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Fiéis aguardam celebrações em BH, mas igrejas ficam sem missa na Páscoa

Fiéis na paróquia São Sebastião, no Barro Preto, em Belo Horizonte, no domingo de Páscoa - Nina Rocha/UOL
Fiéis na paróquia São Sebastião, no Barro Preto, em Belo Horizonte, no domingo de Páscoa
Imagem: Nina Rocha/UOL

Nina Rocha

Colaboração para o TAB, de Belo Horizonte

05/04/2021 10h51

Era pouco depois das 7h quando uma das auxiliares da paróquia São Sebastião no Barro Preto, no centro-sul de Belo Horizonte, subiu ao altar para explicar aos aproximadamente 70 fiéis que a divergência das posições entre o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e o prefeito Alexandre Kalil (PSD) os impediria de assistir presencialmente à celebração de um dos mais importantes feriados católicos.

A prefeitura de Belo Horizonte decretou, em 12 de março, a suspensão por tempo indeterminado de "cultos, missas e outras atividades religiosas de caráter coletivo" no município. A medida, no entanto, permitia que esses espaços permanecessem abertos caso os protocolos de prevenção ao contágio e propagação da covid-19 fossem respeitados.

Nas semanas anteriores, a São Sebastião não seguiu as recomendações municipais. A primeira missa aconteceu no dia 21, e em nota divulgada nas redes sociais, a igreja informou que "tudo estava programado para a missa transmitida sem a presença dos fiéis. Lamentavelmente, um grupo numeroso de pessoas se aglomerou em um espaço reduzido da capela do Santíssimo por causa da porta aberta, por descuido, no horário da missa das 11 h que seria transmitida. Neste caso excepcional, que fugiu do nosso controle (...) decidimos, na angústia do momento, que cerca de 80 fiéis se acomodassem no fundo da igreja cuja nave comporta cerca de mil pessoas". A decisão foi criticada pelo prefeito no Twitter.

A fala de Kalil, no entanto, não surtiu efeito: nas missas dos dias 28 e 29 de março, transmitidas online pelo YouTube, o padre José Cândido afirmou que a Páscoa seria celebrada na paróquia com cinco missas presenciais ao longo do dia. "No Domingo de Páscoa, com todos os cuidados, nós teremos aqui a presença dos fiéis", disse Cândido, ao encerrar a missa do Domingo de Ramos.

Tensão até a última hora

O Sábado de Aleluia seguiu com uma série de impasses entre a prefeitura e o padre, que respondia nas redes sociais. "A liberdade de culto é um direito constitucional que, nessa época difícil, deve ser exercida responsavelmente. Não temos notícias, até hoje, de alguém que tenha sido contaminado pela covid-19 por causa da presença nas nossas missas." Em seguida, uma nova publicação foi compartilhada: por orientação da prefeitura, todas as missas presenciais estariam canceladas. "Lamentavelmente, agora à tarde funcionários da prefeitura vieram recomendar para não haver missas presenciais amanhã." A notificação foi fixada nas portas do templo.

Mesmo com os avisos, os fiéis se animaram com a possibilidade da celebração ser realizada e compareceram, desde o primeiro horário. A igreja estava de portas abertas para as comunhões individuais. Agitados, muitos chegavam ao local sem proteção e colocavam a máscara apenas ao entrar.
Criticavam a decisão do prefeito, do governador e pediam uma intervenção mais severa do governo federal no que diz respeito aos cultos religiosos. Utilizavam adjetivos como "satânico", "tirano" e "autoritário" ao se referirem ao prefeito.

Nos corredores e no pátio externo da igreja, especulava-se a ameaça de suspensão de ônibus por parte da prefeitura, alianças políticas da arquidiocese e até que Alexandre Kalil era o próprio demônio.

A mídia também não foi poupada. A maioria dos presentes conversava com a reportagem normalmente, mas a partir da identificação que se tratava de reportagem, os fiéis se recusavam e classificavam a imprensa como "inimiga dos bons cristãos".

Valéria de Souza, 55, foi uma das poucas que aceitaram dar entrevista, e classificou como ridículo o fechamento da igreja. "O pessoal vai a supermercado, padaria, continua aglomerando. Só na igreja que vai pegar doença? Eu acho que é uma perseguição à Igreja Católica. O que está acontecendo aqui é um tempo de confusão, não tem sentido. A missa é Jesus vivo na eucaristia. Se tem alguém que pode nos livrar dessa pandemia é Jesus. A questão é que os políticos e os governantes não têm fé. Acham que religião é supérfluo. Se todo mundo se unisse e pedisse a Deus misericórdia, tenho certeza que ele ia curar as pessoas e nos livrar dessa pandemia."

Um outro visitante preferiu não se identificar. "É a primeira vez que venho. Sou a favor de continuar tudo aberto, por isso vim. Na verdade, sou evangélico. Não estou indo muito nem na minha igreja, mas quando vi sobre aqui, achei legal. Vai além do vírus, a igreja estar aberta para o cristão. Acho um absurdo o Kalil não deixar abrir as igrejas e o comércio."

Fiéis na paróquia São Sebastião, no Barro Preto, em Belo Horizonte, no domingo de Páscoa - Nina Rocha/UOL - Nina Rocha/UOL
Imagem: Nina Rocha/UOL

Por volta de 10h30, a Guarda Municipal chegou à avenida Augusto de Lima, onde a igreja fica localizada, e destacou a recomendação da prefeitura. Alguns fiéis apostavam na coragem do padre para desobedecer ao decreto, mas a expectativa não se concretizou.

Antes da cerimônia das 11h, um comunicado redigido pelo pároco foi lido. "As intervenções do sr. Ministro Nunes Marques do STF nos permitiriam a abertura das igrejas para missas presenciais conforme as restrições colocadas. Mas, neste momento de confusão, permaneceremos fechados até termos uma palavra clara e objetiva do nosso arcebispo, até mesmo para desviar o foco da mídia centrada apenas na nossa paróquia, o que não tem nenhum sentido. A preocupação é com a saúde e a vida, sem esquecer a vida espiritual dos nossos fiéis nunca foi posta em dúvida para quem nos conhece".

Quando a transmissão da missa se iniciou, muitos pegaram cadeiras de plástico e se sentaram no pátio da igreja, acompanhando a celebração pelo celular. Durante a exibição, o padre José Cândido fez questão de mostrar o interior da igreja vazia. "Estamos celebrando com alegria a Páscoa do Senhor. Tristes, pela falta dos fiéis. Alegres, porque apesar de tudo, Cristo ressuscitou e está entre nós, mesmo que estejamos fisicamente separados."

A comunhão foi ofertada a quem estava presente no pátio da Igreja, que após fazer suas preces, seguiu para celebrar a Páscoa em casa.