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Em Paraty (RJ), jovens mestres cirandeiros lutam para manter as tradições

Fernando e Marcello Alcantara, músicos do Grupo de Cirandeiros de Paraty (RJ) - Bruno Keusen/Divulgação
Fernando e Marcello Alcantara, músicos do Grupo de Cirandeiros de Paraty (RJ)
Imagem: Bruno Keusen/Divulgação

Mateus Campos

Colaboração para o TAB, de Paraty (RJ)

21/06/2021 04h01

Em Paraty (RJ), a covid-19 também ameaça o caranguejo — não o crustáceo que vive nos mangues da cidade, mas a tradicional ciranda caiçara que leva o seu nome.

A coreografia exige constante troca entre os pares. É, por isso, pouco indicada para esses tempos de isolamento social.

A imensa maioria dos cirandeiros de Paraty já tem cabelos brancos e está prestes a se aposentar. A pandemia obrigou os idosos a se resguardar, e levou os mais jovens a se desdobrar para garantir a manutenção dos ritmos que embalam os eventos sagrados e profanos do território paratiense.

Marcello Alcantara, 39, e Fernando Alcantara, 24, respondiam por dois terços do conjunto que garantiu a trilha sonora da procissão de descida do mastro da Festa do Divino Espírito Santo, em 6 de junho. Vestidos de vermelho-carmim, a cor oficial da festa, os dois escoltavam o contramestre Gerson Vieira, 46, e o ajudaram a conduzir o cortejo de cerca de 80 pessoas por mais de uma hora pelas famosas ruas de pedra do Centro Histórico.

Munido de viola, adufe (instrumento da família dos pandeiros) e caixa, o trio cantava os versos da Folia com vontade. "O Divino Espírito Santo abençoe nossa gente/ Atrás de melhores dias/ A bandeira segue em frente."

Marcello Alcantara, Gerson Vieira, o contramestre, e Fernando Alcantara, durante a festa do Divino Espírito Santo de Paraty (RJ) - Bruno Keusen/Divulgação - Bruno Keusen/Divulgação
Marcello Alcantara, Gerson Vieira, o contramestre, e Fernando Alcantara, durante a festa do Divino Espírito Santo de Paraty (RJ)
Imagem: Bruno Keusen/Divulgação

A procissão se desenrolou em formato reduzido. Quando a caminhada chegou ao fim e os fiéis já entravam na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, os músicos foram abordados pelo mestre Verino de Barros, 78, que havia acompanhado tudo à distância.

De muletas por causa da severa artrite nas pernas, o mestre cirandeiro fez breves comentários sobre o som emitido pela caixa tocada por Fernando. O jovem ouviu o ensino com atenção. Mestre Verino, homem grisalho de olhos azuis e pele queimada de sol, garantiu que no ano que vem irá tocar. Dias depois, sentado à porta de sua casa, ponderou que a doença provavelmente não permitirá que ele cumpra a promessa.

"Faz um ano que não toco. Inclusive perdi minha segunda voz, o Dito da Laranja. Nos últimos anos, 'vieram buscar' seis cirandeiros que tocaram conosco", diz ele, lamentando a morte dos companheiros. "Fernando e Marcello aprenderam muito comigo, são meus amigos", prossegue. "Sempre falo que eles têm que continuar, não podem desanimar e precisam arrumar mais gente para tocar."

Desde o início da pandemia, o número de apresentações dos cirandeiros em bailes e festas foi praticamente reduzido a zero. Sem os já diminutos cachês, alguns mestres precisaram recorrer à Lei Aldir Blanc para garantir o mínimo de dignidade.

João Paciência, mestre cirandeiro de Paraty (RJ) morto de covid-1i, no traço de Elison Fernandes - Elison Fernandes/Divulgação - Elison Fernandes/Divulgação
João Paciência, mestre cirandeiro de Paraty (RJ) que faleceu em março de 2021, no traço de Elison Fernandes
Imagem: Elison Fernandes/Divulgação

Dança dos antigos

O caranguejo é apenas uma das muitas danças paratienses conhecidas genericamente pelo nome de ciranda. Cana-verde, canoa, arara e marrafa são outras. Transmitidas de geração a geração, todas elas estão igualmente em risco.

"Quando você procura 'música caiçara' no YouTube, o primeiro resultado é um disco do Chorão", diz Fernando, referindo-se a "Música Popular Caiçara" (2012), álbum da banda Charlie Brown Jr. "Deixa eu disputar o segundo lugar, pelo menos."

A partida de nomes como Dito da Canoa, João Paciência e Julinho - guardiões de acordes e versos centenários - colocou a comunidade em alerta. Antes mesmo da chegada da covid-19, as mortes de Dito da Laranja, Bento Cananéa e Amélio Vaz já haviam sido muito sentidas.

Dito da Laranja, parceiro de Mestre Verino, no traço de Elison Fernandes - Elison Fernandes/Divulgação - Elison Fernandes/Divulgação
Dito da Laranja, parceiro de Mestre Verino, no traço de Elison Fernandes
Imagem: Elison Fernandes/Divulgação
Dito da Canoa, mestre cirandeiro de Paraty (RJ), no traço de Elison Fernandes - Elison Fernandes / Divulgação - Elison Fernandes / Divulgação
Dito da Canoa, mestre cirandeiro de Paraty (RJ), no traço de Elison Fernandes
Imagem: Elison Fernandes / Divulgação

Fernando e Marcello são criadores do Grupo Cirandeiro de Paraty, fundado em 2014 após décadas de hiato sem novos conjuntos tradicionais. Os dois, únicos integrantes fixos do grupo, despontam como as principais apostas para a sobrevivência da música caiçara em Paraty.

"Pelo menos esses mestres morreram com a certeza que a gente está continuando o que eles faziam, né?", diz Fernando. "Muitos dos 'coroas' que faleceram antes foram embora achando que a Ciranda estava acabando em Paraty porque não viam os jovens envolvidos."

Apesar de levarem o mesmo sobrenome e de terem sido vizinhos durante muitos anos, os rapazes não são parentes. Até mesmo nas maneiras, os dois parecem se complementar como a primeira e a segunda voz de um bom grupo de ciranda. Introspectivo, Marcello fala apenas o necessário. Sério e um pouco tímido, o violeiro é uma espécie de antípoda de Fernando, expansivo e conversador.

Surfista e professor de skate, Marcello é neto de um mestre cirandeiro. Seu avô Zezinho era um ás na viola de dez cordas. Antes de morrer, já sem forças para empunhar o instrumento, pedia ao neto para tocar suas melodias preferidas. Embora tenha habitado esse universo desde a infância, demorou a se assumir como cirandeiro. Pai de dois filhos, o músico estuda flauta doce nas horas vagas e é fã de reggae. Ele conta que foi a partir dos 18 anos que passou a se dedicar com mais afinco ao folclore.

O interesse de Fernando nas tradições começou cedo. Desde criança, participava de grupos de folclore por iniciativa própria. Também era aficionado pelos festejos religiosos e costumava improvisar procissões em brincadeiras com os amigos. Aos 15 anos, comprou seu primeiro adufe e passou a procurar os mestres. Fernando hoje trabalha como recepcionista no Sesc Paraty e é descrito como pesquisador dedicado e músico disciplinado.

Marcello Alcantara, violeiro de ciranda em Paraty (RJ) - Bruno Keusen/Divulgação - Bruno Keusen/Divulgação
Imagem: Bruno Keusen/Divulgação
Fernando Alcantara toca adufe no grupo de cirandeiros  - Bruno Keusen/Divulgação - Bruno Keusen/Divulgação
Imagem: Bruno Keusen/Divulgação

Unidos pelo interesse em comum, Marcello e Fernando visitaram todos os mestres que podiam nos últimos anos, além de participarem de diferentes encontros de folclore organizados pelo país. Dos anciões, receberam valiosas lições. Alguns desses encontros foram registrados em vídeo e podem ser vistos nos canais da dupla no Youtube.

O projeto Ciranda Nas Escolas, parceria entre a Casa da Cultura de Paraty e a secretaria de Cultura local, viabilizou visitas da dupla a instituições de ensino das zonas urbanas e rurais da cidade. De 2016 a 2018, com métodos lúdicos, ensinaram aos alunos a dançar e cantar ciranda. A abordagem informal ajudou a aproximar os pequenos, que normalmente costumam ver essa tradição como algo ultrapassado.

Herança portuguesa

Historiadores não conseguem precisar o surgimento exato da ciranda na região de Paraty, mas especulam que a sua semente tenha chegado junto aos portugueses já no século 16. Acredita-se que, ao longo dos anos, os elementos das danças tradicionais europeias foram mesclados às tradições indígenas. Tradicionalmente, as cirandas eram festejos realizados para celebrar boas colheitas e pescarias ou para celebrar o dia de algum santo.

Os bailes — na época chamados de xibas — eram organizados nas comunidades agrárias e há registros de perseguição das autoridades já no século 17. As festas só se popularizaram na cidade em meados do século 20, com o processo de êxodo rural.

Apesar do nome, a ciranda paratiense pouco tem a ver com a dança de roda praticada em alguns estados do Nordeste. Os folguedos da cidade da Costa Verde encontram eco apenas nos fandangos praticados nos litorais paulista e catarinense. O que diferencia a música tradicional de Paraty são, principalmente, a velocidade no andamento das músicas e a alegria no canto.

Foi justamente ao entrar em contato com mestres da vizinha Ubatuba (SP) que Fernando e Marcello conseguiram resgatar um instrumento que por décadas havia sido abandonado em Paraty: a rabeca caiçara. O "violino dos pobres" havia virado item de museu desde que o último artesão capaz de produzi-lo morreu.

A dupla Fernando e Marcello Alcantara, músicos do Grupo Cirandeiro de Paraty, que tocam 'caranguejo' - Bruno Keusen/Divulgação - Bruno Keusen/Divulgação
Imagem: Bruno Keusen/Divulgação

Com ajuda dos músicos paulistas e de um livro, que registrou em 1982 com desenhos técnicos o modo de fazer deste instrumento em Paraty, a dupla aprendeu a manusear e fabricar novas rabecas em caxeta.

Marcello conversa com a reportagem na casa onde mora, a mesma em que o avô viveu seus últimos anos. Com um cigarro na mão e uma xícara de café na outra para se aquecer, mostrou o pequeno galpão no quintal onde trabalha com a caixeta. Quando fala sobre a arte de transformar madeira em música, costuma comparar o processo ao da produção de canoas, outra especialidade caiçara.

Em maio, o grupo fundado pela dupla recebeu uma moção de aplausos da Câmara de Vereadores por preservar as tradições da ciranda. Mas há quem critique os rapazes. Para um cirandeiro que não quis se identificar, o Grupo Cirandeiro de Paraty quer monopolizar o ritmo na cidade desde o nome.

Os dois não ligam muito para as críticas. Ao contrário de seus antecessores, que nasceram em uma Paraty praticamente isolada do mundo, Marcello e Fernando agem como cirandeiros do século 21.

Contam com as redes sociais para a divulgação dos seus trabalhos e também procuram novas maneiras de sustentar a sua arte. "Hoje em dia, o cirandeiro sabe ler, sabe escrever, sabe procurar o Diário Oficial e se inscrever em edital", afirma Fernando.

Apesar dos aplausos dos vereadores, ambos se queixam da falta de apoio do poder público na hora de passar o chapéu. Reclamam sobretudo do descaso com o projeto de festival que eles tentam tirar do papel. A dupla também pede a criação do Dia da Ciranda em Paraty, para que o tema entre de vez no currículo das escolas locais.

É difícil dizer se daqui a um século a ciranda vai continuar a animar os bailes caiçaras, mas em alguns, a vontade é de seguir lutando.