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'Começou tudo outra vez': enfermeiras enfrentam caos de covid em CTI de BH

O CTI da Santa Casa de Belo Horizonte (MG) - Leandro Aguiar/UOL
O CTI da Santa Casa de Belo Horizonte (MG)
Imagem: Leandro Aguiar/UOL

Leandro Aguiar

Colaboração para o TAB, de Belo Horizonte

29/01/2022 04h00

A enfermeira Daniele Andrade, 32, caminha apressada por entre os leitos da ala de covid do CTI da Santa Casa de Belo Horizonte. Ora coleta o sangue de pacientes para checar seu nível de oxigênio, ora monitora a pressão dos doentes ou assessora algum médico na realização de procedimentos como uma punção — quando um cateter é inserido na veia para auxiliar nas funções renais dos enfermos graves. O intervalo entre as tarefas, quando há, é de poucos minutos.

Naquela terça-feira, 26 de janeiro, enquanto o TAB acompanhava a rotina de Daniele, um de seus pacientes, um homem de cerca de 60 anos, nu, sedado e atrelado por fios a máquinas que emitiam sons digitais, começou a respirar de modo arfante e a se debater na cama. A enfermeira coletou o sangue do homem para exames, cujo resultado quase imediato mostrou uma piora súbita em seu estado de saúde. Pouco depois, ele precisou ser entubado.

Esse senhor tomara as três doses da vacina contra o coronavírus, porém havia recebido um transplante de órgão, o que é considerado um fator de risco para a doença.

Casos como esse, que rarearam no fim de 2021, tornaram a ser frequentes no primeiro mês de 2022, o que angustia Daniele. "Parece um ciclo sem fim. Estou desesperada", desabafa.

Para ela e suas colegas no hospital, o maior da rede SUS de Minas Gerais, a variante ômicron, uma das responsáveis pela nova onda de internações, não é bem-vinda, como afirmou o presidente Jair Bolsonaro (PL). "Temos muitos desfalques na equipe, por causa de pessoas infectadas, e estamos sobrecarregadas. Ainda sabemos pouco sobre o comportamento dessa variante. É lógico que ela não é bem-vinda."

A enfermeira Daniele Andrade, 32 - Santa Casa de Belo Horizonte/Divulgação - Santa Casa de Belo Horizonte/Divulgação
A enfermeira Daniele Andrade, 32
Imagem: Santa Casa de Belo Horizonte/Divulgação

Esperança e desencanto

Em outubro de 2021, a técnica de enfermagem Juliana Cristina, de 26 anos, e que desde os 19 trabalha na Santa Casa BH, vislumbrava com otimismo não o fim da pandemia, mas a estabilização, em um baixo patamar, no número de novos casos e mortes. O hospital já fechava leitos voltados para pacientes com covid, tornando a atender pessoas acometidas por outros males. Aliviada, Juliana saiu de férias — a primeira desde a chegada do vírus no Brasil, no início de 2020.

Ao voltar do descanso, Juliana, que trabalha dia sim dia não em turnos de 12 horas, já era requisitada a fazer jornadas duplas e até triplas de trabalho para substituir colegas infectados por influenza, covid ou ambos — entre dezembro e janeiro, mais de 100 profissionais da saúde estiveram afastados por essas razões na Santa Casa BH. Foi quando surgiram as primeiras notícias sobre uma nova cepa do coronavírus identificada na África do Sul, a ômicron.

Em questão de semanas, as enfermarias e os CTIs de BH atingiram a lotação máxima e os hospitais tiveram de abrir novos leitos. Logo ficou claro que a sensação de abrandamento da pandemia não passava de uma miragem coletiva. "Começou tudo outra vez, parece um dèjá vu do ano passado", resume a enfermeira Lariça Vieira, 25, que trabalha no CTI da Santa Casa BH.

Entre os pacientes que diariamente são admitidos nos CTIs, a avassaladora maioria é de não vacinados: algo em torno de 80%, segundo a Secretaria de Saúde de Minas Gerais. O que duplica a indignação das enfermeiras com as notícias falsas que, também diariamente, incentivam as pessoas a não se vacinarem.

Inclusive na enfermaria a desconfiança com as vacinas se faz presente. "Eu me vacinei e vim parar aqui, de que me adiantou?", questionou um indignado paciente à Juliana, que, pacientemente, explicou: "O senhor testou positivo, mas está conversando, andando e não vai precisar ser entubado."

Felizmente, graças ao conhecimento acumulado sobre a doença e à resistência proporcionada pela vacina, a nova onda de internações tem se mostrado menos letal que as anteriores. Em comparação ao colapso de abril de 2021, a maioria dos pacientes chega com sintomas menos graves, e em muitos casos os quadros não evoluem a ponto de ser necessária a entubação.

O impacto no fluxo de trabalho, porém, se iguala ao dos piores momentos da pandemia. Embora não faltem — ainda — medicamentos e equipamentos, a alta de internações não redunda apenas no cansaço dos funcionários. Na correria, torna-se impossível acompanhar com a devida atenção cada um dos doentes. "Para os pacientes, isso significa uma queda na esperança de se recuperar. E se continuar nesse ritmo, logo não teremos mais condições de expandir os leitos", lamenta Lariça.

A enfermeira Lariça Vieira, 25 - Leandro Aguiar/UOL - Leandro Aguiar/UOL
A enfermeira Lariça Vieira, 25
Imagem: Leandro Aguiar/UOL

Manter a calma

Quando está a caminho do trabalho, Isabela Silvana, 34, coordenadora de enfermagem das alas respiratórias da Santa Casa BH, pensa em sua equipe. Lembra-se dos que, infectados, estão afastados do trabalho, ao mesmo tempo em que reflete sobre quem estaria um pouco menos exausto para substituí-los. Além disso, o medo e a frustração se espalharam como um vírus entre os funcionários desde que as internações voltaram a subir exponencialmente na capital mineira, e parte do seu trabalho é manter todos calmos e focados.

Ao entrar na enfermaria, cumprimenta cada um dos profissionais e brinca com os mais chegados. Cada aniversário, cada promoção alcançada por uma enfermeira torna-se motivo de celebração nos intervalos, numa tentativa de tornar o ambiente mais leve. Os funcionários contam, também, com acompanhamento psicológico, e, na área de convivência do hospital, podem participar de sessões de dança e ioga.

Isabela Silvana, 34, coordenadora de enfermagem das alas respiratórias da Santa Casa de Belo Horizonte - Leandro Aguiar/UOL - Leandro Aguiar/UOL
Isabela Silvana, 34, coordenadora de enfermagem das alas respiratórias da Santa Casa de Belo Horizonte
Imagem: Leandro Aguiar/UOL

Os esforços rendem frutos, mas a recorrência de certos procedimentos incômodos — como a inserção de uma sonda nasogástrica nos pacientes que não conseguem comer —- faz com que o clima no trabalho seja no máximo agridoce.

Enquanto a enfermeira Lorena Braga, 26, passa uma dessas sondas pelo nariz de uma paciente idosa e muito magra, ela busca consolar a senhora, que chora baixinho. "É ruim demais, né? Mas tá quase, o pior já passou."

Ao fim do expediente, uma novata foi conversar com Lorena. Estava esgotada e achava que não daria conta do serviço, tão desgastante do ponto de vista físico e psicológico. "Meu conselho foi: não desiste. No início é complicado, a gente sofre junto com o paciente, mas nos acalenta saber que esses procedimentos vão ajudá-los a vencer a doença."

A enfermeira Lorena Braga, 26 - Leandro Aguiar/UOL - Leandro Aguiar/UOL
A enfermeira Lorena Braga, 26
Imagem: Leandro Aguiar/UOL

Nada é tão eficaz para manter a equipe esperançosa quanto a alta de um paciente. Logo após ajudar a entubar o homem doente do início do texto, a enfermeira intensivista Daniele Andrade teve esse prazer. Tratava-se de um idoso que chegara ao CTI da covid após apresentar sintomas na ala dos cardíacos, onde recebia tratamento. Noutros tempos, garantiu à reportagem, ele tivera uma saúde de ferro: "é que eu era vaqueiro", esclarece.

Após alguns dias em observação, justamente na terça (26), seu exame para o coronavírus deu negativo. "Partiu?", pergunta Daniele. O homem sorriu e respondeu: "graças a Deus, né?"