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Show para, eleição, não: artistas emplacam 1° hit com pisadinha política

O cearense Karkará e o piauiense César Araújo no clipe de "O Homem Disparou" - Reprodução/ Youtube
O cearense Karkará e o piauiense César Araújo no clipe de "O Homem Disparou" Imagem: Reprodução/ Youtube

Tiago Dias

Do UOL

22/10/2020 13h45

Quando a pandemia chegou, tudo parou no Nordeste. Shows, vaquejadas, paredões e festas populares: tudo que fazia aquecer a economia de muitos municípios do interior, em especial o mercado musical da região, desapareceu.

O efeito foi desastroso. Empresário de bandas de forró há 16 anos, o paraibano José Patrício demitiu uma equipe de mais de 20 profissionais, fechou as portas de sua casa de show no Recife (PE) e ficou como todo mundo ficou: na paradeira. "Esperamos abril, esperamos julho e nada, mas pensei que tinha um evento que não deixaria de acontecer. É ano de eleição", conta.

Se você já pisou na rua, especialmente na região, é possível que tenha ouvido uma música sobre um candidato "querido, atencioso e trouxe a liberdade paro o nosso povo", e que nas pesquisas "disparou, disparou, disparou". São versos de "O Homem Disparou", do piauense César Araújo, que se tornou febre entre os candidatos e apoiadores, e que logo ganhou reforço de Karkara e Vilões do Forró, do casting de Patrício.

Há cidades onde os dois principais candidatos usam a mesma música em suas campanhas — e isso só é possível porque a letra não cita nome, partido ou legenda. Para o autor, "O Homem Disparou" é, antes de tudo, uma música de carreira, mas não deixa de ter no DNA as qualidades de um jingle de sucesso. O ritmo da pisadinha, variação do forró que se espalhou pelo Brasil, gruda nos ouvidos, e embora o sujeito seja oculto, você sabe que "ele" é querido pelo povo e vai ganhar. E tudo bem se for uma candidata, os artistas já gravaram "A Mulher Disparou". "É um vírus, como o corona", brinca Patrício. Pelo menos 200 candidatos já usam a música como jingle oficial, isto é, citando nome e legenda dos políticos. Mas a "pandemia" do homem que dispara é difícil de mensurar. Nas contas do empresário, 5 mil cidades usam a música como ela está no YouTube.

Uma das vozes da música, ao lado do piauense César Araújo, o cearense Karkará observa que a falta de um sujeito específico fez a música viralizar com mais facilidade. "A diferença é que a gente assina com nossos nomes e vamos cantar nos shows", explica. "Sem as apresentações, a gente queria utilizar um evento que já fosse acontecer, e que depois isso nos ajudasse também a entrar nos eventos."

Ouro para os políticos

A lógica do Karkará reflete muito o peso que a política tem nesse mercado musical, que se abastece de uma produção caseira e se desenvolve localmente, em shows e apresentações por todo o Nordeste -- não à toa, os personagens dessas histórias são de diferentes estados, mas todos eles dizem que o peso dos eventos municipais corresponde à metade do trabalho na estrada.

Para uma banda ser economicamente rentável, ela precisa viajar toda a região fazendo shows — e as festas populares e eventos públicos bancados pelas prefeituras são fundamentais: reúnem público grande e garantem um cachê fechado, independentemente da bilheteria. Quando é ano eleitoral, os jingles nos ritmos populares, como a pisadeira, o arrocha ou o brega funk são ouro para qualquer candidato de qualquer parte do país.

Com vozeirão que se destaca nas vaquejadas, Karkará tem composições cantadas por Mano Walter e Wesley Safadão, mas sempre é chamado para fazer jingles. Patrício observa que o estilo rimador de seu artista traz uma visão profunda das raízes da região. "Ele agrada a muito políticos, advogados e médicos que costumam frequentar os eventos", diz.

O músico cearense Karkará - Divulgação - Divulgação
O músico Karkará
Imagem: Divulgação

A primeira música da safra mais "política" de Karkará e Vilões do Forró é de 2019. A banda não estava entrosada nos palcos e ainda não conseguia emplacar um ritmo bom de lançamentos e shows. O empresário reuniu a equipe para uma mensagem motivacional: "É nós trabalhando, os contra falando e Deus abençoando".

No dia seguinte, Karkará chegou com a música "Nunca foi sorte, sempre foi Deus": "A sua inveja nunca vai me derrubar / Eu sou assim, quem quiser pode falar / Tá falando de mim, tá querendo ser eu / Mas deixa eu te dizer / Que a voz do povo é a voz de Deus", diz a letra. Patrício não nega que imaginou aqueles versos ecoando num comício cheio de gente. "Eu já conseguia ver o povo cantando!", comemora.

No Rio de Janeiro, candidatos a vereadores pelo PRB usam imagens de Marcelo Crivella, que busca a reeleição na capital fluminense, ao som da música de Karkará.

Meu Prefeito é 10 Crivela! Minha vereadora é 10999 Tânia Bastos !

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"Sou uma pessoa do interior, semi-analfabeta, e tudo que eu tenho foi porque Deus estava à frente", diz o empresário, que se tornou co-autor da música. Para ele, esse é o sentimento de todo um povo, o que talvez explique a devoção com que os fãs cantavam os versos nos shows antes da pandemia. E, de quebra, a eficácia como um jingle genérico.

E há muitos motivos para Patrício ter fé. Antes da pandemia, Karkará e Vilões do Forró era uma banda média, que nunca saiu da região e ainda lutava para emplacar as músicas nos paredões. Agora, há menos de um mês do primeiro turno, "O Homem Disparou" e "Nunca foi sorte, sempre foi Deus" acumulam mais de 1 milhão de views na plataforma para as duas músicas. Algo inédito para o empresário e para os artistas.

O jeito foi investir ainda mais no filão. Vieram "A Vitória Chegou" (para os azarões da disputa), "Caixa de inveja" (para aquele candidato que resiste aos ataques dos adversários), "O povo quer o novo" (para o novato na disputa), além dos favoritos para quem busca a reeleição: "Vamos Ganhar de Novo" e "Tô com Você de Novo". São hits tanto nas caravanas e carros de som, como também no Sua Música, plataforma que se tornou referência no mercado musical nordestino.

Tendências pisativas

No Piauí, mais precisamente na cidade de Pedro 2º, César Araújo sacou a tendência sem querer. Aos 26, ele repete a tradição de muitos artistas da região: canta desde pequeno e mantém o sonho de se tornar um cantor de forró de sucesso. Pouco antes da pandemia, deu um passo importante e foi contratado por um empresário. O primeiro trabalho foi um agrado a um político da cidade vizinha Milton Brandão, antes mesmo da pré-campanha. "Meu empresário me pediu uma música, mas sem citar nome e legenda, porque ainda era proibido", conta. Foi aí que surgiu a letra de "O Homem Disparou", versão de uma música conhecida, "Menina Pavorô", da banda brasiliense Forró Perfeito.

César achou que a música ficaria restrita apenas na cidade. "Cerca de um mês depois, teve gente que me ligou querendo colocar o nome. Hoje eu tenho pedido até do Acre. Nunca na minha vida imaginaria isso, eu não estava preparado", diz. Nas suas contas, ele já ganhou R$ 3 mil em cima de "O Homem Disparou", seu primeiro hit autoral. "Deu uma recuperada na falta de shows."

Patrício ouviu a música como se fosse um sinal de que estava no caminho certo e convidou o piauense para um "feat" com Karkará e Vilões do Forró.

Sabe-se lá qual candidato pode ganhar, mas para Patrício, foi seu caixa, que estava no zero, que disparou. Se antes o cachê para um show da trupe de Karkará, com esforço, ficava na casa dos R$ 30 mil, os artistas agora já têm show agendado para o reveillón por R$ 100 mil. E as ligações não param. "Os candidatos querem a gente na festa da vitória, são candidatos de Minas Gerais, Pará, Maranhão", comemora Patrício. "Estou trocando tudo, vou comprar um Uno novo pra rodar o Brasil."