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Ele avisou: 'expert em apocalipse' vê livro lançado em 2012 virar realidade

O escritor e matemático John Casti, autor de "X-events" (2012) - Divulgação
O escritor e matemático John Casti, autor de 'X-events' (2012) Imagem: Divulgação

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB

18/09/2020 04h01

Em seu amplo apartamento no centro histórico de Viena, cercado por prateleiras de livros que causariam inveja ao mais ilustrado dos comentaristas de TV, John Casti tem a fala e o semblante tranquilos dos que podem dizer: "eu avisei".

O matemático, pesquisador e escritor norte-americano não está despreocupado com a pandemia. É que a situação catastrófica pela qual passa o planeta não o surpreende. Em seu livro "X-Events: The Collapse of Everything", publicado em 2012, Casti lista e explica onze possíveis acontecimentos com potencial de "destruir a civilização a qualquer momento". Dentre os quais está, claro, uma pandemia global.

No mesmo ano, a editora Intrínseca publicou a obra no Brasil com o título "O Colapso de Tudo". Como muita gente não acredita que as coisas podem piorar, parecia que aqueles cenários pavorosos, embora tecnicamente possíveis, nunca iriam acontecer. Pode soar ingênuo hoje, mas, comparado a 2020, o ano de 2012 lembra aquele meme em que pessoas muito felizes e cheias de amor se amam mutuamente em um cenário de natureza idílica.

Interação humana é determinante

"É...as coisas não estão muito bem por aí, né?", diz Casti logo após a pergunta retórica "Como está o Brasil?". O pesquisador diz que não ficou nem um pouco surpreso com a disseminação da Covid-19 e suas consequências. "Era inevitável. As únicas dúvidas eram quando e onde."

Antes de mudar para a Áustria, ele se especializou em estudos das teorias dos sistemas e da complexidade. Deu aulas na Universidade de Princeton no Arizona e em Nova York. Nascido em Portland, no estado de Oregon, em 1943, Casti é um autor prolífico, com mais de vinte obras publicadas desde o início dos anos 1970.

O capítulo no qual Casti trata das pandemias tem, na versão em português, o título "É de Doer". O autor introduz o assunto citando o livro "A Peste", romance de Albert Camus publicado em 1947 com a história fictícia de uma cidade portuária da Argélia assolada pela peste bubônica.

"Essa história de como a peste se espalhou na Argélia fornece uma lição sobre complexidade, pela forma como os elementos individuais da história — as ações tomadas pelos diferentes setores da administração da cidade e a população — se combinam para produzir efeitos 'emergentes', como queimar os ratos, o que na verdade contribui para a disseminação da peste, em vez de contê-la. Portanto, o que realmente torna essa doença um 'X-event' não é sua irrupção em si, mas a forma como os sistemas humanos interagiram para exacerbar o número de mortes, em vez de reduzi-lo", analisa Casti.

O matemático John Casti, autor de 'X-events' (2012) - Divulgação - Divulgação
O matemático John Casti
Imagem: Divulgação

A natureza cuida

"Aqui em Viena, o governo agiu rápido e as pessoas cooperaram muito durante a quarentena", diz Casti. "Já os países que não fizeram o trabalho direito seguiram o 'modelo Trump'. Seus governantes disseram que tudo ficaria ok, que era só uma gripe. São negacionistas — mesmo depois de ficar bem claro que estavam errados. Veja o que foi revelado recentemente, que Donald Trump sabia a verdade sobre a pandemia (referindo-se ao recém-lançado livro do jornalista Bob Woodward, "Rage").

O escritor conta que passou a receber diversos pedidos de entrevistas, mas ressalta que "ninguém recebe agradecimentos por estar certo". No livro, Casti lista outras famosas pandemias devastadoras e as seis fases da formação de uma pandemia.

Também aborda cenários que hoje causam arrepio em quem lê. Porque, neste exato instante, todos enfrentamos na prática suas consequências. Não são mais hipóteses ou algo do passado. "Doenças que levam a epidemias podem surgir de fontes que originalmente não têm nenhuma relação com os humanos" e "os problemas começam quando as mutações do patógeno são mais rápidas do que a reação do sistema imunológico. À medida que essa lacuna entre os dois sistemas se amplia por uma grande fração de uma população, pode ocorrer um nível explosivo de infecções".

Pelo menos no entender de Casti, "O Colapso de Tudo" foi escrito a partir de uma premissa mais simples. "Todas as atividades sociais humanas envolvem a interação de diferentes sistemas. Pegue o sistema financeiro, por exemplo. Você tem o mercado financeiro e as instituições reguladoras. Ambos têm um certo nível de complexidade que está sempre mudando. Essas complexidades podem ter algumas diferenças em alguns momentos, mas continuam próximas. Não há estresse. Se uma das complexidades começa a evoluir muito, porém, e a outra não acompanha, teremos uma lacuna. O estresse se instala. E se forçarmos a barra estupidamente, a maneira com que a natureza responde é: 'se vocês não conseguem fechar essa lacuna, farei isso por vocês'."

'Triunfo da Morte' (1563), do holandês Pieter Bruegel - Museu do Prado/Reprodução - Museu do Prado/Reprodução
'Triunfo da Morte' (1563), do holandês Pieter Bruegel
Imagem: Museu do Prado/Reprodução

Game simulou pandemia

Casti acredita que o ser humano tem o mesmo comportamento em relação a qualquer evento extremo. Simplesmente acredita que nada acontecerá com ele, mesmo que o mundo já tenha passado pela mesma situação. "Fiz muitas apresentações quando lancei o livro, e a típica reação das pessoas era dizer 'Meu Deus, isso é tão terrível, não é possível que aconteça. Não vou pensar sobre isso. Logo, não irá acontecer'."

Um trecho particularmente curioso do livro é quando Casti relata o experimento feito com jogadores do game World of Warcraft.
Epidemiologistas se desdobram para criar modelos matemáticos que antecipem como uma doença irá se espalhar. Acontece, e isso também ficou claro agora, que é muito difícil prever como as pessoas realmente se comportarão durante uma pandemia. Respeitarão a quarentena? Usarão máscaras? Para tentar responder a essas questões, os pesquisadores introduziram uma doença altamente contagiosa (virtual, é claro) no ambiente do jogo. Como o game tem milhares de usuários, com os mais diferentes perfis, jogando ao mesmo tempo ao redor do mundo, o resultado revelaria em boa medida como os seres humanos lidariam com o problema.

E então? "As quarentenas foram ignoradas, pois os avatares tentaram 'fugir', a fim de levar adiante suas batalhas. Por fim, os programadores tiveram de desligar o servidor e reiniciar o sistema, de modo a eliminar a doença e tornar o jogo novamente sadio."

'Negacionistas não vão desaparecer'

"Há alguma vantagem em já ter 77 anos de idade. Fico aliviado por não ter a sua idade ou estar no lugar dos meus filhos. Me sinto mal por eles. Mas leio sobre esses lunáticos (terraplanistas, antivacinas, anti-máscaras) e meio que entendo eles. São muitas vezes pessoas deixadas para trás, pobres, com educação deficiente, que não veem um futuro. Elas não agem a partir de fatos, agem a partir de suas emoções e sentimentos pessoais."

Caso você esteja se perguntando sobre os outros "X-events" do livro, são os seguintes: apagão digital, esgotamento global do abastecimento de alimentos, um pulso eletromagnético capaz de destruir todos os aparelhos eletrônicos, o colapso da globalização, a destruição da Terra pela criação de partículas exóticas, a desestabilização do panorama nuclear, o fim do suprimento global de petróleo, falta de energia elétrica e água potável, robôs inteligentes sobrepujando a humanidade, deflação global e colapso dos mercados financeiros.

Se continuaremos a lidar com negacionistas mesmo com um "X-event" em andamento e tantos outros na fila para, ao menor descuido da humanidade, tornarem-se realidade? "Infelizmente, sim. Eles não vão desaparecer", diz Casti.