PUBLICIDADE

Topo

A vez deles: DJs ganham destaque no funk com as músicas 'Set do DJ'

DJ GM, produtor de funk - Divulgação
DJ GM, produtor de funk Imagem: Divulgação

Renato Martins

Colaboração para o TAB

26/12/2020 04h01

É fim de 2020, ano em que tudo e nada aconteceu. Mas na música, área bastante afetada pelo distanciamento social imposto pela pandemia, uma tendência se estabeleceu com força. No funk, houve a explosão das músicas chamadas "Set do DJ". O formato destaca um personagem que poucas vezes recebe o devido crédito: o produtor musical (que no funk, é chamado de DJ).

Esses sets são a versão estendida de uma batida, em que o DJ convida vários MCs para cantar. Esse formato deu tão certo que muita gente considera 2020 o ano do "Set do DJ".

Analisando os lançamentos dos principais canais de funk no YouTube (GR6 Explode, KondZilla, Love Funk, Doug Filmes e Funk Explode), de janeiro até novembro de 2020, foram 53 sets lançados. Em 2019, foram 10 os sets lançados pelos mesmos canais; em 2018, apenas quatro.

O formato com vários MCs cantando na mesma música não é novidade. Ele lembra muito o que eram as cyphers. Nos EUA, quando a cypher surgiu, o produto tinha um tom mais de improviso, com as pessoas cantando ao vivo sob uma batida. Como o brasileiro curte deixar tudo com a sua cara, as cyphers foram virando trecho de músicas.

Nos sets também tem acontecido isso: alguns MCs chegaram a lançar refrões em músicas à parte. Mas o crédito ainda cai no colo do DJ.

Cena de 'Set do DJ W' - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
Cena de 'Set do DJ W'
Imagem: Reprodução/YouTube

Esses sets ficaram tão estourados que dar rolê nas quebradas de São Paulo é ouvir o "Set do DJ W - 3". Na terceira edição, essa é considerada uma das melhores músicas do ano. Já são 99 milhões de visualizações no YouTube e um time de peso de MCs (Vitão do Savoy, MC Davi, MC Ryan SP e MC PP da VS), quem levou o sucesso da parada foi o DJ — foi DJ W quem idealizou a música.

"Geralmente um set é baseado em um tema", diz DJ W, em entrevista ao TAB. "A gente chama alguns MCs; alguns aceitam, outros não. Um dos MCs grava a voz primeiro [...] e os outros fazem letra em cima disso."

Para o estreante nos sets mas produtor de carreira no funk, o carioca DJ RD já tinha idealizado como seria o som, inclusive a forma de os MCs cantarem, e foi distribuindo os trechos para cada um. "As músicas foram escritas como se fosse uma linha do tempo. Tudo pensado, cada parte diferente da outra, tanto na letra quanto na produção."

Outro produtor de destaque é DJ GM, que em seu segundo set bateu 79 milhões de visualizações. Ele também carrega um time de peso quando se trata dos cantores (MCs Paulin Da Capital, Lipi, Magal, Lele JP, Dricka, Nathan ZK, CL, Neguinho Do ITR).

Depois que a moda pegou, todo mundo tentou levar um pedaço do bolo com um set diferente. Tem set de todos os tipos: set em homenagem às relíquias do funk, set de verão, set das minas, set dos mandrakinhos e até um set acústico.

Como chegamos até aqui

Na música eletrônica, o DJ é a figura à frente de uma mesa de som, responsável por tocar uma música seguida da outra, com o talento de juntar as batidas e frequências de ritmo, sem que o público perceba a transição. O show acontece em um flow constante, sem parada.

É comum os DJ gravarem essas transições de músicas e soltarem nas redes como set mixado ou com o nome de mixtape (fita mixada). Mas, no funk, os sets não têm essa mixagem de músicas. Os MCs cantam por cima da mesma e única batida.

É difícil cravar quem começou essa história. Em agosto de 2016, DJ Perera lançou "Fatal", com estrutura que se aproxima do que são os sets de hoje. A batida repetida era levada com três MCs cantando — algo pouco comum para a época. Outra característica importante é que DJ Perera assina como autor da música, em vez dos MCs.

DJ R7 lançou, em dezembro do mesmo ano, a música "Quadrilha do R7", com incríveis sete minutos de duração, 50 milhões de visualizações e uma tropa de 17 MCs.

A partir disso, os DJs começaram a receber os créditos pelas produções. Surgem os "carimbos" no funk, pequenas vinhetas com o nome do DJ. Você já deve ter ouvido algo como "DJ Perera, original" ou "Deejay W, tá?". Essas vinhetas ajudaram a colocar DJ e MC lado a lado.

"A importância do set pro DJ é de divulgação", explica DJ W ao TAB. "Meu intuito era trabalhar minha imagem, porque eu já tinha muita música estourada e praticamente ninguém me conhecia."

Em entrevista a DJ Teoh em 2019, DJ W já destacava esse desejo de conquistar um respeito do público pelo trabalho da produção musical. "O DJ ainda não é tão valorizado como merece. Se você for olhar algumas músicas, se a gente não colocar a nossa alma, não acontece. Nem o público sente. A gente tem uma grande porcentagem [de participação na música], eu diria que uns 70%", explica o produtor.

"[O set do DJ W 3] É uma das melhores músicas que produzi, pelo fato da visibilidade", comenta. "Agi na necessidade do pessoal, que estava carente desse tipo de funk, e consegui ter êxito. Sem dúvida, pra mim, essa é a música mais escutada das quebradas. Os números não mentem, já está indo para 100 milhões de reproduções agora. É o primeiro set a bater 100 milhões."

Regionalismos

Parece que os sets chegaram pra ficar. No canal do Doug Filmes, a geração mineira lançou a série "BH no Topo", que chegou à sétima edição. Em São Paulo, existem as vertentes "Gang do Consciente", de DJ Bueno, e o "Bailão do DJ Douglinhas" e Gandaia, do DJ Puffe.

Os cantores também começaram a criar músicas, em parceria com vários MCs. Na "Revoada do Tubarão", de MC Ryan, o funk conta com nove minutos de duração e a participação de 10 MCs (Kevin, Rick, IG, Brisola, Davi, Dfideliz, Dricka, VK, Brinquedo e Paulin da Capital). Neste trabalho, a melodia se mantém, e em alguns momentos uma mudança rápida de BPM (batidas por minuto) acontece pra dar uma levada melhor pro MC.

Outro movimento que vem acontecendo é a aproximação dos MCs de funk com os cantores de rap. Em São Paulo, terra dos Racionais MC's, o funk nunca foi bem visto. Mesmo que ele sempre tenha existido na Baixada Santista desde os anos 1990, foi só com o funk ostentação, no começo dos anos 2010, que artistas com um pé no rap e cantando funk (como a dupla Back Di e Bio G3 e MC Guimê) entraram nas quebradas paulistanas.

Essa aproximação acontece também em outros formatos musicais, como na Poesia Acústica e também no Favela Vive, trabalhos cariocas que contam com participação de MCs paulistanos.

O movimento dos sets do DJ vai na contramão da indústria musical e das plataformas de streaming. As músicas são longas. Uma pesquisa mostrou que o tempo médio de um ouvinte no Spotify está na casa dos 2 minutos e 30 segundos. Por isso, se reparar, muitos dos sucessos do pop internacional parecem estar cada vez menores.

DJ RD não vê problemas na música longa. "É proposital o set ter bastante tempo. Tem outros de 5, 7, até 10 minutos [de duração]."

O streaming paga o artista por reprodução. É um modelo de negócio que busca fazer o usuário ouvir mais de uma vez, se gostar da música — se não gostar, antes que pule, a música já acabou. Mesmo que as grandes produtoras de funk já estejam no mercado da indústria fonográfica e de olho no streaming, o funk ainda mantém raízes culturais vivas, mas em constante mutação.