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Rosalía e Lil Nas X: Existe apropriação cultural na música globalizada?

Rosalía se apresenta no Grammy 2020 - CBS Photo Archive/CBS via Getty Images
Rosalía se apresenta no Grammy 2020 Imagem: CBS Photo Archive/CBS via Getty Images

Do TAB

23/05/2021 04h01

Uma cantora nascida em Barcelona fazendo música com raízes flamencas. Um rapper negro, gay e jovem na parada country da Billboard. Os casos de Rosalía e Lil Nas X deram o que falar por criarem confusão entre o estilo da música e quem estava cantando.

Rosalía, que não tem raízes andaluzes nem é descendente de ciganos, foi acusada de apropriação cultural. Quando lançou "Old Town Road", Lil Nas X não tinha embalagem country suficiente para figurar em uma lista desse estilo musical. Mas faz sentido discutir isso hoje, momento em que a música é tão globalizada e o mix entre estilos torna cada vez mais difícil distinguir uns dos outros?

Nesta semana, TAB distribui um episódio de CAOScast que trata exatamente desse remix musical, que extrapola o som e se traduz até mesmo no comportamento dos fãs. "Essa coisa de a gente ficar eclético (...) é na verdade um efeito colateral desse music remix. Porque música, no passado, era muito relacionada a identidade, né? Você entendia quem você era, o que você ouvia e te situava numa tribo. Se a gente pensar o que foi o Rock in Rio lá na década de 1980, você ia para ouvir rock, tinha que se vestir como um roqueiro", explica a líder de pesquisa da Consumoteca, Marina Roale (ouça a partir de 4:14).

Com a varrida do pop, influenciando e homogeneizando toda a música de certa forma, as fronteiras estão borradas. Para o antropólogo Michel Alcoforado, não faz sentido pensar em apropriação cultural em um universo de tantas trocas.

"Apropriação cultural é esse jogo que a gente tem visto onde várias minorias começam a reivindicar a posse ou direito sobre alguma coisa. Em alguns casos faz todo o sentido (...). Agora, o problema é que as pessoas estão usando o termo da apropriação cultural onde ninguém mais sabe a origem. Apropriações culturais fazem parte de qualquer encontro entre culturas, sobretudo num mundo globalizado", opina ele (a partir de 9:10). "Num caso como esse, da música flamenca, eu diria que é de todos. Da mesma forma que o samba é de todos, o tango é de todos, o turbante também é de todos — para causar uma polemiquinha aqui", completa ele sobre Rosalía (a partir de 10:24).

Rebeca de Moraes, pesquisadora e também integrante da trupe do CAOScast, lembra que a brasileiríssima "Alegria, Alegria" vem exatamente de uma mistura cultural. "Entra no que a gente chama de tropicalização, e a gente fala disso direto. Eu adoro lembrar isso nas palestras, que Gilberto Gil foi lá nos final dos anos 1960 ouvir Beatles e falou: 'o que que é isso, esse 'Sargent Peppers', essa loucura, esses soldadinhos? Parece uma coisa de folclore irlandês, tinha um pouco de música indiana, tinha umas referências de música de igreja. Falou: q'ue loucura esses caras fazem, e tem uma guitarra elétrica interessante, pera aí que a gente também pode fazer isso aqui'", lembra ela (a partir de 10:48).

No fim das contas, Rosalía continua fazendo sucesso e Lil Nas X voltou à parada country com a versão de "Old Town Road" regravada com o ícone do chapéu, calça jeans e camisa xadrez, Billy Ray Cyrus.

Quer saber mais sobre como o pop, os feats e o streaming vêm mudando a forma de produzir e escutar música? Não perca o episódio completo de CAOScast no player acima.