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'País terrivelmente evangélico' é projeto de poder ou preconceito da elite?

Fiel em culto na Conferência Nacional da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, em Brasília - Mateus Bonomi/Folhapress (18.12.19)
Fiel em culto na Conferência Nacional da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, em Brasília Imagem: Mateus Bonomi/Folhapress (18.12.19)

Daniel Lisboa

Colaboração para o TAB

07/03/2020 04h00

"É o momento de a igreja ocupar a nação", afirmou recentemente Damares Silva, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em entrevista à Deutsche Welle. Não foi a primeira vez que ela sugeriu algo do tipo, causando taquicardia e ranger de dentes nos que prezam pela laicidade do Estado brasileiro.

Mas desde quando a separação entre Igreja e Estado está sob ameaça no país? Os evangélicos realmente querem "tomar o poder"? Se sim, quais evangélicos exatamente seriam esses?

Um debate realizado na última terça-feira (3) na PUC-SP levantou essas e várias outras questões. Na mesa, assistida infelizmente por um público bem menor que o merecido, estavam o sociólogo Edin Sued Abumanssur, a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira e o psicanalista Gabriel Inticher Binkowski. Eles analisaram as possíveis respostas à pergunta "A evangelização do Brasil: um projeto político?".

O presidente Jair Bolsonaro é um evangélico tardio. Era católico até 2016, quando apareceu em um vídeo sendo devidamente mergulhado nas águas do Rio Jordão, em Israel, pelo Pastor Everaldo. Desde então, aproximou-se das igrejas pentecostais e neopentecostais e definiu-se como "cristão", até conquistar um sólido apoio.

Um artigo do José Eustáquio Diniz Alves, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional), mostra que o movimento foi fundamental para Bolsonaro. O acadêmico se baseou em uma pesquisa do Datafolha divulgada em 25 de outubro de 2018, ou seja, pouco antes do segundo turno das eleições (28), para estimar quantos votos cada candidato recebeu entre os adeptos de diferentes religiões.

Abraham Weintraub, ministro da Educação, participa do culto de Santa Ceia, no Congresso Nacional - Marcelo Camargo/Agência Brasil (19.2.2020) - Marcelo Camargo/Agência Brasil (19.2.2020)
Abraham Weintraub, ministro da Educação, participa do culto de Santa Ceia, no Congresso Nacional
Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil (19.2.2020)

Sua conclusão é a de que, enquanto os católicos ficaram quase divididos entre Bolsonaro e Fernando Haddad (PT), entre os evangélicos o presidente recebeu algo em torno de 11,6 milhões de votos a mais. Uma diferença maior até que a dos votos totais conquistados pelos candidatos, que acabou em 10,7 milhões.

Com 195 deputados, ou expressivos 38% do total, a atual bancada evangélica é solidamente governista. Sozinhos, esses números levam a crer que a resposta à pergunta posta pelo debate é quase óbvia. Mas, como tudo que envolve religião e política, a coisa não é assim tão simples.

Evangélicos são 'novo parceiro' em dinâmica antiga

"Às vezes fico me perguntando qual é a novidade desse negócio a que estamos assistindo hoje no Brasil. Onde está o novo, para além de termos um segmento mais histriônico dessa nova visibilidade cristã?", questionou Abumanssur ao abrir a participação.
"Tudo o que estamos vendo aqui de alguma maneira faz parte daquilo que sempre foi a relação política entre Estado e Igreja", disse o sociólogo. "Mesmo quando o Brasil se declarou um Estado laico, a Igreja (católica) nunca deixou de estar junto das instâncias de poder, dando as cartas em muitas das questões que hoje deixam a gente arrepiado quando vemos os mesmos problemas na boca dos evangélicos."

Abumanssur questionou o motivo pelo qual nos incomodamos tanto com algo que sempre esteve em disputa na formação do Brasil. Ponderou que a "atitude agressiva de conquista de novos espaços" por parte dos evangélicos pode ajudar a explicar, mas ainda não seria uma justificativa final, para o atual temor, por parte das elites intelectuais, de ameaça ao estado laico.

"Suspeito que a discussão sobre Estado laico agora é racista e preconceituosa, considerando, pelos dados de censo 2010, que o pentecostalismo é majoritariamente a religião mais negra, mais pobre e mais presente nas periferias da cidade", disse o sociólogo. "O Estado laico foi uma das maiores conquistas ocidentais e dependemos dele para o nosso modo de vida. Mas acho que a discussão está muito mal colocada. O Brasil nunca foi um Estado laico e acho que não tem condições de ser, pelo menos não na forma que nós, a elite, pensamos que deva ser."

Debate sobre gênero é fundamental

Para o psicanalista Gabriel Inticher, o que existe agora é "uma transformação no discurso da política". Para ele, ficou mais saliente, e ganhou relevo, a fomentação de "um discurso político que se utiliza de coisas advindas da religião".

O Brasil passa por um processo de evangelização desde que Pedro Álvares Cabral molhou o pé em águas baianas. Inticher, entranto, acredita que há aspectos diferentes a serem analisados agora. "Me parece que há algo muito mais presente em torno de refundar uma cultura nacional. É uma fantasia de domínio do outro, de uma unidade cultural nacional", disse. "Temos que nos precaver, porém, em pensar que há uma unidade do movimento evangélico. Não tem. São plurais as modalidades de dar sentido, por exemplo, a uma tradição religiosa, para aquilo que diz respeito ao carisma religioso e tudo mais."

Jacqueline Teixeira lembrou que "na tradição cristã ocidental, só se evangeliza quem tem estatuto de humanidade". Ou seja, só é considerado humano aquele que tem um gênero definido dentro da materialidade biológico. Ou você é homem ou você é mulher. "Quem não tem gênero, e de alguma maneira 'buga' o sistema binário, não encontra uma posição de reconhecimento dentro desse projeto político evangelizador."

Daí, analisou a antropóloga, vem "a necessidade desse projeto ou ação evangelizadora política precisar administrar o tempo todo o debate sobre gênero e sexualidade".

Vergonha da política em nome de Deus

Atual secretário executivo do Programa Mãe Paulistana, da Prefeitura de São Paulo, Carlos Bezerra Jr. já foi também deputado estadual e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo). Evangélico, tem opiniões claras sobre alguns dos pontos discutidos no evento na PUC.

"Sim, existe preconceito contra religião. Ele é ainda maior com evangélicos, e ainda mais com evangélicos pentecostais", diz Bezerra. "Enquanto esse país foi 'terrivelmente católico', não houve profundos debates."

Carlos Bezerra Jr., atual secretário executivo do Programa Mães Paulistanas - Divulgação - Divulgação
Carlos Bezerra Jr., atual secretário executivo do Programa Mães Paulistanas
Imagem: Divulgação

O secretário admite que os evangélicos são mais incisivos em suas posições e militância, mas, como Abumanssur e Jacqueline, lembra que suas igrejas são majoritariamente frequentadas por pobres, mulheres e negros. "E temos uma elite rica, branca e masculina que nunca percebeu isso, inclusive na imprensa, academia e partidos. Essa não pode ser mais uma relação conflituosa."

A respeito da questão levantada pelo debate, Bezerra Jr. acredita que não há um projeto de poder dos evangélicos. Ao menos não genericamente. "Grupos ou pessoas de maneira isolada têm sim projeto de poder. E acho que, nesse caso, não é possível tecer juízo de valor de maneira inespecífica. Qualquer grupo, partido, instituição ou pessoa pode ter um projeto para o País, com ou sem propósito de poder", diz.

"O que não podemos aceitar", pondera ele, "é a instrumentalização da fé, seja de qual grupo for, para manipulação, perseguição ou obtenção de benefícios a partir do Estado. Qualquer projeto motivado pela fé cristã deve ser socialmente transformador. Não me envergonho do Evangelho, mas tenho muita vergonha dos que 'falam em nome de Deus', instrumentalizando politicamente o Evangelho de acordo com seus interesses partidários".

"Bolsonaro que não se engane"

Ex-presidente da Associação Evangélica Brasileira, e um dos fundadores da Frente de Evangélicos Pelo Estado de Direito, o pastor Ariovaldo Ramos completa o raciocínio de Bezerra Jr. em alguns pontos. "Os evangélicos não são um bloco monolítico. O que existe são denominações evangélicas com projetos de poder", diz o pastor.

"São denominações que inclusive criaram ou adotaram um partido político. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo. Ou o PSC, Partido Social Cristão, que veio da Assembleia de Deus e, apesar de não ser formado apenas por evangélicos, tem uma linha de pensamento e reflexão que parte da base evangélica", analisa.

Pastor Ariovaldo Ramos - Divulgação - Divulgação
Pastor Ariovaldo Ramos
Imagem: Divulgação

Para ele, em alguns casos o "projeto de poder" significa apenas garantia de liberdade religiosa, não muito além disso. "Agora, em um PRB (Republicanos), por exemplo, existe um claro projeto de poder ligado a uma denominação específica."

Ramos é outro a lembrar que Estado laico ainda é uma novidade no Brasil. "E de fato só se torna uma discussão com a perda da hegemonia romana (católica). A discussão não estava na pauta antes que ela fosse ameaçada", diz o pastor. "A elite branca e os acadêmicos sempre conviveram pacificamente com o fato de que nada acontecia no Brasil sem o apoio da igreja de Roma."

Ramos vê com bons olhos a piscadela de Lula para os evangélicos, e acha que, em termos socioeconômicos, as demandas dos evangélicos estão mais próximas da esquerda do que da direita, mas acredita que "a esquerda não conseguiu dialogar com os evangélicos no passado por causa do materialismo dialético como método, em que a hipótese de Deus não era considerada".
Apesar de dispersos em várias denominações, sem liderança única e hierarquia definida, os evangélicos têm, na opinião de Ariovaldo Ramos, uma bandeira comum em torno da qual podem se juntar: a moral. "E aí o movimento que apoia Bolsonaro está sabendo usar isso muito bem. Conseguiu convencê-los, por meio de todas essas fake news da vida, que a oposição a ele era também oposição aos evangélicos", avalia o pastor.

"Isso já está cobrando um preço. Os evangélicos são cobrados por decisões para as quais sequer foram ouvidos. O presidente toma e diz que é por causa de Deus, de Cristo, da Bíblia. É um grande desfavor", diz o pastor. "E injusto, porque a maioria dos evangélicos não pensa assim. Não votaram no Bolsonaro para participar do governo, ou para que o governo fosse evangélico. Quem tem esse interesse são aqueles com projeto de poder. E, quanto a eles, o Bolsonaro que não se iluda: assim como ele tenta usá-los, eles estão fazendo a mesma coisa."