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Sem renda nem garantia, indígenas buscam abrigo definitivo em Curitiba

Após passarem semanas vivendo nas ruas de Curitiba, Kaingangues da regiäo de Nova Laranjeiras (PR) vivem em abrigo temporário cedido pela FAS (Fundação de Ação Social) Imagem: Theo Marques/UOL

Daniel Tozzi Mendes

Colaboração para o TAB, em Curitiba

14/01/2022 04h01

Kerlon Kayque Corimba tem 8 anos e é fã de futebol. Ele acabou de conseguir uma camisa 10 da seleção brasileira com o nome de Neymar Jr nas costas. Índio da etnia Kaingang, Kayque está com seu pai, Marciano Corimba, em um alojamento de Curitiba ao lado de pelo menos 50 indígenas — boa parte deles, crianças. No alojamento, poucos falam português e a comunicação é feita quase sempre em Kaingang. "Depois que ele ganhou a camisa, não quer saber mais de tirar", diz Marciano, em português.

No início de dezembro, pai e filho e dezenas de outras famílias deixaram a aldeia de Rio das Cobras — maior área indígena do Paraná, no município de Novas Laranjeiras — para aproveitar o movimento de fim de ano na capital e comercializar peças de artesanato. São cerca de 380 quilômetros de distância entre as duas cidades.

Diferentemente de anos recentes, dessa vez os Kaingangues encontraram um novo obstáculo: a Capai (Casa de Passagem Indígena), mantida pela prefeitura para atender comunidades em trânsito, estava fechada, o que obrigou as famílias a ficarem pelo menos três semanas dormindo nas ruas, até que um alojamento fosse providenciado.

O espaço provisório fica no bairro Rebouças, a três quilômetros do centro da cidade. Os indígenas estão instalados em barracas de acampamento e colchões, dividindo o espaço com sacolas de doação de roupas e alimentos, além das peças de artesanato produzidas no próprio local. Cestos, chocalhos, flechas de enfeite e filtros dos sonhos são os itens confeccionados para venda. O alojamento conta também com uma área externa e uma cozinha, com pia, fogão, geladeira e micro-ondas, onde as refeições são preparadas pelos próprios Kaingangues.

Marciano Corimba, que vive no abrigo da FAS com seu filho Kerlon, em Curitiba Imagem: Theo Marques/UOL

Indígena até no nome

O êxodo temporário até a cidade grande já virou tradição para a população de Rio das Cobras, onde hoje habitam cerca de 3.500 indígenas, a maioria Kaingangues. Curitiba não é o único destino dessas famílias, que também se deslocam para cidades como Cascavel, Foz do Iguaçu e Florianópolis (SC). O dinheiro obtido com a venda de artesanato é usado para a compra de roupas, material escolar e para o pagamento de dívidas contraídas ao longo do ano em supermercados na região da aldeia. Além do movimento comercial, os meses de dezembro e janeiro são os mais escolhidos pelos Kaingangues, porque coincidem com o período de férias escolares, o que permite a presença das crianças na empreitada.

"Os indígenas vêm aqui fazer o que já fazem há milênios: coletar. Antes era o pinhão, a caça e outros recursos naturais. Hoje é o dinheiro, conseguido a partir do trabalho", explica Eloy Jacintho, que vive em Curitiba desde 2016 e se tornou uma espécie de líder espontâneo de questões indígenas na cidade. Ele foi um dos articuladores da cessão do alojamento aos indígenas e tem visitado o espaço diariamente.

Criado em uma aldeia na região norte do Paraná, Eloy é da etnia Guarani Nhandewa e milita no movimento indígena desde o início dos anos 2000. "Independente da etnia, nós, indígenas, nos reconhecemos neste território. Se fosse o contrário, Curitiba e mais de 20 bairros da cidade não teriam nome indígena", acrescenta.

O nome da capital do Paraná tem origem no dialeto Guarani: kur yt yba quer dizer "grande quantidade de pinheiros", em referência ao pinheiro-do-paraná (araucária), árvore típica da região, de onde vem o pinhão.

Kaingangues trabalhando na confecção de artesanato no abrigo Imagem: Theo Marques/UOL
Kixirrá, liderança indígena que vive em Curitiba e se envolveu na negociação pelo abrigo dos Kaingangues Imagem: Theo Marques/UOL

Das marquises ao alojamento improvisado

Inaugurada em 2015, a Capai foi fechada em março de 2020 por decisão da FAS (Fundação de Ação Social), subordinada à prefeitura de Curitiba, devido ao início da pandemia de covid-19. Entre março de 2020 e novembro de 2021, o fluxo de indígenas para a capital continuou, mas em número bem menor. Durante o período, a Prefeitura afirma que seguiu atendendo às necessidades da comunidade por meio das políticas de acolhimento voltadas à população em situação de rua.

O recente afrouxamento das medidas restritivas levou ao aumento do fluxo de indígenas nos primeiros dias de dezembro. Sem alternativa, mais famílias Kaingangues passaram a dormir nas ruas, se instalando nas marquises de um banco, próximo ao terminal rodoviário de Curitiba, e de lojas da região central. Uma semana antes do Natal, a estimativa era de pelo menos 200 Kaingangues espalhados pela cidade. A informação sobre o fechamento da Capai não era consenso entre as famílias antes de saírem de Rio das Cobras. Ou seja: algumas delas chegaram à Curitiba sem saber que não teriam acolhimento especializado.

A situação levou à mobilização de lideranças indígenas, entidades ligadas aos Direitos Humanos, do Ministério Público e políticos da região solidários à causa. Como forma de protesto, alguns indígenas chegaram a montar um acampamento em frente à prefeitura municipal.

Em 23 de dezembro, houve uma reunião entre a Prefeitura e demais entidades. Após pressão do Ministério Público estadual, a prefeitura cedeu o espaço onde hoje os Kaingangues estão abrigados. A FAS afirma que, junto com a cessão do alojamento, providenciou equipamentos de cozinha e colchões, além de manter visitas regulares ao espaço.

Imagem: Theo Marques/UOL

Antes do retorno, a gripe

A reportagem visitou o alojamento na quinta-feira (6), quando os termômetros de Curitiba marcavam 17ºC e o tempo alternava entre garoa fina e chuva. Longe de ser incomum para o verão da capital mais fria do país, o clima dos primeiros dias de janeiro parecia afetar parte da comunidade Kaingang abrigada no alojamento.

Acompanhada dos três filhos, Laurita Symatu Ribeiro estava há quatro dias sem ir para as ruas vender artesanato porque suas crianças mais novas — Brenda e Caio — estavam se recuperando de uma forte gripe. A recomendação médica ouvida na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do bairro Cajuru era a de repouso completo.

"Pelo menos o alojamento é bem melhor do que ficar na rua, sem um teto, sem banheiro e sem um lugar para as crianças descansarem", comentou Laurita. Um dia antes, na quarta-feira (5) uma força-tarefa da prefeitura de Curitiba havia enviado agentes de saúde para realizar um mutirão de testes rápidos de covid-19 no alojamento. Ninguém testou positivo.

Como Laurita, a tendência é que a maioria dos Kaingangues retorne para Rio das Cobras até fevereiro. Para quem continuar em Curitiba, ou para as famílias que pretendem passar pela cidade ao longo do ano, o problema da falta de abrigo deve continuar. O temor é que, com cada vez menos indígenas na cidade, o atual alojamento seja fechado.

Para Eloy Jacintho, o alojamento não passa de solução emergencial. "A luta é por um centro de referência indígena, um espaço que não sirva apenas de abrigo para comunidades em trânsito, mas que tenha atividades permanentes e que possa valorizar a cultura, o conhecimento e a história dos povos indígenas da região."

A Prefeitura de Curitiba, que cita ainda os riscos continuados da pandemia, afirma que a decisão pela reabertura da Casa de Passagem ou a manutenção do atual espaço não é exclusiva da administração municipal, e que discute com o Ministério Público, a Funai e demais órgãos responsáveis os próximos passos. "A retomada de uma possível Casa de Passagem deverá ser feita juntamente com os entes federados e estaduais, de acordo com as competências previstas em lei", comunicou à reportagem.

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