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Alheios à crise, gurus do sucesso pedem fim de 'vitimismo' e 'coitadismo'

Carol Paiffer, CEO e sócia fundadora da Atom Participações - Reprodução/Instagram
Carol Paiffer, CEO e sócia fundadora da Atom Participações Imagem: Reprodução/Instagram

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB

01/12/2020 04h00

O empresário Ricardo Bellino não é apenas um "acelerador de negócios". É também um "acelerador de pessoas". Para ele, "o pobre é pobre de espírito. Não é aquele que não tem dinheiro. É o que não tem coragem de aceitar sua condição e transformar sua vida".

Bellino garante que fala com conhecimento de causa, porque "conhece garotos sonhadores que não têm dinheiro, não falam inglês, não têm amigos importantes, mas vão lá e fazem. Não arrumam desculpas e se escondem no coitadismo."

O empresário foi um dos palestrantes do Summit Êxito de Empreendedorismo — evento online que levou ao ar cerca de 60 horas de palestras em diferentes horários entre terça-feira (24) e domingo (29). Com 100 mil inscritos, tratou do tema: "empreendedorismo, tecnologia e inovação em um sociedade disruptiva".

Mais de 135 personalidades do mundo dos negócios, das finanças, do entretenimento e de áreas de difícil definição discorreram sobre como empreender, vencer na vida, ganhar muito dinheiro, realizar sonhos, ser feliz e abandonar o vitimismo neste Brasil desorientado, arruinado economicamente e com mais de 170 mil mortos por Covid-19.

O empresário Ricardo Bellino - Reprodução/ Youtube - Reprodução/ Youtube
O empresário Ricardo Bellino
Imagem: Reprodução/ Youtube

Saiba o quão "f..." é você

"Ser feliz é uma decisão. Não é uma consequência, é uma causa. Você não vai tomar remédio e ser feliz, meu amor. O Rivotril não vai te fazer feliz", disse Bellino após esclarecer a audiência a respeito da pobreza. O empresário deu uma palestra sobre "aceleração de pessoas".

Multimilionário — de acordo com diversas reportagens que já saíram a seu respeito na imprensa — e ex-parceiro de negócios de Donald Trump, o empresário até começou a palestra com uma fala tranquila. Em suas explanações finais, porém, o discurso subiu de tom: Bellino mais parecia um pastor tentando exorcizar o demônio que te impede de empreender do que alguém querendo te ajudar a deixar de ser um "fudido". Ele é autor do livro "Ninguém é fudido por acaso: um guia prático anticoitadismo".

Antes de encerrar a palestra, inclusive, o empresário avisou que existe um jeito rápido e prático para conferir "o nível de fudência que você está hoje". Basta acessar o "fudidômetro" e fazer o teste. Eis meu resultado:

Os problemas são grandes, Daniel, e você depende de uma mudança completa. As pessoas ao redor não contam com você para resolver problemas. Sua capacidade de visão está muito debilitada, não consegue encontrar soluções rápidas, ou, pior, quando encontra, está desacreditado. Sempre fala coisas negativas e fica parecendo o portador oficial de más notícias. Seus resultados estão baixos. É o típico pessimista. Vai dar mais trabalho, e exigirei um esforço maior da sua parte para mudar. Além de andar na direção contrária, você vai ter que se empenhar um pouco mais para mudar a visão das outras pessoas a seu respeito. A primeira coisa é acreditar em si.

Trabalhar desde criança e cortar o cabelo

Diante da impossibilidade de assistir a todas as palestras do evento, escolhi comparecer àquelas com os nomes que julguei mais promissores, como "Decida Vencer", do empresário gaúcho Eduardo Volpato. Ele contou que começou a trabalhar com o pai aos dez anos de idade. E que arrancou o dedo polegar da mão esquerda aos 13 anos de idade, em um acidente com uma máquina de cortar ferro. Felizmente, os médicos conseguiram reimplantar o membro, que Volpato exibe orgulhoso na tela.

O empresário gaúcho Eduardo Volpato - Reprodução/ Youtube - Reprodução/ Youtube
O empresário gaúcho Eduardo Volpato
Imagem: Reprodução/ Youtube

"Foi trabalhando com meu pai que aprendi a fazer muita coisa e eliminei duas crenças que hoje são um grande problema do brasileiro", disse o empresário. "A primeira é a crença de que trabalhar é ruim. Eu não tive opção, para mim o trabalho sempre foi uma coisa natural e dignificante. A outra crença é sobre dinheiro. Eu via meu pai cobrando dos clientes, vendendo produtos e serviços. E os clientes me validavam. No final dos anos 80 e começo dos 90, ainda era normal uma criança trabalhar."

Mesmo assustado com a história, segui acompanhando a palestra de Volpato. Soube então que, na época de sua adolescência, homens de cabelo comprido não arranjavam namoradas.O visual, que aparentemente lhe causava infortúnios amorosos, também o impedia de prosperar. "Eu escutava muitos nãos e algumas pessoas me chamavam de vagabundo. Aí, cortei o cabelo e passaram a me receber mais", revelou o empresário, hoje com pouco cabelo.

A terceira grande lição extraída da apresentação é que se deve trabalhar mais do que aquilo para o qual você foi pago. Volpato descobriu isso quando, ainda adolescente, foi à casa de uma senhora para um serviço de manutenção elétrica. Quando já estava indo embora, a cliente perguntou se ele poderia também pregar uns quadros na parede. Volpato aceitou o desafio e não cobrou valor extra — mesmo depois de trabalhar por duas horas e meia a mais que o esperado.

A decisão, ele conta, acabou lhe garantindo ótimos trabalhos depois. Gostaram daquele garoto que trabalhava duro sem cobrar.

"A âncora do país"

Embora muito impactado pelas palestras de Bellino e Volpato, não me furtei a tirar aprendizados de outras apresentações. Com Thiago Nigro, por exemplo, soube que "se você abrir uma maçã, vai descobrir quantas sementes existem dentro dela. Mas você nunca vai descobrir quantas maçãs existem dentro de uma semente".

Nigro é o popstar por trás de "O Primo Rico", canal do YouTube sobre investimentos que conta com 4,25 milhões de assinantes. Ele promete te dar as sementes corretas para você colher os frutos. Explica que são dois os caminhos a seguir na vida: o da "sabedoria e respeito", que te levará ao sucesso, e o da "tolice e insensatez", que fatalmente te condenará ao fracasso.

Thiago Nigro, conhecido como "O Primo Rico", tem mais de 4 milhões de seguidores em seu canal no Youtube - Reprodução/ Youtube - Reprodução/ Youtube
Thiago Nigro, conhecido como "O Primo Rico", tem mais de 4 milhões de seguidores em seu canal no Youtube
Imagem: Reprodução/ Youtube

Já Carol Paiffer, CEO e sócia fundadora da Atom Participações, contou que começou a desvendar os meandros da Bolsa de Valores aos 17 anos. Então traçou a meta: se aposentar aos 25 anos. "Aí as pessoas me perguntam: mas você tem 32 anos. Deu errado? Não! Porque aos 25 eu já tinha feito dinheiro suficiente para viver de renda se quisesse. Poderia mudar para o Havaí e ter dez filhos", contou Paiffer. Na sequência, esclareceu: "Mas não digo isso para esnobar ou ostentar. É para te falar que, se você não planejar, nunca chegará lá".

Paiffer é bem didática ao explicar o básico sobre investir na bolsa. Ela quer incentivar os brasileiros a fazê-lo. Lembra que essa cultura ainda é incipiente por aqui. Tanto que "até o ano passado, tinha mais gente na cadeia do que na bolsa", revela. "Aí você diz que é porque tem muita gente presa. Tem 0,3% das pessoas na cadeia. E 0,29% investiam na bolsa. Agora temos 1% de investidores. Mas, nos Estados Unidos, 65% das pessoas investem na bolsa e 0,73% estão presas".

São dados curiosos. Paiffer terminou a palestra sem explicar o que uma coisa tem a ver com a outra. Deixou, porém, um alerta aos acomodados. Se você tiver conhecimento sobre dinheiro e investimentos e "continuar no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, foi escolha sua. Você não vai evoluir e ajudar ninguém. Você quer ser a âncora do país? A que afunda a economia?".

Gerador de discursos motivacionais

O cantor Wesley Safadão e o ilusionista, hipnólogo, youtuber e ex-BBB Pyong Lee também deram palestras. Eles contaram sobre suas trajetórias pessoais e evitaram que a saturação semântica desligasse o cérebro dos ouvintes. Ao menos, enquanto estavam no ar. Trata-se daquele fenômeno no qual uma palavra ou frase é repetida tantas vezes que perde o sentido.

Como Safadão e Lee não são da área de investimentos e finanças, recorreram bem menos ao vocabulário típico desses segmentos. Porque, se neste momento o leitor já se sente inspirado a empreender, fica a sugestão: criar um gerador de falas motivacionais. Munido das palavras "empreender", "sucesso", "mindset", "felicidade", "vencer", "conhecimento", "iniciativa", "resiliência" e "exemplo", é possível construir um discurso sem fazer feio frente aos especialistas.

"Deus" também pode constar nesse gerador. Ele foi muito citado nas palestras, apesar de não figurar oficialmente na programação do evento. Talvez seja hora dos quase 52 milhões de brasileiros que vivem na pobreza ouvirem as dicas d'Ele.