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Ancestralidade por DNA: testes da moda ignoram indígenas brasileiros

14.jun.2012 - Cerimônia oficial de abertura dos Jogos Verdes, na Aldeia Kari-Oca, durante a Rio+20 - Marco Antonio Teixeira/UOL
14.jun.2012 - Cerimônia oficial de abertura dos Jogos Verdes, na Aldeia Kari-Oca, durante a Rio+20 Imagem: Marco Antonio Teixeira/UOL

Júlia Pessôa

Colaboração para o TAB

22/09/2020 04h00

Reduto dos cancelamentos, 'exposeds' e polêmicas em geral, o Twitter é também catapulta de discussões que se estendem por longas séries de posts de 280 caracteres, tornando a rede uma ágora virtual de temas que se tornam parte do debate público em questão de minutos. Isso vale igualmente para questões políticas, hashtags de protestos, denúncias ou tópicos como episódios de séries, fofocas de famosos ou um meme.

Na rede vizinha, o Instagram, posts de celebridades revelando sua ancestralidade vêm ganhando popularidade e criando burburinho em torno de testes comerciais de DNA que fornecem a informação. Já se pode saber, por exemplo, que 80% do DNA da atriz Deborah Secco é proveniente da Europa, de acordo com a amostra colhida e analisada a convite da Genera Lab -- uma das empresas que realiza e comercializa estes testes no Brasil.
A proposta desperta mesmo a curiosidade. Adquirindo o kit enviado pelo laboratório, você coleta uma pequena quantidade de saliva e devolve o material, via correios, para análise. Algum tempo depois, recebe um mapa detalhado com os países de origem de seus ancestrais, pagando, no Brasil, a partir de R$ 299,00.

'Apagamento' é técnico, e não social

O hype dos resultados de testes no Instagram teve seu reflexo na rede onde os assuntos são problematizados — e um debate no Twitter suscitou uma questão sobre a ancestralidade indígena brasileira e um possível apagamento destes marcadores em testes comerciais.

Segundo Tábita Hünemeier, professora do Departamento de Genética de Biologia Evolutiva da USP (Universidade de São Paulo), a ancestralidade indígena é, sim, difícil de ser mapeada em testes comerciais — mas isso não aponta para um apagamento intencional ou denota um esforço em invisibilizar estas populações. "O problema é técnico e não necessariamente um apagamento planejado. Há muito pouca informação de populações indígenas nos bancos públicos, e isso torna mais difícil caracterizar a ancestralidade indígena. Por exemplo, alguns testes usam indígenas do México ou Peru como referência para o Brasil, e isso se dá pela falta de um estudo mais geral das populações indígenas", explica.

A professora coordenou um estudo conjunto de pesquisadores da USP e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) que mapeou, a partir do DNA, 2.000 anos de rotas migratórias dos índios no Brasil, cravando, assim, a assinatura indígena na origem do povo brasileiro — aquela difícil de ser detectada pelos bancos utilizados pelos testes individuais comercializados.

"As populações nativas atuais, especialmente no Brasil, estão historicamente sendo apagadas, tanto devido ao processo colonizatório quanto pelas políticas atuais. Nesse sentido, usar a genética como uma ferramenta de resgate histórico e demográfico traz de volta a importância desses povos como formadores da população brasileira, e principalmente como povos originários dessa terra, com sociedades cultural e linguisticamente muito ricas", diz Hünemeier. "É também uma maneira de conscientizar sobre o genocídio promovido pelos colonizadores, bandeirantes, e outros ao longo da história, pois mostra como a diversidade indígena foi quase dizimada nesses 500 anos. A pesquisa genética histórica é uma ferramenta útil para visibilidade por meio desse resgate antropológico, mostrando que esses povos seguem existindo e são muito diversos."

Confiabilidade é diretamente relacionada aos referenciais adotados

Segundo Ricardo di Lazzaro Filho, médico e sócio-fundador da Genera, os cálculos que apontam as "porcentagens" ancestrais reveladas em cada teste chegam a uma precisão quase total. "Como os seres humanos vêm se miscigenando desde seu surgimento, é esperado que todas populações tenham misturas de outras populações. Por exemplo, uma pessoa ibérica (Portugal e Espanha) normalmente não é 100% ibérica, mas costuma ter também porcentagens de outros países da Europa Ocidental, Itália e Norte da África. Através de validações internas, nossa calculadora consegue estimar qual a região principal de uma pessoa com precisão próxima a 100% em todos os casos."

O médico destaca, ainda, que a "calculadora" utilizada pelo laboratório foi elaborada com dados especificamente relacionados às características brasileiras. "Trabalhamos com uma técnica de análise chamada microarray, que analisa 700 mil pontos do DNA de uma pessoa, possibilitando a comparação de suas características e genes com as de outros povos ao redor do mundo. Essa comparação é feita com base em dados públicos de sequenciamento genético de quase 10 mil indivíduos, vindos de centenas de artigos científicos publicados", explica.

No meuDNA, outra empresa que realiza os exames no Brasil, o processo é similar, conforme explica o biólogo Iuri Ventura. "O banco de dados de ancestralidade do meuDNA foi construído a partir de informações vindas de bancos de dados públicos nacionais e internacionais, como o Human Genome Diversity Project, HapMap, 1000 Genomes Project e o próprio banco da Mendelics, nossa empresa-mãe. Os usuários que fazem nosso teste passam a integrar os bancos com seus dados, de maneira anonimizada. No nosso caso, é o cliente que escolhe se quer disponibilizar seus dados para o banco, sempre anonimizados", garante.

Ambos reconhecem que empresas diferentes podem fornecer resultados diferentes para uma mesma amostra. Ou seja: uma pessoa pode aparecer com dados ancestralidade distintos se fizer o teste em mais de um laboratório. "Isso é super comum, esperado e aceitável até certo ponto. Cada empresa analisa marcadores genéticos diferentes, usa banco de dados diferentes, algoritmos diferentes e divide o mundo em agrupamentos diferentes", aponta Ricardo, da Genera.

"Existe essa possibilidade em razão dos diferentes bancos de dados aos quais as amostras são comparadas. No caso do meuDNA Origens, nosso teste é bastante detalhado, oferecendo a comparação com 88 populações. O principal para um usuário é se informar sobre a cobertura do teste, em termos de populações", diz Ventura, do meuDNA.

A pesquisadora Tábita Hünemeier elucida que a confiabilidade de testes comerciais como o da Genera é em relação aos referenciais utilizados, e não em termos absolutos de ancestralidade. "Existe uma ínfima variação genética que difere os indivíduos dentro de nossa espécie, em torno de 0.1%. As diferenças encontradas entre as populações humanas são nas frequências de alguns marcadores genéticos, e para a realização dos testes de ancestralidade, são usados marcadores selecionados para intensificar essa diferenciação. Os resultados são confiáveis dentro do contexto da análise realizada, ou seja, dependem dos marcadores genéticos escolhidos, e dos grupos continentais com os quais os dados do indivíduo são comparados. Os bancos de dados usados são em geral públicos, ou seja, baseados em genomas de diversas populações humanas que foram gerados por projetos de pesquisa e que estão disponíveis para consulta".

Testes trazem impasses éticos

Segundo Hünemeier, aumentar a diversidade nos bancos de dados dos testes comerciais seria a única alternativa para que eles fornecessem dados sobre ancestralidades como as indígenas. Mas a criação destas bases de referências tem muitos impasses. "A única maneira de resolver essa situação seria incluir mais indivíduos indígenas nos bancos de referências das análises. Mas isso traz consigo a questão do uso comercial de dados biológicos, que é uma questão complicada do ponto de vista ético".

No Twitter, outros possíveis impasses relativos aos resultados dos testes vêm sendo discutidos. Para o psicólogo social Lucas Guimarães, pagar para fornecer dados genéticos para empresas particulares parece uma má ideia por muitos motivos. (Além da própria insegurança sobre o uso dos dados pelos laboratórios, apesar de isso ser crime previsto pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, número 13.709, de agosto de 2018, que proíbe o uso de informações genéticas para obtenção de vantagem financeira).


Uma das preocupações manifestadas por Guimarães é a utilização dos dados fornecidos pelo teste como respaldo científico para a obtenção de direitos como as cotas sociais e outras políticas afirmativas.

"O processo de validação das cotas sociais de fundo étnico foram uma conquista árdua, e ainda longe de ser pacificada e garantida. E um dos pontos críticos desse cenário é o retorno constante à objetividade. Percebemos o 'objetivo' como 'justo'. O problema é que a discriminação étnico-racial que as cotas dessa natureza visam enfrentar não é objetiva nesses termos. Um sujeito pode ter uma maior 'ancestralidade negra' objetiva (apontada por estes exames), mas não ser submetido ao processo discriminatório que se visa a remediar. A discriminação racial brasileira é 'objetiva', porque ocorre com mais força quanto mais negro o indivíduo apresentar ser -- mas essa objetividade pode não ser refletida num extrato genético", explica ele, que pesquisa ancestralidade e memória, com foco na população negra, no doutorado que cursa na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Ancestralidade não é determinada apenas (ou melhor) pela biologia

Outra crítica feita por Lucas é ao determinismo biológico que os testes da moda pretendem imprimir à ideia de ancestralidade. "Buscar essa origem pela via estritamente genética me parece retomar a noção de que a natureza (a biologia) é mais verdadeira do que a cultura. Como se apenas ter genes de um determinado grupo me fizesse tão ou mais parte daquele grupo do que um indivíduo que o vivencia cotidianamente. A perspectiva com que pesquiso ancestralidade é cultural. No caso das populações negras, essa ancestralidade não vem pela via objetiva de um mapeamento genético passível de falha, mas pela identificação grupal. Essa identidade ou ancestralidade é o reflexo individual de um processo coletivo."

É também fazendo uma reflexão sobre individualidade e coletividade que o líder indígena, ambientalista e autor Ailton Krenak critica a moda de colher saliva para descobrir os ancestrais. "É uma busca completamente individual e pessoal, que não impacta as coletividades. Certamente, não vai melhorar a qualidade de vida dos povos que aparecem nos resultados. É o tipo de conversa para um café, para o boteco, mas que não vejo tendo um impacto social. Num momento em que a ciência toma um baile de um vírus e que se mata pela cor da pele, acho que deveríamos nos preocupar mais, investir mais, enquanto sociedade, nos pontos que nos unem. Já estamos separados demais."

Como o pesquisador Lucas Guimarães, Krenak também defende uma noção de ancestralidade mais complexa, que englobe a cultura e as vivências. "Estou aqui na minha aldeia, vivendo o seu cotidiano e suas práticas, e isso constitui realidade ancestral o suficiente pra mim. De que me serviria e que diferença faria um extrato de computador dizendo que não tenho nenhum DNA indígena?", questiona.

Em suas pesquisas sobre a população negra, Guimarães encontrou respostas análogas ao pensamento do líder indígena, afirmando que a memória está no presente, no cotidiano. "Intuitivamente, pensamos na memória como algo do passado. Memórias são vivências, e não arquivos guardados. Nossa memória, enquanto pessoas negras, está viva: na comida, pela forma de cozinhar, dos temperos e dos preparos; nas narrativas, nos mitos, nas histórias familiares contadas oralmente de geração em geração; no vestir, nas pulseiras de balangandãs que carregamos; no que cultuamos e nas formas como cultuamos".