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Com 63 anos e vendendo saúde, pelicano é o morador mais antigo do Zoo de SP

Pell no Parque Zoológico de São Paulo, localizado na Zona Sul da cidade - Reinaldo Canato/UOL
Pell no Parque Zoológico de São Paulo, localizado na Zona Sul da cidade Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Claudia Castelo Branco

Colaboração para o TAB, em São Paulo

26/01/2022 04h00

Um bico cor-de-rosa claro de 35 centímetros já desbotado pelo tempo; uma bolsa amarela no pescoço capaz de armazenar até 12 litros de água e 63 anos na pele, contrariando a expectativa de 25 anos de vida de um pelicano rosa no ambiente selvagem. Pell, como foi batizado, é o morador mais antigo do Zoo de São Paulo.

Sabe-se que o pelicano sexagenário foi transferido de um instituto da Alemanha para o Brasil em 1963 -- apenas cinco anos após a fundação do Zoo, em 1958. É um veterano. Tão antigo que as informações sobre seu passado acabaram se perdendo com o tempo. Sua ficha, uma das primeiras, traz somente seu nome, espécie e data de entrada. Para se ter uma ideia da impressionante longevidade de Pell, a ave silvestre mais velha conhecida da história, no mundo, completou 70 anos em 2021. É Wisdom, um albatroz-de-laysan

Na hora do 'almoço', Pell recusou a comida - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Na hora do 'almoço', Pell recusou a comida
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Durante as décadas de 1960 e 1970, os pelicanos quase desapareceram do mundo devido aos pesticidas lançados por humanos na água. Eles contaminavam os peixes, que contaminavam as aves, comprometendo toda uma cadeia. Esses pesticidas, atualmente, são proibidos.

Pelicanos também são grandes pescadores e já foram perseguidos por humanos devido à sua concorrência com a pesca comercial e recreativa.

Pell tem 63 anos e é o habitante mais antigo do Zoo de São Paulo - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Pell tem 63 anos e é o habitante mais antigo do Zoo de São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Coroa bonito e solteiro

De plumagem branca com algumas penas pretas, Pell é uma ave aquática que pesa cerca de 10 kg. Dono de um longo pescoço, exibe na cabeça um pequeno topete de penas pontiagudas. Ele já não voa, mas flutua lentamente no ar batendo as grandes asas -- e passa boa parte do tempo limpando suas penas com o bico.

Morando num lago do tamanho de um estádio de futebol, a ave chama a atenção na água verde colorida pelas algas. "Olha, a mamãe cuidando dos filhotes!", aponta uma criança de 5 anos. Fora da água, Pell tem a mesma altura que a menina -- cerca de um metro.

Os tais "filhotes" mencionados pela criança são, na verdade, uma dúzia de mergulhões interessados na rabeira do almoço especial do pelicano. Solteiro e sem filhos, Pell está sempre acompanhado por outras aves. Entre elas estão dois cisnes negros e animais considerados de 'vida livre', caso dos urubus e das garças que chegam naturalmente ao habitat -- isto é, não fazem parte dos 1.700 animais que estão sob cuidados humanos no Zoológico. O termo cativeiro não é mais usado.

Alguns dos animais que vivem ali -- répteis, por exemplo --, foram bichos comercializados ilegalmente e recuperados pela polícia. A arara-azul-de-lear, espécie ameaçada de extinção, também é um deles e, hoje, faz parte de um projeto de conservação com órgãos internacionais.

Os pelicanos do Zoo de SP - Reinaldo Canato /UOL - Reinaldo Canato /UOL
Os pelicanos do Zoo de SP
Imagem: Reinaldo Canato /UOL

Pell não é o único pelicano da área: ao seu lado nada outro espécime, também macho, mas sem nome e nove anos mais jovem. O amigo chegou ao Zoo em 1972 por meio de permuta. Informações sobre ele também são desconhecidas por causa do tempo. "Como são dados muito antigos, alguns apelidos se perdem. A gente sabe o apelido do Pell porque é uma das primeiras fichas do Zoo", explica Luciana Lima, da Reserva Paulista, concessionária que assumiu em dezembro de 2021 a gestão do Zoológico, Jardim Botânico e Zoo Safari de São Paulo.

O morador mais antigo do Zoo também carrega algumas cicatrizes resultantes de disputas por comida. Certa vez, agindo sozinho, escondeu-se atrás da toca de um grupo de quatis com o objetivo de caçar comida alheia. Levou uma surra tão grande que foi parar no veterinário. "Não desistiu", lembra o biólogo Oriel Nogali. Recuou após apanhar pela segunda vez. Ele e seu amigo sem nome não se enfrentam. Não é da natureza deles.

Estátua de São Francisco de Assis no Zoo de SP - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Estátua de São Francisco de Assis no Zoo de SP
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

E como a natureza não liga para nomes, todos ali, batizados ou não, nadam juntos próximos à uma estátua de São Francisco de Assis, conhecido como o santo protetor dos animais. Pell, a propósito, chega a ser mais velho que a estátua, uma oferta dos franciscanos ao parque. "São Francisco há oito séculos já falava sobre a necessidade de respeitar e proteger todas as coisas da natureza", diz a placa com a data de seis de dezembro de 1975.

No catolicismo, o pelicano é representado na Eucaristia. Cheio de simbolismos, a ave simboliza doação e sacrifício para a Igreja católica e é mencionada diversas vezes na Bíblia. Segundo a Lenda do Pelicano Eucarístico, na falta de peixes para alimentar seus filhotes, o pelicano bica o próprio peito oferecendo sua carne e sangue para os filhos.

A sardinha nossa de cada dia

O relógio marcava 11h, hora do almoço dos pelicanos, quando Adriana Reis, a responsável pela alimentação das aves, apareceu com uma bacia cheia de sardinha fresca. Com uma máscara estampada de tucanos, Adriana conta que Pell tem grande apetite e consome 1 kg de peixe por dia. "Idosos gostam de almoçar cedo", comenta.

Os pelicanos do Zoo de SP são alimentados com sardinhas e manjubinhas - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Os pelicanos do Zoo de SP são alimentados com sardinhas e manjubinhas
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

No dia do encontro com a reportagem, Pell surpreendeu, deu de costas e passou a vez para o companheiro que abriu a garganta sem dó para receber o alimento. A bolsa não é usada para armazenar, mas para manter o alimento lá enquanto o pelicano esvazia a água do bico e engole a sardinha.

Não é possível saber se a atitude de Pell foi um ato de generosidade, altruísmo ou simplesmente uma manifestação do seu paladar distinto. Sardinha não é seu prato preferido. O sexagenário prefere os dias de manjubinha.

Outra possível explicação para a recusa de comida está no próprio lago onde Pell gosta de pescar seus aperitivos de manhã bem cedo, formado a partir das nascentes do histórico riacho do Ipiranga e que mantém águas limpas graças a uma Estação de Tratamento de Água (ETA) e uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) onde todos os efluentes do Parque são tratados e posteriormente devolvidos ao lago.

Com a saúde em dia apesar da momentânea falta de apetite, nenhum outro animal do Zoo testemunhou mais de seis décadas como aquela ave de bico comprido ali. Observado por nossas lentes, Pell abre as enormes asas como quem vem mostrar que ainda tem sua majestade.

Pell no Zoo de São Paulo - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Pell no Zoo de São Paulo
Imagem: Reinaldo Canato/UOL