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Beque de 12 horas: como foi a live-celebração no dia das 'mãeconheiras'

Maíra Castanheiro, criadora da live das "mãeconheiras" - Cristina Sousa/Divulgação
Maíra Castanheiro, criadora da live das 'mãeconheiras' Imagem: Cristina Sousa/Divulgação

João de Mari

Colaboração para o TAB

11/05/2021 04h01

Munida de seda, um dichavador, piteira e isqueiro, a escritora e professora Maíra Castanheiro, mais conhecida como "mãeconheira" no Instagram, se ajeita em uma poltrona na sala da casa onde vive em Florianópolis, em um local bem iluminado. É 9 de maio de 2021, 9h da manhã, o dia das mães. Uma transmissão ao vivo com atividades ao longo de 12 horas acaba de começar e é dali que Maíra transmite uma programação ininterrupta de conversas, sessões de yoga, shows e até o preparo de um almoço canábico de domingo com mães maconheiras de todo o Brasil.

"Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas! Hoje é o dia especial com as mães trazendo suas histórias, realidades e habilidades", diz. Driele de Santos, da Renfa (Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas), entra na transmissão na sequência. "Vai explicando aí o que é o projeto enquanto vou fazer um bem bolado aqui para gente", diz Maíra, enquanto parte um tablete de maconha em pedacinhos.

Driele entra em cena com um dos punhos erguidos — isso porque, além dos baseados de todos os tamanhos que as mulheres fingiam "passar" de mão em mão na roda online, o evento é pura política. "A Renfa se compromete em incentivar solidariedade com os principais grupos e territórios vítimas das violações de direitos produzidas pela guerra às drogas", diz Driele. Durante o evento, um número de pix foi mantido na tela. Os fundos arrecadados serão destinados às mulheres em situação de rua de Salvador, cidade onde Driele vive.

A guerra às drogas parece ser um dos assuntos mais quentes entre as mães e os telespectadores que mandam mensagens de apoio nos comentários. "Não sou a favor das prisões por drogas! Plantas não são ilegais", diz um usuário (do Instagram), elencando seus motivos de apoio.

A morte de 29 pessoas durante o que o governo do Rio de Janeiro chamou de "operação policial na comunidade do Jacarezinho" também foi tema do bate-papo.

Para quebrar o tabu

Baiana de Lençóis, cidade da Chapada Diamantina, na Bahia, a jornalista e cozinheira Thais Castilho, 41, acredita que o governo atual é um dos motivos pelo qual as "mãeconheiras" se reuniram no evento. O objetivo de se afirmar como mãe e maconheira é "quebrar o tabu" sobre a erva, porque, na prática, não há diferença.

"Não existe diferença entre ser mãe e maconheira. Ninguém fala de mães cervejeiras, por exemplo. Sou uma mãe presente, ativa, participativa, criativa, brincalhona, amorosa. Mas nada disso tem a ver com maconha. Não é a maconha que me torna assim", diz.

Assim como outras mães, Thais deixou sua contribuição com a live canábica. Ela ensina uma receita que parece deliciosa: macarrão ao pesto canábico. O segredo, explica Thais, é o azeite com maconha.

"Experimentei maconha pela primeira vez aos 16, mas passei a fazer uso regular aos 20. Sempre gostei de criar, seja o que for, fumando um beque. Quando preciso me concentrar, tipo fazer contas, preencher planilha, prefiro não fumar, mas em toda e qualquer atividade de criação me ajuda muito", diz. A cozinha é uma delas.

Driele de Santos, da Renfa (Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas) - Divulgação - Divulgação
Driele de Santos, da Renfa (Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas)
Imagem: Divulgação

Para ela, o evento foi bem organizado com pautas inclusivas e com bastante conteúdo, inclusive para trabalhar com a filha de seis anos. Ela sugere que a cannabis pode ajudar na experiência da maternidade. "Eu diria pras mães que sejam as melhores mães que vocês podem. Que não se culpem, que não se cobrem, que somos feitas de erros e acertos. E que se maternar é padecer no paraíso, a maconha pode ajudar essa experiência a ser mais leve."

Maria Elvira, 40, moradora de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, explica que uma das formas que encontrou para "resistir", como ela mesma diz, foi com a maconha, além da arte. Sua relação com a planta não "vai nem para o lado do fanatismo, nem para o lado do escárnio".

Ela se apresentou embalando o chá das 16h20 (horário sagrado para os maconheiros) com timbres melódicos, sintetizadores e graves robustos característicos do dub. Mãe de um jovem de 21 anos e um adolescente de 15, ela avalia que cada vez mais está sendo desmistificado o uso da maconha e que "muitas pessoas têm entrado nessa linha de frente por questões de saúde".

"Além da nossa recreação, existem pessoas que precisam do óleo da cannabis, que possui substâncias que a ciência tem comprovado ser realmente eficazes no tratamento de algumas doenças", diz. "Em alguns momentos é melhor fumar maconha do que tomar rivotril, e acho que as pessoas têm que começar a enxergar que o álcool, por exemplo, é muito mais nocivo, está por trás de diversos crimes, inclusive feminicídio. Você vai num bar e pode encontrar a sua cerveja, a cachaça. Pior, né. Para os nossos filhos, a galera mais nova, encontra até o próprio corotinho."

Medicinal vs. recreativo

No últimos anos, diversos estudos científicos apontaram que substâncias extraídas da Cannabis sativa, como o canabidiol (CBD), podem ser usadas para fins medicinais, em terapias para pacientes com dores crônicas e outras enfermidades graves, como câncer, epilepsia e fibromialgia.

Apesar disso, profissionais e algumas entidades médicas, como o CFM (Conselho Federal de Medicina), acreditam que mais estudos clínicos e pesquisas de longo prazo são necessários para garantir a eficácia e a segurança do uso da cannabis no tratamento de doenças. No caso do CBD, a entidade recomendou apenas o uso "compassivo", ou seja, ele só deve ser receitado depois que todas as alternativas tradicionais já tenham sido testadas pelo paciente.

O plantio da cannabis é vetado no Brasil, mas a Lei de Drogas, de 2006, já previa a possibilidade de autorização do cultivo da planta para fins medicinais e científicos.Sua regulamentação, contudo, pouco avançou, até o início desta década. Em dezembro de 2019, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regulamentou a pesquisa, produção e venda de remédios no país por parte da indústria farmacêutica — embora a planta tenha de ser importada.

O consumo recreacional da maconha no país segue em disputa. É crime portar, guardar ou adquirir drogas ilícitas, embora as penas para o consumo sejam disciplinares, não penais. O problema apontado por juristas e críticos à Lei de Drogas é que não há definição clara que faça a distinção entre consumidores e traficantes a partir da quantidade de droga apreendida.

Maconha dentro de casa

Maíra está falando de consumo de maconha há três décadas — segundo ela própria.

Aos 37 anos, carioca e moradora de Florianópolis desde 2018, Maíra é professora e filha de "poetas marginais", como ela mesmo diz, "poetas e ativistas da maconha".
Desde que passou a fumar maconha diariamente, aos 22 anos, a relação com a erva foi "muito sincera". A maconha realmente ajuda Maíra a se sentir "mais presente, concentrada, principalmente para atividades intelectuais". "Não é uma fase, tanto que estou nela até hoje."

Embora já tivesse crescido com um debate sobre drogas dentro de casa, Maíra conta às "mãeconheiras" que há diferenças, na visão dela, entre uma mãe que usa maconha de uma que não utiliza a planta.

"Se eu estivesse bebendo uma cerveja, tomando um vinho, fumando um cigarro, esse debate não teria acontecido porque são drogas lícitas e aceitas socialmente. Mas o fato de ser 'mãeconheira' tem essa implicancia social, essa discriminação, até porque mãe é vista muito como sagrada e aí uma mãe que se afirma quebra muito tabu mesmo", diz Maíra.

A pequena Maria Alice, de 8 anos, sabe que a mãe utiliza maconha e também LSD, uma das mais potentes substâncias alucinógenas. "Minha família toda sabe que eu faço uso dessas substâncias e, como todos veem que eu levo minha vida, que sou uma pessoa saudável, que eu trabalho, estudo, cuido de mim. Eles me respeitam muito", conta.

Em 2019, o pai da filha de Maíra conseguiu a guarda provisória da filha e anexou no processo cópias de textos em que ela falava sobre o uso de drogas. "Naquele ano, eu excluí o Diário de uma Mãeconheira do Facebook, porque eu precisava de um emprego." Hoje, em 2021, Maíra conseguiu, por financiamento coletivo, lançar o livro "Diário de uma Mãeconheira", coletânea com os textos da autora — inclusive os utilizados no processo contra ela — do período de 2015 a 2020.

Maria Elvira diz que nem todo mundo de sua família sabe que ela usa maconha regularmente. "Não é uma coisa que preciso alardear. Sou um ser humano e tenho meus direitos, minhas reservas e minhas opiniões. Talvez agora venham a saber", diz.

A cantora costuma dar um "pé no freio", como ela mesma diz, nos dias que se sente mal com a erva. Segundo ela, não é toda viagem que dá boa onda.
Em casa, segundo ela fez questão de dizer, o assunto drogas é tratado abertamente com os filhos de 15 e 21 anos. "Nenhum dos dois faz uso da maconha, por escolha. O mais novo a gente aconselha que não faça. Ele é bem consciente de tudo", conta.

Imagem da live das 'mãeconheiras' - Reprodução - Reprodução
Imagem da live das 'mãeconheiras', que aconteceu durante o dia das mães (9)
Imagem: Reprodução

Ao final do dia, visivelmente cansada, após 12 horas praticamente ininterruptas falando de maconha e compartilhando experiências com mães de todo o Brasil, Maíra anuncia que a programação especial vai acabar. "Vamos fazer uma redução de danos, comer uma fruta?", diz, enquanto prende a fumaça do cigarro, "beber uma água", completa, à medida que solta aos poucos a fumaça que preenche a tela do celular. "Maternidades plurais, esse evento foi foda. Muito obrigada."

Quando se encerra a transmissão, às 21h, tento lembrar quantos baseados ela fumou. Acho que sete. Ou seis? Perdi a conta.