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'É tendência do autoritarismo atacar a imprensa', diz vencedora do Pulitzer

A repórter Nikole Hannah-Jones, da New York Times Magazine - Dan Ryan/New York Times
A repórter Nikole Hannah-Jones, da New York Times Magazine Imagem: Dan Ryan/New York Times

Mateus Araújo

Colaboração para o TAB

06/09/2020 04h00

Ainda há muito a ser melhorado e espaços a serem ocupados, mas "as discussões de uma sociedade multirracial, com negros e latinos em espaços de poder, e os protestos [antirracistas] começaram a gerar resultado". É o que afirma a repórter Nikole Hannah-Jones, da New York Times Magazine, a revista dominical publicada no jornal homônimo.

Hannah-Jones é uma das mais atuantes jornalistas investigativas dos Estados Unidos. Vencedora do prêmio Pulitzer de 2020 pelo seu trabalho no "Projeto 1619" -- em que reconta a história norte-americana a partir da chegada de africanos escravizados -- ela é especializada na cobertura de direitos civis e injustiça racial nos EUA.

Em agosto de 2019, a repórter liderou um histórico projeto editorial do New York Times, que reuniu texto, vídeos, fotografias, ensaios e podcast, propondo uma nova narrativa para a fundação dos Estados Unidos -- que, em vez de 1776, com a carta da liberdade escrita pelo presidente Thomas Jefferson, teria começado há 400 anos (1619), com chegada de 20 navios de negros escravizados. "Nossos ideais fundamentais de liberdade e igualdade eram falsos quando foram escritos. Americanos negros lutaram para torná-los verdadeiros. Sem a luta deles, a América não teria democracia", escreveu Nikole Hannah-Jones em texto que resgata memórias pessoais do racismo vivido pela sua família. Vivia inconformada ao ver seu pai, negro, hastear a bandeira do país no quintal de casa, mesmo não tendo oportunidades como os brancos.

Foi ainda na escola que ela ouviu de uma professora que, se não quisesse ter sua história invisibilizada, que a contasse ela mesma. No dia 12, a jornalista é convidada do Seminário Internacional da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), participando de um painel sobre racismo dentro e fora das redações. Nesta entrevista ao TAB, a jornalista fala sobre a representatividade no jornalismo, a cobertura na mídia dos casos de violência contra negros, a perseguição de Donald Trump e Jair Bolsonaro à imprensa e a relação entre o assassinato da vereadora Marielle Franco e a subjugação dos negros na política norte-americana.

TAB: Como o jornalismo norte-americano tem lidado com a representatividade? Existe uma democratização dessas vozes na imprensa do país?

Nikole Hahhah-Jones: Diria que sim e não. As redações ainda não refletem a composição demográfica dos Estados Unidos. E quanto mais você sobe na hierarquia da redação -- editores, editores-executivos, publishers -- os cargos são quase todos ocupados por brancos. Apesar de as redações serem mais diversas do que costumavam ser, elas ainda não são representativas de uma democracia multirracial, e, por causa disso, nossa cobertura não reflete uma democracia multirracial. Então, cobrimos pessoas brancas poderosas mais do que cobrimos outras pessoas -- e ainda cobrimos as pessoas de um jeito que subestima a desigualdade social e econômica. Por outro lado, certamente alguém como eu não poderia ter feito o "Projeto 1619", 20 anos ou 10 anos atrás, no New York Times. As redes sociais democratizaram o acesso. Antes, pessoas marginalizadas não tinham acesso a esses espaços como hoje. Se eles leem alguma coisa de que não gostam, podem ir até o Twitter e denunciar, por exemplo. Mas ainda não estamos no lugar em que deveríamos estar.

TAB: O presidente Trump é bem conhecido por sua aversão à imprensa local e estrangeira. Quais são os maiores desafios de se fazer jornalismo investigativo no país?
NHJ:
O grande desafio é ter acesso a documentos e informações do governo. Não temos um governo amigável com a política de transparência. Eles têm atrasado as respostas e até negado pedidos de acesso a informações públicas. Há autoridades públicas que divulgam informações falsas e despistam os jornalistas nas redes sociais. Tem também o fato de o presidente usar seu poder para deslegitimar o trabalho dos repórteres. Mesmo que a gente consiga a informação e divulgue, ele descredibiliza -- e as pessoas terminam não acreditando. Muitos norte-americanos têm perdido a capacidade de discernir entre verdadeira e falsa fonte de informação.

 Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em reunião de 2019 em Washington - Mark Wilson/Getty Images - Mark Wilson/Getty Images
Os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, em reunião de 2019 em Washington
Imagem: Mark Wilson/Getty Images

TAB: Vê relação entre as posturas de Trump e de Bolsonaro, no comportamento violento com a imprensa?

NHJ:
Sim, claro. Estive no Brasil há alguns meses e fui a uma manifestação pró-Bolsonaro. Era muito clara a semelhança com as manifestações pró-Trump [que acontecem nos Estados Unidos]. O presidente Bolsonaro vem exercendo uma liderança com discurso bem similar ao de Trump, de populismo branco e nacionalista, que é antidemocrático e tenta demonizar imprensa e grupos marginalizados. Eles usam táticas muito similares, e você pode ver isso na resposta à Covid-19: nós somos os dois piores países do mundo em termos de morte e resposta à situação, com descrença à ciência, desconsiderando os especialistas. Então há, tristemente, muitas similaridades. E atacar a imprensa é uma das armas principais em qualquer regime autoritário -- e com certeza eu diria que Trump é autoritário ou tem tendência ao autoritarismo. Uma das tendências desse tipo de regime é atacar e desmerecer a imprensa, porque a imprensa é um mecanismo de fiscalização da democracia. Há muitos paralelos.

TAB: Em junho, você e outros jornalistas do New York Times protestaram contra a publicação no jornal de um texto de opinião em que um senador republicano pedia mobilização militar para enfrentar os protestos nos EUA. A justificativa do editor (que pediu demissão após as críticas) era de que o texto representava "diversidade ideológica". Qual é o limite entre uma pretensa pluralidade e imparcialidade e a legitimação de um discurso extremista?

NHJ: Não permitimos que todas as pessoas acessem nossa página editorial. Alguém pode ter uma opinião de que o genocídio seja OK, mas não publicaríamos a opinião de uma pessoa que pensa dessa forma, que argumente a favor do genocídio -- da mesma forma que você não dá espaço para editorial que seja inconstitucional. É muito perigoso legitimar esse ponto de vista. Outro problema desse editorial é que muitas das informações publicadas ali não eram verdadeiras. Mesmo numa página de opinião, você está submetido a princípios jornalísticos mínimos. Não me importo se você é jornalista, zelador ou senador, mas não deveríamos publicar desinformação e informações falsas. É muito perigoso numa democracia permitir que senadores, que de fato têm poder de mobilizar Forças Armadas ou poder de aprovar que as Forças Armadas sejam usadas contra o cidadão, construírem esse argumento, que eu considero inconstitucional.

TAB: Qual tem sido o papel da imprensa nos EUA no fortalecimento da luta antirracista atual? A forma de abordar a violência contra negros mudou, ao longo dos últimos anos?

NHJ:
Certamente, podemos ver que a linguagem de ativistas e acadêmicos, que vêm tentando revelar como a desigualdade racial funciona na cidade, vem sendo adaptada ao vocabulário da mídia. Acho que o trabalho desses ativistas, acadêmicos e jornalistas negros e latinos tem gerado resultado, forçando as redações a se adaptarem e a cobrirem os fatos de forma diferente. Para citar um exemplo fácil de como as redações cobriam a violência policial: alguns anos atrás, a mídia automaticamente aceitava a versão oficial. Como jornalistas, não deveríamos aceitar como verdade a versão de qualquer pessoa poderosa. Deveríamos sempre questionar. Claramente não há mais essa aceitação. Ou podemos ver algo simbólico como o fato de as redações rapidamente, depois da morte de George Floyd, passarem a usar a letra B maiúscula -- e "B" sendo o "black american" (negro norte-americano). Essa é uma luta das pessoas negras há muito tempo nesse país, na tentativa de serem respeitadas como outros grupos étnicos. E as redações se recusaram sempre a participar. Agora, todas as redações, incluindo New York Times, Washington Post e Associated Press, estão usando "B" maiúsculo. Mas ainda temos, todos nós, muitas críticas sobre a forma como a imprensa tem coberto essas questões.

TAB: Além da violência, a pandemia da Covid-19 também afetou muito a população negra dos EUA. O que isso escancara do racismo estrutural?

NHJ:
Nós não devemos dizer especialmente nos EUA, mas é igual nos EUA e no Brasil. Ambas são sociedades fundadas sob escravidão de descendentes de africanos. E os descendentes dessas populações continuam sendo mais marginalizados em ambas. Então, não surpreende como a pandemia afeta mais aqueles que não têm mais acesso a saúde e educação, e estão na pobreza. Essas pessoas estão mais suscetíveis a sofrer com um problema de saúde preexistente -- e trabalham em serviços mais vulneráveis.
O que também é verdade é que, em ambos os governos, a resposta [à pandemia] muda conforme o perfil racial. Antes de as pesquisas sobre o perfil racial [das vítimas da Covid-19] saírem, o discurso oficial era de que estávamos todos juntos, que todos precisavam se sacrificar pelo bem comum, que não era culpa de ninguém. Quando os dados de vulnerabilidade racial saíram, o discurso mudou para reabertura da economia, que os negros deveriam tomar mais cuidado com a saúde. A dinâmica racial nos dois países determinou quem seria mais impactado.

TAB: Os Estados Unidos estão no meio do processo eleitoral e, desta vez, somente uma mulher negra, a senadora Kamala Harris, integra uma das chapas. O que impede a ascensão de novos candidatos negros à Presidência dos EUA?

NHJ:
Tivemos uma diversidade grande de pré-candidatos no partido Democrata, candidatos negros, asiáticos e mulheres latinas. Mas, no final das contas, muitos eleitores -- especialmente os eleitores negros, que são base do partido Democrata -- acharam que a única pessoa que podia derrotar Trump era branco. E eles escolheram um candidato que concorreria com mais facilidade, e será mais difícil de Trump atacar. Então escolheram Joe Biden. Acho que eles estavam certos, porque você já vê nessa eleição a dificuldade que Trump tem para atacar Joe Biden - que é moderado. Eles estão atacando Kamala porque ela é uma mulher negra, e tentam pintá-la como uma radical, mas não podem fazer isso com Biden. Há um importante simbolismo em mulher negra ser nomeada a vice, e é a primeira vez no nosso país que isso acontece. Em certo sentido, Biden tinha que fazer essa escolha.

 Kamala Harris, candidata a vice-presidência dos EUA pelo Partido Democrata, ao lado de Joe Biden - Michael A. McCoy/Getty Images - Michael A. McCoy/Getty Images
Kamala Harris, candidata a vice-presidência dos EUA pelo Partido Democrata, ao lado de Joe Biden
Imagem: Michael A. McCoy/Getty Images

TAB: E o que representa a candidatura de Kamala, hoje, nos Estados Unidos?

NHJ:
Os mais ardentes apoiadores do Partido Democrata são as mulheres negras. Elas votam em maior número no democratas e acredito que muitas mulheres negras sentiram que é o tempo de sua lealdade ao partido ser recompensada de forma mais substancial. Além disso, há quem afirme que Joe Biden será um presidente de um único mandato, por conta da idade dele [o candidato tem 77 anos], e isso coloca Kamala em posição para concorrer à presidência daqui a 4 anos. Muitas mulheres negras que eu conheço estão empolgadas. Mas eu diria, por outro lado, que o interessante é que nem Barack Obama, nem Kamala Harris, são descendentes de negros escravizados. E isso ainda diz muito sobre nossas barreiras raciais.

TAB: O assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, em 2018, é tido como um símbolo de ameaça à jovem democracia brasileira. Ela era negra, feminista, lésbica e moradora da favela. Há semelhanças entre a morte de Marielle e a subjugação dos negros na política institucional estadunidense?

NHJ:
Sim, claro. E é uma razão para a repercussão da história de Marielle ter sido tão grande nos EUA, porque foi uma grande notícia aqui, e você sabe que norte-americanos não costumam prestar muita atenção ao noticiário internacional. Vimos muitos paralelos entre o assassinato dela e o quanto o governo parecia não levar isso a sério. Isso é o que acontece quando pessoas marginalizadas desafiam as hierarquias sociais. Elas sempre pagam o preço da pior maneira possível, sofrendo duras consequências. Por isso, tantos negros norte-americanos se sentiram solidários a Marielle e às manifestações que se seguiram à morte dela. Eles continuam sentindo uma grande solidariedade em relação aos brasileiros negros em geral.