocultar dados tem muito a ver com uma estratégia de fugir da realidade. Ortega fez isso e continua fazendo porque a manobra atende suas bases, impacta tudo. Quando esses dados não são críveis, a sociedade desconfia totalmente do sistema. Os médicos vão sobrevivendo ao vírus, se protegendo por outros meios, porque eles não estão sendo protegidos pelo Estado.

TAB: Qual é o cálculo político de Ortega? O que ele ganha com essa gestão da crise?

LA: Negar a realidade e construir a sua própria. Construir um mundo paralelo e demonstrar força. Apesar de tudo, e ainda que pareça incompreensível negar a pandemia, ele está demonstrando que supostamente a controla. Ele informa os mortos que quer, como se controlasse os mortos. Ele controla quem morre e quem não morre. É parte de se crer um messias. É parte de se crer um abençoado por estar no poder.

TAB: Você tinha 20 anos quando confrontou Ortega, em 2018. Chegou a pensar nas consequências da sua intervenção naquele dia?

LA: Se eu tivesse pensado nas consequências, creio que não teria feito, talvez. Ali, eu pensei em solucionar uma crise. Pensei também em mudar a Nicarágua.

TAB: Todos falam do "novo normal" quando a pandemia passar. Qual será o novo normal da Nicarágua?

Não sei se teremos um novo normal. Infelizmente, o que nós estamos enfrentando agora é um contexto difícil, de maior contágio, de mortos. Sabemos que, se descobrirem uma vacina, não vai ser amanhã ou em um futuro próximo. Então teremos que continuar lidando e enfrentando a morte dia a dia. Se existir um novo normal depois do coronavírus, nós continuaremos em uma crise política. Quando resolvermos a crise política, posso tentar responder sobre como fazer esse novo normal. Só então, eu teria a claridade do que poderia ser o futuro.