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Márcio França reúne jovens e frente ampla em 1º reality show de política

Coronel Telhada (PP), Márcio França (PSB) e Arthur do Val (Patriota) nas gravações de "O Político" - Júlio César Costa/UOL
Coronel Telhada (PP), Márcio França (PSB) e Arthur do Val (Patriota) nas gravações de "O Político"
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Matheus Pichonelli

Colaboração para o TAB, de São Paulo

10/11/2021 04h00

Doze pessoas com idades entre 20 e 41 anos se reuniram em um teatro em São Paulo na segunda-feira (8) para gravar o primeiro episódio do reality show "O Político", apresentado pelo ex-governador de São Paulo Márcio França (PSB).

Isolados em um hotel, eles foram selecionados a partir de uma lista inicial de 10 mil inscritos. Os escolhidos (seis homens e seis mulheres) ganharam uma bolsa para cursar tecnologia em Gestão Pública da Faculdade Miguel Arraes. O vencedor ou vencedora vai ganhar uma viagem (a princípio, de ida e volta) para Brasília, onde poderá conhecer os gabinetes do Congresso, do Supremo e do Executivo — isso se o presidente não encrencar.

Apontado como um dos responsáveis por articular um (até ontem) improvável acordo que pode colocar Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin no mesmo palanque em 2022, França se viu diante de uma dividida logo no primeiro dia de gravações.

Sentado em uma poltrona de couro preta em frente ao palco do Comedy Sampa, ele acompanhava com as mãos no queixo um princípio de desacordo entre os deputados estaduais Arthur do Val (Patriota) e Coronel Telhada (PP). Primeiros jurados do programa, eles não conseguiam chegar a um acordo sobre um dos dois participantes que precisavam eliminar após um debate sobre serviço militar obrigatório. (Havia consenso apenas sobre o destino de uma debatedora).

Márcio França (PSB) e os candidatos do reality "O Político" - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Márcio França (PSB) e os candidatos do reality "O Político"
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Telhada achava que uma das aspirantes deveria sair por falar baixo demais e demonstrar insegurança. Mamãe Falei discordava. Via na jovem de camiseta rosa e fala informal um trunfo por ter citado o termo "patriarcado" no púlpito que simulava um debate entre candidatos na TV.

O integrante do MBL (Movimento Brasil Livre) dizia não concordar com o que ela falava, mas via na expressão um "apito de cachorro" que seria ouvido pela "galera mais militante". Por isso achava que ela deveria permanecer no programa. Telhada não arredou pé.

Paredão político

Coube a Márcio França dar o voto de Minerva. Para não eliminar duas mulheres no mesmo dia, escolheu para sair do reality um participante que havia se atrapalhado com datas e fatos históricos em sua exposição.

Com 2 votos a 1, o apresentador chamou os integrantes do grupo "Diversidade" e deu o veredito. Dos seis candidatos no "paredão", apenas quatro seguiriam no programa: o motoboy e morador de São Paulo Júnior Freitas, a auditora Loraine Mariano, de Osasco, a advogada Bruna Donini, da Praia Grande, e o programador paulistano Ronald Scapin.

Os dois eliminados — Fabiano Borges, 41, investigador de polícia de Atibaia, e Eliane Monteiro, 36, administradora hospitalar de Santo André — ficariam a partir dali em uma repescagem. Um deles poderá voltar no último debate, que reunirá na sexta-feira (12) três finalistas. Sentados nas cadeiras do teatro, outros seis participantes assistiam ao desfecho do episódio sem piscar.

Integrantes da equipe "Impactante", Roberto Sant'Ana, produtor de eventos de São Vicente, Thays Chesini, estagiária da Prefeitura de Mairinque, Lara Barbosa, estudante de Gestão Pública de Campinas, Victor Alves, professor em Limeira, Heber Farias, psicólogo de Osasco, e Danielle Rabelo, servidora pública de São Vicente, haviam vencido, horas antes, um debate sobre a cracolândia. Como prêmio, ganharam o direito de acompanhar o destino dos adversários em uma espécie de "mezanino".

No dia seguinte, a maratona de debates seria reiniciada. O tema dessa vez seria "Cannabis Liberada? Só medicinal ou para quem quiser usar?", e teria como jurados o deputado estadual Caio França (PSB-SP) e o influencer Carlos Alberto da Cunha, encrencado delegado de polícia, recentemente afastado das ruas.

Márcio França (PSB) na gravação do reality "O Político" - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Márcio França (PSB) na gravação do reality "O Político"
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Apelo emocional

Fã de realities, França afirma que este é o primeiro programa do tipo voltado para lideranças políticas. Nos bastidores, é possível notar alguns elementos presentes em atrações similares na TV: o nervosismo, as lágrimas de alívio, a formação de grupos de afinidades e um princípio de solidariedade, com participantes entrando de mãos dadas, ajudando a arrumar o cabelo e o figurino do concorrente. Um deles se benzia nos bastidores. Outra, para disfarçar a tensão, cantava a música tema de Rocky Balboa.

No "paredão", eles ouviram dicas dos convidados. Do Val disse que, num debate do tipo, era preciso concentração para não deixar o nervosismo tomar conta, recomendando construir uma lista de argumentos, quando houvesse, e apelar sempre que possível para o aspecto emocional. "O ser humano, por mais que tente ser racional, toma decisões com base nas emoções", filosofou.

Já Telhada, ex-integrante da Rota, lembrou que política é o exercício do convencimento. "A grande massa gosta de opinião com posição firme", sentenciou. "Mas também não adianta tentar convencer o público do que vocês não estão convencidos", ponderou França.

Uma participante captou a deixa e ganhou os jurados ao dizer que teria orgulho se sua filha dissesse que gostaria de se alistar nas Forças Armadas e servir a pátria. Outros ganharam pontos por demonstrar autenticidade ou apresentar números, mesmo que imprecisos.

Os bastidores do reality show político de Márcio França (PSB)  - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Os bastidores do reality show político de Márcio França (PSB)
Imagem: Júlio César Costa/UOL

De olho nos votos

Como num reality convencional, os "eliminados" do dia não esconderam a decepção. Respiraram fundo e pareciam ter o olhar perdido enquanto ouviam palavras de conforto dos jurados. Política, lembrou Telhada, é também administrar derrotas.

"Foi uma tristeza muito grande", admitiu Fabiano Borges ao TAB. "Tenho expectativa de seguir uma carreira política. Saio com a certeza de que tentei mostrar meu melhor. Ainda estou aprendendo."

Por ironia, a proposta de montar o reality também surgiu após uma eliminação. Foi quando Márcio França ficou de fora do segundo turno das eleições para prefeito de São Paulo. A princípio, a ideia era montar um reality que cobrasse as posições de quem ganhou. Com o tempo, o plano se alterou e virou a chance de fazer uma ponte com jovens que consideram a linguagem política "meio cringe".

França conta que, no começo, as pessoas torciam o nariz para seu projeto; agora muitos colegas ligam dizendo que querem participar.

Os bastidores do reality show "O Político" - Júlio César Costa/UOL - Júlio César Costa/UOL
Os bastidores do reality show "O Político"
Imagem: Júlio César Costa/UOL

Um dos objetivos é fazer os participantes e espectadores entenderem que nem sempre o político está 100% convicto de sua ideia quando discursa. "Às vezes ele é conduzido pela questão partidária. Há uma diferença enorme entre votar como eles pensam e como pensam os eleitores."

Os episódios serão exibidos em suas redes sociais, por onde pílulas da gravação estão sendo divulgadas.

O apresentador aposta que, com a experiência, os participantes ganharão casca para seguir a carreira. É o que espera Danielle Rabelo, líder do grupo vencedor do primeiro dia e que já fala como candidata.

"Sou mãe de três meninos, tenho 40 anos e minha cidade, São Vicente, é emergida às margens da pobreza. Hoje olho ao redor e me sinto muito frustrada. Então pensei comigo: por que uma mãe não poderia entrar em um programa que discute política?", diz ela, que nas últimas eleições se candidatou a vereadora pelo PDT.

Até o fim das gravações, ela e os demais concorrentes poderão debater temas como improbidade, aborto e obrigatoriedade de vacinas diante de jurados como Jonas Donizetti, ex-prefeito de Campinas, os deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ) e Isa Penna (PSOL-SP), e os ex-governadores Geraldo Alckmin e Ciro Gomes.

Ao menos naquele teatro, a frente (de jurados) é realmente ampla.