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'Qual crime eu cometi?' Jovem preso no Ceará tenta provar inocência no Rio

Lucas Vinicius da Silva Farias, em sua casa em Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro - Zô Guimaraes/UOL
Lucas Vinicius da Silva Farias, em sua casa em Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro
Imagem: Zô Guimaraes/UOL

Daniele Dutra

Colaboração para o TAB, do Rio

14/09/2021 17h35

São 6h40. Enquanto sua mãe está a caminho do trabalho, Lucas Vinicius da Silva Farias, 21, está de pé para arrumar os dois irmãos mais novos. Mesmo que a escola fique a 300 metros de sua casa, ele faz questão de levá-los por causa dos traficantes, parados ao lado de seu prédio, na comunidade Conjuntão em Padre Miguel, em Bangu, na zona oeste do Rio.

Na rua Arari, barricadas impedem o trânsito. Nos muros, grafites homenageiam traficantes mortos. Dois homens parados vigiam a esquina, um com um rádio comunicador, outro com uma pistola prateada na mão. Marcella Leite, 45, já viu a família ser atingida por uma tragédia, mas sempre quis manter os 11 filhos longe da criminalidade e agora transfere a Lucas o cuidado com os mais novos quando ela está fora.

Desempregado, Lucas cuida dos afazeres domésticos. O cardápio para o almoço daquela segunda-feira tinha arroz, feijão e carne seca com abóbora cozida. Enquanto o feijão cozinhava, ele buscou o irmão mais novo na escola. A irmã adolescente limpava o banheiro e vigiava a panela. Durante o caminho de volta, perguntou ao menino o que ele havia aprendido na aula. Os dois traficantes não pareciam intimidar os Silva, mas preocupavam Lucas. "Antes, eles costumavam ficar na rua de trás, mas, como estão na nossa porta, não posso deixar as crianças irem sozinhas para a escola. Vai que acontece alguma coisa?", diz.

A casa de cinco cômodos, com no máximo 55 m², abriga oito pessoas. Além dele vivem ali três irmãs, três irmãos mais novos e a mãe, auxiliar de serviços gerais e a única que trabalha atualmente. Lucas é o quarto de 11 irmãos e herdou o posto de homem mais velho, após um assassinato. O primogênito de Marcella Leite, que hoje teria 30 anos, foi morto ao ser esfaqueado pelo padrasto, pai de Lucas, após tentar defender a mãe de agressões. Com 12 anos na época, Lucas presenciou a cena e, desde então, preferiu não estreitar laços com o pai. O autor da facada ficou preso por 11 meses pela morte do enteado e, até 2021, era a única pessoa da família com passagem pela polícia.

Lucas começou a trabalhar aos 15 anos. Deixou por terminar o segundo ano do ensino médio e igualou a formação da mãe — apenas as duas irmãs mais velhas completaram o ensino médio, assim como o pai. O último emprego de Lucas o levou para longe, a mais de 2,5 mil km de casa. No Ceará, a promessa era virar supervisor de uma empresa que se expandia. Lá, foi acusado de ser o chefe de uma organização criminosa.

Lucas de Bangu

Em outubro de 2020, Lucas arrumou um emprego de consultor financeiro, no centro do Rio. Quando a empresa expandiu para o Ceará, ele foi convidado para supervisionar a nova sede e ganhar 25% a mais. O salário passaria para R$ 1.750,25, mais bonificações. Sem pensar duas vezes, aceitou a proposta.

Em março, ele se mudou do Rio para Fortaleza. Quase três meses depois, em 11 de junho, a Polícia Civil do Ceará prendeu Lucas e seis colegas - um deles tinha começado a trabalhar fazia apenas quatro dias. Todos foram acusados de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. De um dia para o outro, os escritórios da empresa financeira no Ceará e no Rio foram fechados e os donos sumiram.

Antes de ganharem liberdade provisória, Lucas e os colegas passaram mais de um mês na prisão. A Defensoria Pública indicou diversas ilegalidades na prisão, como a conversão da prisão em flagrante em preventiva sem manifestação do Ministério Público ou da defesa antes da decisão do juiz.

O caso ganhou atenção após Marcella compartilhar a história na internet, pedindo ajuda e informações sobre a prisão do filho. A hashtag #JusticaPorLucasdeBangu chegou aos trending topics do Twitter. "Aqui vai o apelo de uma mãe desesperada (...) Meu filho é negro, gay, morador de comunidade e aceitou essa proposta de emprego na intenção de ajudar nossa família, que acabou sendo enganada por essas pessoas", postou Marcella.

Lucas Vinicius da Silva Farias, em sua casa em Bangu, no Rio de Janeiro - Zo Guimaraes/UOL - Zo Guimaraes/UOL
'Nada que eu diga chega aos pés do que realmente é estar em uma prisão', diz Lucas
Imagem: Zo Guimaraes/UOL

Preso por 36 dias

No Rio, a função de Lucas era oferecer uma espécie de investimento para pessoas com limite de cheque especial disponível no banco. A maioria eram servidores públicos, pensionistas e aposentados. O acordo era que os clientes transferissem esses valores para a empresa, que arcava com a dívida e pagava no ato 10% do montante. Em Fortaleza, a operação era a mesma.

A empresa simulava um contrato, dizendo que iria se responsabilizar por todas as parcelas futuras do empréstimo. Mas, segundo as investigações, os contratantes eram ludibriados para aceitar a oferta. Os funcionários chegavam a acompanhar a vítima até uma agência bancária para ter certeza de que ela faria o empréstimo. Depois de tudo, a vítima descobria que as parcelas jamais seriam pagas e, pelo contrário, seriam descontadas da folha de pagamento até que a dívida fosse quitada.

TAB teve acesso às 18 páginas da denúncia do Ministério Público do Ceará. Ao todo, a promotoria contabiliza 16 vítimas, todas idosas, que procuraram a Polícia Civil dizendo ter caído em um golpe. Segundo o documento, seis delas cancelaram os empréstimos a tempo. Outras dez ficaram com dívidas. Um deles, que acionou a polícia, teve que assumir um prejuízo de R$ 27 mil. Os valores eram depositados na conta pessoal de Mario Luiz Pereira, responsável legal da empresa junto com Italo Bruno Durão.

Nos cinco meses em que trabalhou na sede do Rio, Lucas não ouviu reclamações ou relatos de que as dívidas não estavam sendo pagas. No Ceará, diz ele, nem deu tempo de ter algum problema, já que bancos demoram três meses para realizar cobranças. "Me senti bobo, lesado, enganado por essa empresa. É uma sensação que não desejo para ninguém", relata.

A Polícia Civil informa que o grupo movimentou cerca de R$ 12 milhões no Ceará. Já o MP menciona em sua denúncia oferecida "um alto valor monetário". Mario Luiz Pereira e Italo Bruno Durão não foram localizados pela polícia quando Lucas e seus colegas foram presos. O advogado deles e das empresas, Hidelbrando Ferreira, rebate as acusações. "Não existem esses R$ 12 milhões, tanto que todos os pedidos de prisão foram revogados em razão de que não havia elementos que comprovassem crime", diz.

O defensor diz que "as empresas foram fechadas por causa das interpretações antagônicas": "Na eminência de causar prejuízo, eles [os proprietários] preferiram fechar e quitar tudo o que estava em aberto com todos os clientes".

Lucas passou 36 dias detido no Centro de Triagem e Observação Criminológica, na capital cearense. Nos primeiros dias, não dormiu direito. Na cela, conta, um dos homens deitado a seu lado dizia que havia estuprado um menino de 15 anos. Outro contava que já tinha 16 passagens pela prisão. "Ouvia aquilo tudo e me perguntava o que eu tinha feito para estar ali. Questionava isso pra Deus e por muitas vezes cheguei a acreditar que estava sendo castigado por algo que eu tinha feito no passado, mas não sabia o que era."

A defesa do Lucas conseguiu a transferência do caso para o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, mas o nome do rapaz ainda não entrou no sistema. Ainda sem data para a audiência, o advogado do jovem está elaborando a defesa e juntando documentos da empresa em que ele trabalhava para apresentar nos autos do processo. Quando todos os réus apresentarem suas respectivas defesas e as diligências forem concluídas, será marcada a audiência de instrução e julgamento.

Lucas Vinicius da Silva Farias, em sua casa em Bangu, no Rio de Janeiro - Zo Guimaraes/UOL - Zo Guimaraes/UOL
De volta à casa da mãe, o jovem está procurando emprego e pretende voltar a estudar
Imagem: Zo Guimaraes/UOL

De volta ao Rio

De volta ao Rio, ele tenta retomar a rotina. Abre o e-mail ao menos 10 vezes por dia para checar se algum empregador se interessou por seu currículo. Na segunda-feira em que recebeu o TAB, Lucas estava na expectativa para trabalhar como frentista em um posto de gasolina.

Naquela tarde, Lucas e as crianças ainda brincavam de detetive (o jogo de papéis e piscadelas em que se busca descobrir quem é o assassino). Com R$ 6, compraram pão francês e um saquinho de suco instantâneo. Pegaram emprestado um pote de margarina da casa da irmã. Estava pronto o lanche das nove pessoas na casa. No final do dia, a sala acomodava 14 pessoas, entre irmãos, sobrinhos e amigos.

Marcella teve a vida virada do avesso, mas se sentiu amparada. O mais difícil, entretanto, foi explicar aos menores o que estava acontecendo. Agora, faz planos para o futuro do filho. "Quero muito que ele volte a estudar. Quero não, ele vai voltar, isso é indiscutível." Em 2020, Lucas fazia supletivo e um curso de estética, área em que sonha se especializar. Hoje, diz ele, a prioridade é encontrar um emprego. Para 2022, uma sala de aula.