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Pessoas com deficiência combatem a ‘emoção barata’ na indústria do cinema

O cineasta Daniel Gonçalves e equipe - Divulgação
O cineasta Daniel Gonçalves e equipe Imagem: Divulgação

Brunella Nunes

Colaboração para o TAB

29/11/2020 04h00

Não é de hoje que Hollywood vem apostando em repaginar histórias clássicas através de superproduções cinematográficas. Com recursos tecnológicos mais sofisticados para enfeitiçar o público, o filme "Convenção das Bruxas" ganhou uma nova versão, mas o feitiço deu ruim. Ao ver a maneira como a produtora Warner Bros. Pictures retratou a personagem principal, pessoas com deficiência a acusaram de capacitismo: quando alguém é discriminado por suas características. Nesse caso, até estaria tudo bem, se não fosse o aspecto bizarro que quiseram passar na representação.

Na versão original, a Grande Rainha Bruxa tem garras nos dedos. Agora, optaram por deixá-la com três dedos e uma aparência mais assustadora. Tudo indica que a caracterização da vilã do remake, interpretada por Anne Hathaway e exibida pela HBO Max, não foi pensada para trazer à tona alguém com ectrodactilia (doença genética marcada pela ausência de dedos nas mãos ou nos pés), o que resultou em desrespeito.

Cena do filme Convenção das Bruxas - Divulgação - Divulgação
Cena do filme Convenção das Bruxas
Imagem: Divulgação

Em nota enviada à imprensa, tanto a atriz quanto a Warner Bros. Pictures lamentaram o ocorrido, afirmando que "ao adaptar a história original, trabalhamos com designers e artistas para criar uma nova interpretação das garras de gato que são descritas no livro. Nunca foi nossa intenção fazer com que os espectadores sentissem que as criaturas fantásticas e não humanas deveriam representá-los."

A empresa apresenta em seu site oficial um documento de uma página dedicado à política de inclusão, afirmando que será criado um plano para implementar este compromisso com a diversidade e inclusão nos projetos, com números reportados anualmente em um relatório de análise de progresso.

Em 2019 foi lançado o primeiro, com números referentes ao ano anterior. Porém, não menciona pessoas com deficiência, se limitando inicialmente a etnia e gênero. A vice-presidente executiva e chefe do setor, Christy Haubegger, justificou que estão trabalhando para obter uma medição de dados mais consistente, visando abranger mais comunidades.

Nem coitados, nem heróis

A princípio, a problematização pode parecer exagero à quem não tem uma deficiência física. Mas para compreender a dimensão do problema é preciso recapitular um processo traumático, para dizer o mínimo. Durante o século 19, pessoas com deficiência eram usadas nos chamados "freak shows", ou show de aberrações, no bom português. Exibidas em circos, elas serviam para entreter o público no pior sentido que a palavra já teve: para fazer os outros rirem delas — e não com elas. O acontecimento revela as camadas históricas da maldade humana com quem é diferente entre uma maioria, constantemente atrelados ao medo e à repulsa. Assim se seguiu um caminho de discriminação, bullying e diagnósticos ruins que as colocavam como inválidas dentro da sociedade.

O capacitismo é um termo recente, utilizado para apontar preconceitos ainda enraizados em relação à deficiência. A nomenclatura engloba desde a falta de acessibilidade nos espaços até a maneira com qual essas pessoas são tratadas e representadas.

Para o consultor em acessibilidade do Grupo Bandeira das Artes, Klístenes Braga, a Warner poderia ter minimizado os riscos de errar se tivesse uma assessoria especializada no assunto dentro do set ou pessoas com deficiência incluídas no processo. "Para além de ser uma questão de empatia e de levar em consideração as lutas do movimento, acho que faltou uma leitura de mundo. Hoje a linguagem já não sugere o uso de deficiência para evidenciar uma bruxa má", explica. "Em qual contexto ou por que ela deveria ter um número menor de dedos? Às vezes, basta uma pergunta dessas para resolver o problema e criar outras possibilidades".

Embora a presença de pessoas com deficiência no audiovisual esteja aumentando, nem sempre o resultado é satisfatório. Um relatório da fundação Ruderman Family Foundation analisou 280 séries de TV e streaming norte-americanos entre 2016 e 2018. No período de dois anos constatou que, em metade delas, havia personagens com deficiências físicas, cognitivas ou mentais. Mas aponta que a deficiência "quase sempre é retratada como um estado indesejado, deprimente e limitador".

Perpetuando estereótipos

O cineasta Daniel Gonçalves, que lançou o primeiro longa dirigido por uma pessoa com deficiência no Brasil, o documentário autobiográfico "Meu Nome é Daniel", menciona a falta de diversidade na hora de compor os personagens. "Os filmes ou programas de TV acabam caindo em dois lugares, ou no coitadinho ou no cara que supera a deficiência dele. Mas em muitos casos poderiam apenas serem representadas como pessoas, sejam legais, boas ou escrotas".

O cineasta Daniel Gonçalves - Marcelo Santos Braga - Marcelo Santos Braga
O cineasta Daniel Gonçalves
Imagem: Marcelo Santos Braga

Ele conta ao TAB que, enquanto produzia seu próprio filme, recusou a narrativa de superação a todo custo — evitando até mesmo certos tipos de música que provocassem emoção barata. "Acho que esse recurso tem um problema, porque torna coisas corriqueiras extraordinárias. É muito ruim se apropriar da trajetória de pessoas com deficiência dessa maneira, porque nos coloca como tendo uma obrigação de inspirar quem não tem deficiência, como se fosse uma coisa que vem do além. São lugares assim que a gente não quer ocupar".

A pesquisa menciona ainda outro problema: em boa parte das produções, não são escaladas atores ou atrizes com deficiência para interpretarem os personagens, contribuindo não apenas com a falta de inclusão na tela, mas com o desemprego — que nos Estados Unidos é mais do que o dobro em comparação com quem não tem deficiência. No Brasil, só 1% da população de 45 milhões está inserida no mercado de trabalho.

A falta de pessoas com deficiência no set e no backstage de produções de mídia acaba perpetuando os estereótipos. O discurso de superação, envolto em camadas de heroísmo, está entre as principais queixas.

A atriz Mona Rikumbi, que é cadeirante, explica: "o capacitismo muitas vezes inviabiliza um bom trabalho e uma contratação por competência, nos colocando como especiais, como exemplo de superação só porque tomamos banho, fazemos nossa própria comida ou saímos para trabalhar".

A atriz Mona Rikumbi - Luca Masser - Luca Masser
A atriz Mona Rikumbi
Imagem: Luca Masser

No meio de questões pertinentes, não é preciso de nenhuma fórmula mágica para resolver os impasses. Retratar tais pessoas de maneira fidedigna e autêntica poderia ser resolvida com convivência. O filme 'Os Intocáveis' é constantemente citado como bom exemplo, porque não poupa e nem desrespeita ninguém, seguindo a linha do "a vida como ela é".

Gonçalves acredita que o medo das produtoras causarem uma má impressão é exatamente o tiro no pé. "O receio de arriscar vem justamente da ideia de que as pessoas com deficiência são todas boas. Em 'Sex Education', colocaram um garoto com paralisia como um cara maldoso. E o próprio Darth Vader é uma pessoa com deficiência e o maior vilão do cinema mundial, mas ninguém fala 'ah, coitado, ele tem uma deficiência'. As pessoas ainda não reconhecem isso."