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'Sua avó entende a sua tese?': os equívocos do meme que bombou no Twitter

A atriz Zilka Salaberry interpretando Dona Benta no "Sítio do Picapau Amarelo" - Reprodução/ Rede Globo
A atriz Zilka Salaberry interpretando Dona Benta no "Sítio do Picapau Amarelo" Imagem: Reprodução/ Rede Globo

Júlia Pessôa

Colaboração para o TAB, de Juiz de Fora (MG)

14/10/2020 04h01

Como quase todas as tretas do Twitter, ninguém sabe exatamente como esta começou. Mas em pouquíssimo tempo, a rede repetia variações das mesmas perguntas em seus Assuntos do Momento e em milhares de perfis: "Sua avó entende sua tese? Seu TCC chega à sua mãe?".

A formulação nem é novidade. Em 2013, o Science Blogs Brasil, vinculado à Unicamp, lançou o Prêmio "Explique sua tese para a vovó", convidando pesquisadores a pensarem seus trabalhos fora do jargão acadêmico, de uma maneira que "até sua avó" entenderia.

A partir do tuíte, seguiram-se as mais variadas respostas, das que rebatem a crítica que o meme supostamente pretende fazer às — mais populares, diga-se de passagem — incontáveis piadas desdobradas a partir das indagações originais.

Curtidas e retuítes à parte, o viral contém afirmações acerca da produção e circulação do conhecimento científico no Brasil e sua relação com outros saberes. Além disso, as perguntas também trazem suposições sobre quem seriam os "sujeitos de conhecimento".

Para Eni Orlandi, uma das mais importantes referências do país no campo da análise do discurso, o principal equívoco do meme é partir de uma pressuposição de que "conhecimento" é algo homogêneo e imutável. "O conhecimento formal, acadêmico, é produzido em certos espaços e sob determinadas normas, mas ele não é imóvel. Ele se movimenta e se transforma na sociedade. A Lei de Gravidade é uma formulação científica, mas as pessoas sabem que se largarem alguma coisa no ar, ela cai no chão — e usam esse conhecimento diariamente. Dá para dizer que esse saber não chegou a elas?", provoca a professora da Unicamp.

Não há hierarquia de conhecimentos

Orlandi destaca que há uma enorme diferença entre a socialização do saber e sua institucionalização. Segundo ela, a busca de legitimação de qualquer conhecimento por instituições acaba criando um imaginário social completamente implausível, de que os saberes científicos, institucionais, seriam "melhores", "mais verdadeiros", mas, ao mesmo tempo, "pouco acessíveis".

"Essa busca quer apenas validar sem avaliar, e fixar determinado conhecimento como 'legítimo'. Um bom exemplo na prática é o que vemos acontecer com os ministros que mentem sobre cursos e especializações que acham que deveriam ter para serem validados nos postos que ocupam. Na verdade, o conhecimento só se produz como tal quando se abre, quando se constitui como relação social entre pessoas e entre formas de saber. Neste sentido, não é possível conceber hierarquia entre formas de conhecimento."

Mestre em comunicação, Cícero Villela percebe essa multiplicidade dos saberes e a ausência de hierarquia entre eles em seu cotidiano: sua mãe, Lucilene, de fato não entenderia sua dissertação sobre "Mídia, Territorialidades e Subjetivações" se a pegasse para ler. Mas ele diz que, por outro lado, também não sabe como escolher boas vacas e bois, conhecimento que sempre foi a base do sustento de sua família.

"Minha família é de pequenos produtores rurais, de Rochedo de Minas (MG), e a possibilidade de estudar sempre foi bastante difícil. Minha mãe estudou só até a quarta série da educação básica. Meu pai morreu há 25 anos, e sempre foi ela quem teve que lidar com peão, escolher gado, saber o que plantar e peitar um bocado de gente. Ela não domina teorias da administração, mas sabe muito bem o que tem que ser feito pra gente não ter prejuízo, pra não faltar comida em casa. Enfim, ela construiu todo um conhecimento observando o que funcionava e o que não funcionava", conta o pesquisador, que faz doutorado em linguística na Unicamp. "Não existe 'O' conhecimento, como se fosse algo único. Ele sempre vem adjetivado: é 'conhecimento científico', 'filosófico', 'de vida'... e todos dizem respeito a várias formas pelas quais a gente lida com o mundo que nos cerca."

Por que mãe e avó?

Outro questionamento possível de ser levantado a partir do meme que relaciona avós, mães e teses diz respeito a quem se atribui, no imaginário coletivo, a possibilidade de compreensão do saber científico. "Nunca às mulheres!", conforme adianta a doutora em sociologia Marília Moschkovich.

"Sempre este tipo de pergunta usa figuras femininas como exemplo: sua avó, sua mãe, a proverbial 'Dona Maria' e não homens. Isso reforça uma construção de que mulheres são incapazes e presume também, uma subalternização, ao sugerir a imagem de uma mulher que é mais pobre, que não estudou, supondo também onde estas mulheres deveriam estar na sociedade."

Marília destaca a ironia contra o próprio meme, "completamente descolado da realidade", já que no Brasil as mulheres estão em maior número entre pessoas com ensino superior e em vários níveis de escolaridade, de acordo com o IBGE.

"Só que isso não traz equiparação salarial com os homens, não corresponde a um aumento significativo de mulheres em posição de liderança e também não contribui para desconstruir o preconceito de gênero, tão arraigado socialmente, de que as mulheres não são inteligentes, de que não conseguem entender coisas complexas. Esse meme reforça todos estes problemas", pontua Moschkovich, copesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas), da USP (Universidade de São Paulo).

Eni Orlandi aponta e desconstrói, com sua própria vivência, outro preconceito embutido no meme: o geracional. Afinal, desmantelando o raciocínio que o tuíte pretende construir, ela é a própria avó que entende o TCC. No caso, o do neto Thiago, estudante de física. "É óbvio que, dada a desigualdade social do país, ser de uma família em que a avó -- como eu -- trabalha com produção científica, aponta para um privilégio, uma exceção. Dito isso, o meme sugere que há uma barreira geracional para se compreender algo produzido pela ciência formal, e que estaria além do alcance de avós e mães. Como se o conhecimento atendesse a uma linearidade cronológica e não fosse historicamente construído e transformado pelas relações sociais, inclusive entre diferentes gerações", destaca Orlandi, que também leciona disciplinas relacionadas à divulgação científica na Unicamp.

"Qualquer conhecimento é transmissível. Eu não preciso ter formação em física para compreender a pesquisa do meu neto quando converso com ele. Conversar é produzir e fazer circular saberes, quaisquer que sejam eles."

Eni Orlandi, professora na Unicamp


Ataque ao conhecimento científico

Para Giovana Castro, historiadora e pesquisadora do Laboratório de História Oral e Imagem da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), além de ecoar preconceitos, o meme "sua mãe/ avó entende a sua tese?" faz repercutir uma afirmação de viés ideológico que visa a desvalorizar o conhecimento científico.

"Meu pai é bombeiro hidráulico, e não sei absolutamente nada sobre o que ele faz — o que não quer dizer que o conhecimento dele não seja essencial para a sociedade. As complexidades dos saberes são muitas, e situar a academia como esse lugar de produção de conhecimentos complexos que não são reconhecíveis ou imediatamente 'úteis' é uma armadilha muito perigosa", argumenta ela. "As pesquisas servem a uma multiplicidade de protagonismos, são escritos da memória, criam uma história pública, integram uma sociologia do conhecimento e a psicologia social", destacando que é preciso se perguntar a quem serve a tentativa de silenciar da ciência.

Doutora em educação pela USP, Carolina Bezerra observa que a ideologia anticiência causa efeitos desastrosos e, em alguns casos, fatais. "Vivemos agora um momento em que o conhecimento científico e acadêmico é crucial para se combater a Covid-19. Aqui no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo, a tentativa de negar essa premissa levou a erros perigosíssimos e que põem a vida das pessoas em risco, como a recomendação do uso de hidroxicloroquina. Os trabalhos que estão sendo desenvolvidos nas instituições não serão compreendidos pela maioria esmagadora da população, mesmo que sejam até da área, mas não trabalhem exatamente com esse tipo de vírus. Todas as pessoas do planeta são afetadas pelas descobertas", argumenta a pesquisadora.

A socióloga Marília Moschkovich alerta que, a médio e longo prazo, essa ideologia do descrédito na academia, e discursos como o de que o trabalho de pesquisadores seria "mamata", ao encontrarem eco na sociedade, são também uma manobra política. "Fazer as pessoas concordarem que 'a universidade não faz nada', o 'conhecimento acadêmico' não tem utilidade é uma estratégia eficaz e cruel para legitimar o corte de dinheiro investido na ciência, o desmonte da produção científica e no caso do Brasil, especificamente da universidade pública, o que é uma ameaça gravíssima".

Divulgação científica estabelece diálogo com a sociedade

Pegando carona em uma das piadas feitas a partir da pergunta original, vale a pena perguntar: sua tese entende sua mãe e sua avó? Será que a academia só dialoga com o público em suas realidades com a leitura de TCCs e teses?

"A crítica que o meme tenta fazer é completamente rasa. Então, num cenário muito hipotético, uma mãe que tem cinco filhos tem que entender o trabalho acadêmico de todos? E uma avó com 15 netos? O que é preciso é que haja cada vez mais investimento para que as pessoas queiram entender as questões de que a academia trata, porque são afetadas por ela. E isso não acontece lendo tese. É para isso que existe a divulgação científica", observa Giovana Castro.

Com ampla experiência na área, a professora Eni Orlandi explica que a divulgação científica mobiliza linguagens e técnicas específicas. Por isso, é um dos espaços que cria condições para que o conhecimento aconteça. "A ciência está presente e atuante na sociedade em suas várias formas. A divulgação científica metaforiza o conhecimento científico para outras formas de discurso, de tal modo que as palavras da academia passem a falar com as palavras que compõem os saberes do imaginário social."

A professora Carolina Bezerra acrescenta que outro pilar importante de diálogo com a sociedade são os projetos de extensão, que aproximam a comunidade acadêmica da população por meio de iniciativas práticas embasadas pelo conhecimento científico.

"A academia se desenvolve apoiada no tripé entre ensino, pesquisa e extensão. E nessas iniciativas, o conhecimento científico se transforma também. Há projetos de extensão, por exemplo, em que o contato com populações indígenas pode fazer com que arquitetos aprendam sobre o uso de materiais sustentáveis, adaptação ao clima e várias outras características. E isso acontece em todas as áreas", exemplifica. "O que diferencia estes conhecimentos é que eles não são marcados pela relação com os papéis, as patentes, quebram com a concepção de conhecimento elitista, burocrática e eurocêntrica como o meme pretende 'vender' a produção científica".

Por fim, Marília Moschkovich lembra que a linguagem "difícil" da academia faz parte do processo de avanço do conhecimento científico e do rigor que ele exige. "Para aprofundar a percepção das pesquisas, é preciso inseri-las em toda uma gama de teorias, experimentos e ferramentas de análise antes que elas possam ser compreendidas só com base nas experiências das pessoas. Seja uma cirurgia ou um fenômeno social, não dá para explicar num tuíte."