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Do luxo ao breu: o 1º Réveillon do Maksoud Plaza como 'prédio fantasma'

O Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, que fechou as portas em dezembro - Mateus Araújo/UOL
O Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, que fechou as portas em dezembro
Imagem: Mateus Araújo/UOL

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

02/01/2022 04h01

Quando Frank Sinatra entrou no palco do teatro, vestindo black-tie, a plateia de 700 pessoas silenciou de imediato. Estavam todas acomodadas depois de se saciarem com um jantar caríssimo assinado pelo chef Roger Vergé, nome incensado da nouvelle cuisine francesa, contratado exclusivamente para o evento. Na noite histórica de 13 de agosto de 1981, o astro norte-americano iniciava a primeira das quatro apresentações que faria em São Paulo. Um seleto público se apertava numa sala decorada com arranjos de orquídeas e violetas.

Com pouco mais de 1 ano de inauguração, o hotel Maksoud Plaza, palco da turnê de Sinatra, era definitivamente alçado à fama como um dos mais chiques e badalados do Brasil. Os jornais da época só falavam daquilo.

Aberto no boom da expansão hoteleira na capital, o Maksoud manteve por anos o status de luxo. Pelo prédio da rua São Carlos do Pinhal (paralela à avenida Paulista), passaram ao longo de décadas autoridades e celebridades nacionais e internacionais como a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, o cantor e compositor João Gilberto e a banda The Rolling Stones. Filmes e novelas usaram o edifício como cenário.

Até que veio a decadência.

A partir dos anos 1990, o Maksoud foi perdendo o brilho. Dívidas trabalhistas de outra empresa do Grupo Maksoud levaram os herdeiros do hotel a leiloar o prédio do cinco estrelas, em 2011, por R$ 70 milhões. Mas a venda pública foi travada, logo depois, por causa de ações judiciais, abertas tanto pelo grupo quanto pelos arrematadores, os irmãos Fernando e Jussara Simões

Em 2020, no entanto, o Maksoud ingressou com um pedido de recuperação judicial. Os seis primeiros meses da pandemia — quando o hotel ficou fechado — foram a gota d'água para o fim, segundo Henry Maksoud Neto, que assumiu a direção da administradora desde a morte do avô, em 2014.

Sem saída, Neto entrou em acordo com os Simões, encerrando as ações na Justiça e atualizando o valor de venda do hotel para R$ 132 milhões. Assim, o cartão postal paulistano fechou as portas em 7 de dezembro.

Prédio do hotel está cercado com grades - Keiny Andrade/Folhapress - Keiny Andrade/Folhapress
O Hotel Maksoud Plaza, na região da av. Paulista, fechou as portas após 42 anos de funcionamento
Imagem: Keiny Andrade/Folhapress

De repente

"Foi um susto", comentava o taxista Marcone Gomes, 50, encostado em seu carro branco na alameda Campinas, rua lateral do hotel. "Os funcionários foram avisados quando chegaram de manhã. Teve uma reunião aí pra comunicar. Foi uma tristeza." Cerca de 170 pessoas ficaram desempregadas.

Gomes viu todo o movimento e também sentiu o impacto no próprio bolso. O paraibano mora em São Paulo há 34 anos e, há 25, passou a atender clientes da região. Um dia carregou no carro o cantor Gilberto Gil e a mulher dele, Flora. Também levou Caetano Veloso e as atrizes Patrícia Pillar e Letícia Spiller. Foram tempos de luxo encerrados de supetão, conta.

Na manhã de 29 de dezembro de 2021, dois dias antes do Réveillon, época típica de bom movimento, o motorista aguardava escorado no carro alguma corrida. Mais da metade dos seus clientes eram hóspedes. "Vinha muita gente para o Ano Novo daí. Ficava lotado. E no dia a dia, não ficava um carro parado aqui. Agora vê como está cheio...", apontava, mostrando uma fila de cinco veículos estacionados no ponto.

Do outro lado da rua, também parado, o taxista Paulo Pallermo, 65, contava que espera uma novidade sobre o prédio para decidir o que vai fazer com seu alvará. Todo taxista tem um espaço delimitado pela Prefeitura para fazer ponto. O dele é ali há seis anos.

"É desesperador", afirma. "A gente já passou pela dificuldade da pandemia, de ficar parado. Só não passei dificuldade porque meu filho me ajudou. Agora, quando tudo estava voltando, vem isso."

"Você sabe o que vai ser aí?", perguntava Pallermo. "Ninguém sabe. É uma tristeza ficar nesse vazio."

O taxista Marcone Gomes, 50, que trabalha há 25 anos ao lado do Maksoud - Mateus Araújo/UOL - Mateus Araújo/UOL
O taxista Marcone Gomes, 50, que trabalha há 25 anos ao lado do Maksoud
Imagem: Mateus Araújo/UOL
O taxista Paulo Pallermo, 65 - Mateus Araújo/UOL - Mateus Araújo/UOL
O taxista Paulo Pallermo, 65
Imagem: Mateus Araújo/UOL

Luxo modernista

O Maksoud Plaza faz parte de um período de deslocamento das atividades comerciais de São Paulo do centro para outras regiões como a avenida Paulista, iniciado nos anos 1960. O prédio de 416 apartamentos, projetado por Paulo Lucio de Brito, marcou a memória de muita gente, sobretudo pelo seu hall principal, com jardins suspensos, espelho d'água e uma vasta decoração. Também atraía frequentadores pelos seus bares, restaurantes e eventos políticos e corporativos.

Era um "hotel de uma nova geração, a mais nova indústria" que surgia na cidade, como dizia o anúncio do Maksoud publicado em 6 agosto de 1981, no Jornal do Brasil. "Uma indústria sem chaminés, moderna e que desde o berço fez questão de ser brasileira. Onde todos os projetos foram feitos por engenheiros e arquitetos brasileiros. Onde existem mais de 800 pessoas empregadas e onde até o computador é nacional", destacava. "Feito com capital totalmente privado e totalmente nacional, numa época em que muitos temem pelo futuro."

Cenário que minguou e mudou completamente.

Após o fechamento, no início de dezembro, o Maksoud foi cercado com grades e telas de plástico, e fica guardado também por seguranças que caminham 24 horas pelo pátio. Em 17 de dezembro, o TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) suspendeu temporariamente a entrega do prédio aos novos donos e mandou que o espaço fosse lacrado.

A decisão atende a um pedido dos irmãos Claudio e Roberto Maksoud, filhos do criador do hotel. Eles alegam irregularidade na negociação do imóvel e pedem o afastamento de Henry Neto da direção do Grupo.

A suspensão da transferência é válida até 30 de janeiro de 2022. O famoso átrio do hotel está vazio e escuro, e da rua se veem cortinas que continuam amarradas nos cantos das janelas dos 21 andares. Até que se resolva o impasse, tudo está trancado.

Os moradores do entorno e turistas costumam parar os funcionários da empresa terceirizada que fazem a guarda do local para perguntar qual será o futuro dele. "Há uma expectativa grande, muita gente lamentando", contava uma pessoa da equipe que pediu para não ser identificada. "Até fechar, isso aqui estava cheio. Ninguém dizia que ia acontecer o que aconteceu."

A fachada colorida do edifício, referência à cultura pop, está cinza. E só não encardiu totalmente por causa das plantas e objetos de uma floricultura no corredor de acesso ao prédio — que também precisará sair dali nos próximos dias. Abordada pela reportagem, a vendedora não quis dar entrevista. À entrada do comércio, uma placa avisa dos descontos de até 40%.

Floricultura em frente ao hotel Maksoud Plaza coloca produtos em promoção - Mateus Araújo/UOL - Mateus Araújo/UOL
Floricultura em frente ao hotel Maksoud Plaza
Imagem: Mateus Araújo/UOL

Vai ser o quê?

Um barulho de batida de ferro se espalhava pelas ruas vazias em torno do Maksoud, na última quarta-feira do ano. Uma dezena de homens erguia gradis e toldos para a corrida de São Silvestre, que este ano volta a acontecer, após uma parada em 2020 por causa da pandemia.

Dentro de uma padaria, em frente ao hotel, o barulho da montagem contrastava com a conversa tímida de dois amigos em uma mesa, na varanda do estabelecimento. Eles trocavam presentes atrasados de Natal e falavam amenidades sobre os exercícios físicos da musculação. Por trás do balcão, alguns funcionários também conversavam baixinho entre si, à espera de clientes.

"Muita gente que vinha para o hotel passava por aqui", lembrava Rosineia Garcia, 51, caixa da padaria. Os comerciantes calculam uma queda de 20% nas vendas.

Quando ouviu a reportagem fazendo perguntas sobre o Maksoud, a advogada Mirtes Benevides, 72, se aproximou para lamentar. "Olhe, eu moro por aqui há 37 anos, e me dá uma dor ver este hotel fechado. Isso é um absurdo. O país está perdendo um cartão postal", falava, elevando a voz. "Cartão-postal do Brasil. Escreva aí: do Brasil."

"A senhora sabe o que vai acontecer com o prédio?", indagava a reportagem do TAB. "Vai ser um hotel ou um hospital?", retrucava. "Ninguém sabe, menino. Isso é briga de família", emendou.