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Incêndio de grandes proporções destrói maior campo de refugiados da Europa

Campo de refugiados de Moria, no mar Egeu, após o incêndio. Mais de 12 mil pessoas foram desalojadas - Arne Boettner/picture alliance/ GettyImages
Campo de refugiados de Moria, no mar Egeu, após o incêndio. Mais de 12 mil pessoas foram desalojadas Imagem: Arne Boettner/picture alliance/ GettyImages

André Naddeo

Colaboração para o TAB, de Atenas

09/09/2020 15h50

Um incêndio de grandes proporções praticamente destruiu o campo de Moria, na madrugada desta quarta-feira (9), na ilha grega de Lesbos, no mar Egeu. O espaço, inicialmente desenhado para hospedar 2.750 solicitantes de asilo em território helênico, era o lar provisório de pelo menos 13 mil pessoas, que agora se encontram pelas ruas, sem ter para onde ir.

"Está tudo destruído, tudo foi transformado em cinzas", afirmou ao TAB Hussein Nazari, refugiado afegão de 25 anos, há quatro morador da ilha que se transformou, segundo ativistas, na maior vergonha europeia no sistema de acolhimento de quem foge de seu país de origem em busca de asilo por motivos de guerra, perseguição e violações de direitos humanos.

O Ministério de Imigração da Grécia confirma, em suas redes sociais, que, até o momento, não foi registrada nenhuma morte e ninguém ferido gravemente. Ainda pela manhã, pequenos focos de incêndio eram registrados no campo que se tornou agora imenso um descampado de cinzas. O Corpo de Bombeiros grego informou que o fogo durou sete horas, desde que teve início por volta da meia-noite (hora local).

O TAB esteve no campo de Moria em março, dias antes de a pandemia ser declarada em toda a Grécia. Na ocasião, o campo chegou a receber 20 mil solicitantes de asilo, em condições completamente insalubres. A questão é que, desde então, o campo vive sob um regime exclusivo de quarentena, sem precedentes em todo o território grego, que aliviou as medidas de confinamento para os demais cidadãos já na segunda quinzena de maio.

Bomba relógio

"É o que todos dizem por aqui: 'Moria é uma bomba relógio'. E agora explodiu", relatou ao TAB o afegão Shier Iqbali, 45 — nacionalidade dominante no local que também hospedava sírios, iraquianos e africanos subsaarianos. "Ninguém aguentava mais, já são seis meses de quarentena, calor, falta de comida, água. Estava claro que uma catástrofe como essa iria acontecer. As pessoas ficam loucas nesse lugar", disse Iqbali, que vive numa cabana sem qualquer tipo de saneamento básico no alto da chamada "jungle" (floresta), onde se instalou a grande maioria dos solicitantes de asilo. Água corrente e eletricidade são ausentes.

Incêndio no campo de Moria, o maior abrigo de refugiados da Europa: mais de 12 mil pessoas estão desabrigadas - Reza Hassani/Arquivo pessoal - Reza Hassani/Arquivo pessoal
Incêndio no campo de Moria, o maior abrigo de refugiados da Europa: mais de 12 mil pessoas estão desabrigadas
Imagem: Reza Hassani/Arquivo pessoal

Igbali explicou que mal deu tempo de juntar roupas, pegar as crianças e sair correndo. "Foi tudo muito rápido. O que sabemos de momento é que houve uma grande briga entre os próprios refugiados e a polícia."

Vários relatos de ONGs que atuam em Lesbos também dão conta de que, após o primeiro caso de Covid-19 ter sido confirmado em Moria, as medidas restritivas implementadas geraram fúria entre os solicitantes de asilo, e este parece ter sido o principal motivo do mega incêndio.

Desde março, apenas 100 pessoas, por dia, mediante autorização escrita, eram autorizadas a deixar o campo para fazer compras, por exemplo, em Mitilene, a capital da ilha. Após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 — um homem somali de 40 anos que retornou a Moria após não encontrar moradia em Atenas —, autoridades sanitárias gregas começaram um mutirão de testes que, até o incêndio desta madrugada, já havia identificado outros 35 casos.

Campo de Moria, na ilha de Lesbos (Grécia), após o incêndio de grandes proporções na quarta-feira (9) - Reza Hassani/Arquivo pessoal - Reza Hassani/Arquivo pessoal
Campo de Moria, na ilha de Lesbos (Grécia), após o incêndio de grandes proporções na quarta-feira (9)
Imagem: Reza Hassani/Arquivo pessoal

Com o campo militarizado e cercado, falta de comida, água e sobretudo perspectivas, imigrantes e refugiados se recusaram a ir para uma zona exclusiva do campo, afastada, para que os possíveis casos de Covid-19 fossem monitorados. Foi o estopim de uma grande revolta que culminou no incêndio de enormes proporções, de acordo com diversos relatos de ativistas e dos próprios refugiados moradores de Moria. Stelios Petsas, porta-voz do governo grego, disse que "todas as possibilidades sobre a causa do incêndio estão sendo estudadas", e que ainda é muito cedo para qualquer explicação oficial.

"Esta é a zona 12, onde a grande maioria do nosso grupo vivia. Perdemos tudo, mas todos sobrevivemos", afirmou a publicação do grupo Moria White Helmets, que desde o início da pandemia reúne voluntários refugiados e imigrantes para promover, diariamente, mutirões de limpeza e produção própria de máscaras, diante da falta de equipamento básico de higiene por parte do governo grego. "Voltaremos a dar notícias, agora temos que cuidar uns dos outros."

O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mtsotakis, anunciou para esta quarta-feira uma reunião de emergência com todos os ministros para tratar exclusivamente do assunto. Um batalhão de choque especial grego foi enviado a Lesbos, ainda na madrugada, para auxiliar o corpo policial local em Moria. Há relatos de que um cordão de isolamento foi feito para impedir que os refugiados e imigrantes andassem pela estrada que leva a capital Mitilene.

"Estão todos pelas ruas, ninguém sabe o que fazer. Muita gente está indo agora acampar em frente ao campo de Karatepe", disse ainda Hussein Nazari, sobre um outro campo na ilha de Lesbos, que atualmente atende cerca de dois mil solicitantes de asilo, em melhores condições. "Para mim hoje foi o fim de Moria, acabou, a catástrofe chegou", completou.

Há um grande temor de que exista agora um completo descontrole sobre Covid-19, já que o incêndio tornou praticamente impossível o rastreamento dos possíveis infectados. Existe apenas um hospital público para todos os 85 mil moradores da ilha. Organizações como o Médicos Sem Fronteiras (MSF) fizeram diversos comunicados pedindo a pronta evacuação e um novo plano de acolhimento para os solicitantes de asilo em Moria, dadas as condições insalubres do maior campo de refugiados do Velho Continente.

Kostas Mountzouris, governador-geral do Egeu norte, declarou estado de emergência em toda a ilha e que a situação "está completamente fora de controle". A expectativa é que, após a reunião de emergência com o primeiro-ministro, um novo local na ilha seja rapidamente adaptado para abrigar as milhares de pessoas, até que um plano de contingência e plena evacuação de Moria sejam colocados em prática.