PUBLICIDADE

Topo

Online sempre: por que nos adaptamos tão fácil às mensagens instantâneas

Visuals/Unsplash
Imagem: Visuals/Unsplash

Bruna Somma

Colaboração para o TAB

17/08/2020 12h00

É raro encontrar alguém que tenha um celular com acesso à internet sem o WhatsApp instalado. A ferramenta de mensagens instantâneas que ajuda a aproximar pessoas à distância por meio de textos, fotos, vídeos, áudios e figurinhas é a mais popular no Brasil.

Segundo uma pesquisa feita pela consultoria Croma Insights em 2019, com aproximadamente 1.400 usuários brasileiros, ao menos metade deles disseram ter o hábito de checar o aplicativo assim que acordam. Quando fora do ar, o Telegram é uma opção viável.

Comunicação é nossa marca antropológica, formata civilizações. O registro escrito foi desenvolvido por algumas sociedades, mas essa rapidez no bate-papo é novidade.

Foi o telefone que nos acelerou: é a primeira tecnologia instantânea para nos comunicarmos. "Você não espera mais resposta de alguém, fala quando quer com a pessoa. Isso implica também um imediatismo de comportamento", afirma Welington Andrade, especialista em Literatura Brasileira pela USP (Universidade de São Paulo). Em outras palavras: é a facilidade com quem alcançamos um emissor que tem nos acelerado -- e angustiado também.

Do barro ao zap

Os mais antigos registros de correspondência são uma troca entre reis mesopotâmicos e faraós de regiões que hoje compreendem Síria, Turquia e Egito. Em tábuas de barro cozido com escrita cuneiforme, havia compartilhamentos de experiências, pedidos, diálogos diplomáticos e também pessoais.

Segundo Welington Andrade, essa comunicação tinha um duplo eixo: tempo e espaço. O tempo se destacava, porque havia a contemplação de pensar no que escrever, enviar e aguardar um período para que chegasse ao destino. "A demora e continuidade eram condições. Hoje é diferente, a comunicação acontece bem na hora e acaba com essa reflexão no tempo", esclarece ele.

"Tempo" é um termo que, para Liráucio Girardi, pesquisador na área de sociologia digital, representa uma construção social, assim como "noção de espaço", já que algumas sociedades e civilizações não entendem o tempo como a civilização ocidental entende. "Para nós, objetos como celulares compõem a percepção desse tal tempo: da captura da nossa atenção, da sensação de desperdício, do modo pelo qual nos ocupamos dele e, muitas vezes, de um sentimento de culpa que tudo isso pode gerar", conta Girardi.

Com a disseminação da internet pelo mundo a partir dos anos 1990, a urgência se tornou, cada vez mais, uma tendência. As cartas viraram fax, que viraram e-mail, que viraram SMS trocado por um aparelho celular, tempos depois. Rafael Grohmann, doutor em Ciência da Comunicação pela USP, lembra ainda de serviços como o ICQ e o mIRC, e outros produtos que contavam com mensagens instantâneas como o MSN, as redes sociais Orkut e Facebook. WhatsApp existe há cerca de dez anos.

Não mudamos tanto assim

O dinamismo desse tipo de comunicação aproxima pessoas e reflete nossa personalidade. Para a psicanalista Jéssica Caçador, não é como se a facilidade de conversar mais rapidamente mudasse por completo a estrutura de pensamento do indivíduo.

Por mais que sejamos, naturalmente, seres falantes e dependentes de socialização, "há aquela pessoa que responde ao WhatsApp uma vez por dia ou que o trata como uma caixa de e-mail que 'pode esperar'. Outros veem a ferramenta como dispositivo para dialogar e compartilhar frações do cotidiano", diz ela.

Segundo Girardi, os objetos digitais nos atraem porque permitem ligações particulares com outras pessoas, desejos e narrativas, e que já não podemos mais sermos pensados sem eles. O sociólogo diz que não existe humanidade sem técnicas para se relacionar com o outro.

"A tecnologia não é um meio para atingir um fim, mas parte da constituição dos seres humanos no planeta", afirma ele. Além da linguagem escrita e verbal, rituais, parentescos e memórias são algumas das coisas que também nos mediam culturalmente com o mundo.

Por mais que o contato físico seja insubstituível, Caçador diz escutar cada vez mais gente dizendo que "graças à internet" foi possível construir ou fazer manutenção de vínculos com amigos, parceiros e com o trabalho.

"Algo importante, que ajuda nessa 'dependência' de algumas pessoas, é o fato de que o acesso a essas mensagens instantâneas, hoje, não é mais tão precário", lembra Grohmann.

Público filma show com celulares - Venus Cyborg/Unsplash - Venus Cyborg/Unsplash
Imagem: Venus Cyborg/Unsplash

Overdose de solidão

O levantamento do instituto Croma Insights também revelou que 47% dos entrevistados usam intensamente o WhatsApp enquanto estão sozinhos, comendo. Para a psicanalista, o receio de sentir-se solitário é algo que existe e assombra os seres humanos desde sempre, junto ao medo da rejeição. No conceito de alteridade, pensado pela antropologia, o diálogo também é um dos responsáveis para sabermos quem é a outra pessoa e quem somos nós.

"Temos o desejo irrealizável de sermos reconhecidos e validados pelo outro. Mas isso é diferente de estar colado, alienado, grudado. A grande questão sobre essa necessidade de se afirmar pode morar aí. Corre-se o risco de cair naquela coisa: só existo se o outro me vê", diz ela.

A troca intensa de informações também pode contribuir para certa exaustão mental. Em época de pandemia, Caçador diz escutar que muitos pacientes estão cansados de repetirem os mesmos atos para suprir a necessidade de estarem em contato com o outro. "As vias que temos são mensagens de texto, áudio, ligação, videochamada. Isso, de alguma forma, pode ter caído em uma compulsão à repetição. A pessoa não quer repetir aquilo e faz", conta.

Teoricamente, essa cultura de fácil acesso ao mundo do outro também faz as pessoas parecerem sempre abertas a qualquer comunicação, "o que gera uma certa expectativa, que pode se tornar estresse em relação ao tempo", afirma Andrade, da USP. "Estamos sempre ansiosos para alguém se comunicar. Hoje, o eixo do espaço acabou. Eu posso mandar uma mensagem por escrito agora para a Turquia, longe, e receber a resposta um segundo depois. O espaço foi amplamente dominado pelo tempo", afirma.