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'Sou escravo da arte': Descartes Gadelha é parte viva da memória cearense

Descartes Gadelha, pintor, escultor e músico cearense abriu sua casa para mostrar obras da série "De um alguém para outro alguém" que retrata o cotidiano e os prostíbulos do bairro Arraial Moura Brasil, em Fortaleza, por volta da década de 1950. - Marília Camelo/UOL
Descartes Gadelha, pintor, escultor e músico cearense abriu sua casa para mostrar obras da série 'De um alguém para outro alguém' que retrata o cotidiano e os prostíbulos do bairro Arraial Moura Brasil, em Fortaleza, por volta da década de 1950.
Imagem: Marília Camelo/UOL

Marie Declercq

Do TAB

29/01/2021 04h00

O artista plástico Descartes Gadelha se considera um mero operário da arte, mas é um dos mais importantes artistas vivos do Brasil, produzindo esculturas, pinturas e músicas que também servem como registros históricos da cultura e expressão artística do Ceará. Um tema em comum salta em décadas de trabalho e milhares de obras: o registro quase jornalístico dos "indesejados", invisíveis e esquecidos da sociedade brasileira — de Antônio Conselheiro às prostitutas de rua cearenses.

Gadelha mora em Benfica, bairro histórico de Fortaleza. Para chegar até lá, é preciso atravessar um jardim adornado por um caminho feito por pedrinhas vermelhas que levam até um alpendre alto, onde pode se sentar e aproveitar o dia. A casa foi projetada pelo próprio artista e transporta o convidado a um outro período, impreciso e anacrônico, que pode ser desde a década de 1930 até aos dias de hoje.

Ao lado de sua filha, Izabel Gadelha, os quadros selecionados já aguardavam na varanda da casa para serem fotografados. Por causa do clima incerto do dia, que não se decidiu entre chover ou permanecer nublado, lufadas de vento apareciam de repente e faziam uma ou outra tela tombar no chão.

As obras que hoje estavam fora do arquivo do artista, localizado em algum quarto da casa, representam uma pequena parte do trabalho de Gadelha, mas são essenciais para entender suas raízes. São quadros que registram de forma minuciosa a vida de Arraial Moura Brasil — bairro histórico de Fortaleza, hoje conhecido como Moura Brasil.

O bairro marca o início da relação de sobrevivência de Gadelha com a arte. Desde criança, o jovem artista já se esparramava no chão de casa para desenhar fotos de guerras. Com nove anos, o desenho já era sua fonte de renda para ajudar os pais e os nove irmãos, pintando cenários de peças que eram vistas ao fundo do Teatro José de Alencar. Com os dedos sujos de carvão, desenhava também mulheres peladas, copiadas de fotos de revistas adultas para vender aos amigos, carentes de material de imaginação.

"A arte nunca foi um motivo de glamurização, sempre foi muito trabalho. Nunca vi como uma coisa de glorificação. Meu vínculo com ela é só de sobrevivência e paixão de poder me expressar através das artes plásticas", conta o artista.

amplificadora - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL
Quadro "Amplificadora Brasil, A Voz Dos Corações" pintado por Descartes Gadelha em 1959 que retrata o cotidiano e as formas de comunicação do bairro Arraial Moura Brasil
Imagem: Marília Camelo/UOL

Amor nos alto-falantes

"Era como se fosse uma cidade dentro de outra cidade", relembra o artista plástico sobre seu bairro. Nascido em 1943, em Fortaleza, a história de Gadelha se cruzou com o Arraial por causa do emprego do pai, funcionário da Rede de Viação Cearense. Morando próximo à estrada de ferro, que separava o centro do Arraial, o jovem artista se divida entre a obsessão por se comunicar com seus desenhos e passar o dia produzindo raias (pipas). "Existiam verdadeiras guerras de arraias, o céu era todo guerreado por elas", conta.

Localizado na zona oeste de Fortaleza, o Arraial serviu como um campo de concentração de sertanejos que fugiam da seca no começo do século 20 e foram confinados pelo poder público na década de 1930 para "solucionar" problemas urbanos excluindo essa parcela da população na região. Por conta disso, a região ficou conhecida como "curral". Mesmo com o confinamento compulsório, a vida se desenvolveu no bairro e acabou se emancipando, na prática, do restante da cidade.

Amor Total - Marília Camelo - Marília Camelo
"Amor Total" uma das obras que retrata a vida das trabalhadoras sexuais do bairro Arraial Moura Brasil entre as décadas de 1950 a 1970
Imagem: Marília Camelo

Uma das suas primeiras inspirações veio do som. Na década de 1960, com poucos meios de comunicação disponíveis, o bairro era abastecido de informações por meio da Amplificadora Brasil, chamada também de irradiola. A amplificadora era um alto-falante que reproduzia a voz do locutor que passava o dia trancado em uma sala, narrando as principais notícias e passando recados a pedido de moradores. Grande parte do conteúdo dos amplificadores, conta Gadelha, envolvia amor.

"Eu anotava o que achava bonito dessas mensagens sonoras. Por exemplo: 'Maria das Dores oferece seu coração, totalmente destruído, pela separação do seu amor'. Ou também: 'Esta linda página musical vai de alguém para um outro alguém que está muito arrependido'. Essas mensagens eram repetidas às vezes diversas vezes por dia, dependendo do tipo de acordo que a pessoa fazia com o locutor. Existia todo um envolvimento das pessoas que habitavam aquele local com os acontecimentos que eram narrados nessa amplificadora", conta.

Bicheiro - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL
"Repouso do Bicheiro" parte da série "De Um Alguém Para Outro Alguém" de 1990
Imagem: Marília Camelo/UOL

O vai e vem no Curral das Éguas

As amplificadoras eram apenas um dos aspectos de comunicação no bairro. Na época que em Gadelha começou a circular pela vida boêmia do Arraial, passou a observar a zona de prostituição e o vaivém de clientes, ébrios, cafetões, malandros e mulheres trabalhando na região.

O local se estendia em uma faixa de mais ou menos 200 metros e as trabalhadoras sexuais atendiam clientes nos antigos estábulos que antes abrigavam cavalos para transporte de carga. Por conta disso, ficou conhecido como "Curral das Éguas". Sem saber ao certo o que se passava ali, Gadelha passou a desenhar tudo que via. "Prostituição era uma palavra que não existia pra mim", conta. "E para compreender qualquer coisa, tenho que desenhar. É um defeito intelectual".

homem chegando - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL
"Um Homem Chegando" de 1990
Imagem: Marília Camelo/UOL

Munido com papel e lápis para qualquer lugar que fosse, o artista foi documentando o cotidiano das mulheres do Curral das Éguas. "Eu queria entender aquelas mulheres e fui desenhando e escrevendo textinhos, espiando a vida delas. Considero que as prostitutas são sociólogas com uma competência muito grande".

Fora a vida do Arraial, Gadelha também foi percorrendo cantos invisíveis da sociedade, sem tentar exotificar ou simplificar os personagens que cruzavam com seu trabalho. Para ele, os registros vão além da arte e possuem a função social de contar as histórias de quem está ali. "Não sei se eu estava fazendo uma espécie de jornalismo secreto, porque eu ia lá e pedia para conversar em vez de fazer o pega pá cá pá", diz.

Os quadros de Gadelha viraram uma série exposta em 1991 no MAUC (Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará), sob o nome de "De Um Alguém Para Outro Alguém", inspirado nos amplificadores do Arraial. Estão lá registradas as jornadas das mulheres que ganhavam a vida no curral em diversas cenas: nas ruas, batendo o salto nas calçadas de pedra, virando alguma esquina ou fumando longamente um cigarro antes do próximo cliente.

são Jorge - Marília Camelo/UOL - Marília Camelo/UOL
"Bar São Jorge no Curral" de 1958
Imagem: Marília Camelo/UOL

Escravo da arte

O Arraial de Gadelha não existe mais. Destruído nos anos 1970 durante a ditadura militar, hoje o bairro se resume a um pequeno trecho entre o bairro de Pirambu e o centro de Fortaleza. "A exuberância se foi do Arraial", lamenta o artista.

Além do Arraial, Gadelha seguiu documentando outros universos invisíveis. Acompanhou a vida de catadores de lixo, a formação da identidade gay do Ceará e documentou toda a saga do seu conterrâneo Antônio Conselheiro, que liderou a Revolta de Canudos no século 19.

A Fortaleza atual, segundo ele, tomou "um banho de loja" — mas ainda é possível enxergar nas suas entranhas a verdadeira face da capital cearense. E Gadelha ainda anseia em eternizar essas denúncias. "A miséria está debaixo dos viadutos, em todo canto, e eu continuo fazendo esse trabalho. Talvez um pouco menos do que antes, mas a arte sempre me cobra. Eu sou um escravo da arte", diz.

Descartes - Marília Camelo - Marília Camelo
Descartes Gadelha mostra um quadro guardado no arquivo de obras que mantém em sua própria casa
Imagem: Marília Camelo

Multifacetado e incansável

As pinturas são apenas um dos modos de expressão artística de Gadelha, que também é escultor e mestre do maracatu, responsável por resgatar a identidade musical e cultural cearense. Em 2016, lançou com a cantora e pesquisadora musical Inês Mapurunga a iniciativa "Maracatus, Afoxés, Coroações, Rezas e Outros Batuques", que resultou em três álbuns e um livro que resgata preciosidades da música afro-brasileira.

Com 77 anos de vida e mais de dez cirurgias feitas para tratar diversas doenças ("meu corpo é todo remendado", comenta, rindo), Gadelha afirma que parar de produzir é impossível. "Mesmo doente, cheio de dores, eu não posso parar de me movimentar. Não é por vaidade ou ganância, é só quem eu sou".