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África contemporânea ainda é desconhecida da maioria dos brasileiros

Cidade de Lagos, na Nigéria - 	Getty Images/iStockphoto
Cidade de Lagos, na Nigéria Imagem: Getty Images/iStockphoto

Kamille Viola

Colaboração para o TAB, do Rio

13/10/2020 04h01

Nem a Wakanda de "Pantera Negra", nem um lugar preso às tradições, tampouco uma terra arrasada com crianças famintas à espera da próxima missão da ONU. Embora a maioria da população do Brasil tenha raízes na África, a informação que chega sobre o continente ainda é carregada de estereótipos.

Com o aumento das discussões sobre o apagamento da cultura negra, vem aumentando, também, o interesse sobre os países do chamado Continente Mãe. Mas ainda há um apego a uma imagem do passado. O que é preciso saber sobre a África contemporânea?

Há quem diga que quem procura uma resposta, às vezes, está em busca de uma África "idílica". Para a mestre em Relações Internacionais Sandra Silva, criticar essa procura é desconhecimento do processo histórico da diáspora africana.

"Se a gente pensar que o povo negro chegou ao Brasil de uma maneira absurdamente violenta —- a gente nem consegue imaginar o que é ser sequestrado, ser enfiado num navio, ficar meses sendo maltratado e, depois, jogarem cada um da família para um lado... É um trauma muito grande e uma perda histórica, porque, nesse caminho, as histórias dessas pessoas também ficaram para trás", diz ao TAB. "A gente precisa preencher essa lacuna do passado que foi arrancado, e que é um passado muito maior do que a nossa família. A gente está pensando em cultura, em sentido civilizatório."

Expectativa e realidade

Filho de congoleses, o sociólogo Serge Katembera nasceu na França, mudou-se com a família para o Congo ainda na infância e ficou lá até 2008, quando veio para o Brasil. Para ele, que é doutorando em sociologia na UFPB (Universidade Federal da Paraíba), um africano que chega ao Brasil desperta grandes expectativas. "Sobretudo na população negra, que tem um anseio por descobrir também seu próprio passado. Existe uma demanda bem pessoal, individual e coletiva de conhecer a África, para, numa certa medida, conhecer a si mesmo", opina ele, que estuda as tecnologias da informação na democratização da África francófona. "Só que essas demandas, por vezes, são carregadas de preconceitos ou de imagens mitológicas. As pessoas querem que você, como africano que chega, ofereça isso. Quando você não oferece, gera uma imensa decepção", conta ao TAB.

Vista aérea de Dakar, no Senegal - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista aérea de Dakar, no Senegal
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Para começar, é preciso lembrar que os 54 países africanos são bastante diferentes entre si, como frisa Sandra Silva, que viveu por um ano e quatro meses na África do Sul e, nesse período, visitou também Senegal, Tanzânia, Uganda, Zâmbia e Zimbábue. "Vou falar uma coisa um pouco óbvia, mas acho que isso tem que estar bem explícito. As pessoas não entendem a África como um continente diverso. Lembrei de uma amiga, a Tumi, que é ativista na África do Sul. Ela lida com assuntos LGBTQIs, tanto naquele país como no continente em geral. É muito diferente ser uma pessoa LGBTQI na África do Sul, no Quênia, em Camarões ou na Nigéria", compara.

Filho de nigerianos, o advogado Augusto Chidozie observa que o continente é tratado como se fosse um bloco único quando, na verdade, nem mesmo os países têm essa unidade, já que as fronteiras foram artificialmente criadas pelos colonizadores. "A Nigéria, por exemplo, é bem fragmentada: tem mais de 200 etnias, temos várias nações lá dentro. Então, o sentimento de nacionalidade quase não existe. É mais forte para nós a ideia de pertencer à nossa etnia. Depois é que vem o sentimento nigeriano", afirma ele, que é descendente do povo Igbo. "O que me surpreendeu bastante lá é que existem muitas pessoas que não falam inglês. E não é por analfabetismo: muitos não querem mesmo, para não se dissociar da sua etnia, da cultura do seu povo", diz ao TAB.

Apagamento do continente

No Brasil, o desaparecimento da África começa no colégio. A Lei 10.639/03 (depois alterada pela Lei 11.645/08), que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, é de 2003. Mesmo assim, seu cumprimento é raro. E, antes de sua existência, diversas gerações passaram pelo ensino médio e superior sem ter praticamente nenhum contato com a história do continente africano.

"A gente estuda a Guerra de Secessão dos Estados Unidos, a Revolução da Inglaterra, a Revolução Russa de 1917, a história do Japão na Segunda Guerra Mundial, mas nada de África. Até nas universidades, a história do continente é meio que opcional. Mesmo o curso de História é bastante eurocentrado, uma visão do branco europeu sobre o mundo", enumera Chidozie.

Na faculdade de Relações Internacionais, a experiência é semelhante, conta Sandra Silva. "Não tive história das relações internacionais da África. No mestrado, fiz uma matéria optativa. Então, eu poderia fazer graduação e mestrado em Relações Internacionais sem ouvir falar da África. Isso certamente acontece com muita gente. Se nem nessa área a gente está interessado no continente africano, imagina o que o senso comum sabe do que acontece?", pondera.

Ponte Iekki Ikoyi, em Lagos, na Nigéria - Wissam Achkouty/Getty Images - Wissam Achkouty/Getty Images
Ponte Iekki Ikoyi, em Lagos, na Nigéria
Imagem: Wissam Achkouty/Getty Images

A situação tampouco é diferente nos meios de comunicação de massa. "É muito difícil você tentar se informar pela mídia hegemônica, infelizmente. Quando chega alguma notícia com mais força lá, normalmente é algo ruim, nos menosprezando, nos mostrando como selvagens ou incivilizados", critica Augusto Chidozie. "Um exemplo: na Nigéria, em 2015, houve um massacre na cidade de Baga, no norte, em que mais de duas mil pessoas foram mortas pelo [grupo extremista] Boko Haram. Pouco se falou sobre o tema. No mesmo ano, um atentado em Paris mobilizou toda aquela corrente de 'Pray For Paris', 'ore pelas vítimas', uma repercussão imensa. Não é dado o mesmo valor ao continente africano", compara ele.

Derrubando estereótipos

Outra forma de generalização que gera desinformação é que frequentemente as guerras nos países são resumidas a "conflitos étnicos". "Isso me deixa muito irada, porque desconsidera que existem fatores, em todas as sociedades, que causam conflitos, e normalmente são econômicos", pontua Sandra Silva.

"Uma coisa que é realidade na África — em todos os lugares, mas talvez lá seja um pouco mais evidente — é como grupos dominantes locais se associam ao grande capital. O Congo é uma zona de disputa de mineradoras estrangeiras. E, em nome disso, ou, para mascarar esse interesse, acontecem as piores coisas. Não são conflitos étnicos per se. É muito desonesto falar isso e barbariza essa sociedade", observa.

Para Serge Katembera, a associação entre África e subdesenvolvimento mascara a questão tecnológica nos países do continente. "Fiz uma visita a Dakar, no Senegal, em 2014, e lá conheci muita coisa do universo tecnológico: grupos, laboratórios, fab labs, espaços de coworking que trabalhavam com inovação tecnológica de vários tipos e muitas mulheres envolvidas nisso, dinâmicas, jovens. E não é a imagem que se tem da mulher africana", recorda.

A experiência de não sofrer discriminação por causa das características físicas pode ser algo novo para negros brasileiros. "Sou filho de nigerianos, e quando fui para lá em 2013, a primeira sensação foi de que o vendedor me tratou como se eu fosse uma pessoa com potencial para comprar coisas quando adentrei uma loja. Não tinha segurança vindo atrás de mim, o que acontece muito no Brasil. Foi um sentimento de: 'puxa, eu sou tratado como ser humano normal'", lembra Chidozie.

"Não estou dizendo que não existe discriminação na Nigéria. Existe, entre etnias. Ainda há uma certa tensão. Mas, pela cor da pele, jamais. Então, eu acho que é uma experiência extremamente enriquecedora e empoderadora, porque somos tratados como iguais. Isso não acontece no Brasil, muitas vezes, infelizmente, pelo nosso passado escravocrata."

Construção de identidade

As nações africanas também apresentam contradições, onde tradição e modernidade convivem. Questões como o papel da mulher na sociedade e os direitos das pessoas LGBTQIs+ também são discutidas por lá. E, assim como o Brasil, os africanos ainda sofrem os efeitos da colonização europeia.

"O africano urbano jovem está muito imerso em toda essa dinâmica da globalização. Muitos povos foram colonizados até os anos 1960. No caso da África lusófona, até os anos 1970. Ou seja, tem também uma violência, e eles também estão, de certa forma, construindo uma identidade própria nova, nesse mundo", observa Katembera.

A busca por mais conhecimento sobre a África pode ser importante, algumas vezes, para que o próprio continente africano se reconecte às suas raízes. "Tem uma presença muito forte do Cristianismo e do Islã na África. Então, às vezes as religiões de matriz africana sofrem essa mesma discriminação que existe no Brasil. Eu mesmo só mudei minha visão quanto a isso porque tive uma grande convivência com muitos afro-brasileiros. Hoje, eu diria que você encontra muito mais isso, por exemplo, na Bahia, ou até em Recife, ou nos Estados Unidos, na Louisiana, do que em várias regiões da África", pontua o sociólogo.

Aquarela "Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia", de Carybé  - Facebook/Reprodução - Facebook/Reprodução
Aquarela "Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia", de Carybé
Imagem: Facebook/Reprodução

Sandra Silva lembra uma fala que ouviu do professor e ativista congolês Ernest Wamba dia Wamba (1942-2020), seu amigo, que resume o que deve ser levado em conta nessa troca entre os países da diáspora e o Continente Mãe. Figura importante na pós-independência de alguns países africanos, e nome central no conflito do Congo, ele morreu em 15 de julho de 2020, em decorrência da Covid-19.

"Eu estava com um grupo com os outros estrangeiros, e ele disse que ficava muito feliz de ver essa busca de pessoas negras de outros países na África, mas que era importante a gente ter em mente que a África também precisava se preparar para nos receber. A gente corria o risco de chegar e não encontrar o que estava procurando. A gente tinha que entender que a África também precisava de preparação para receber a diáspora. Achei muito bonito."