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Campeonato de aviãozinho de papel empolga estudantes universitários em SP

Campeonato de aviãzinho de papel na Universidade São Judas Tadeu (SP) - Fernando Moraes/UOL
Campeonato de aviãzinho de papel na Universidade São Judas Tadeu (SP) Imagem: Fernando Moraes/UOL

Eduardo Vessoni

Colaboração para TAB, de São Paulo

29/03/2022 04h00

Que atire a primeira bolota de papel amassado quem nunca causou tumulto em sala de aula lançando aeroplanos mal traçados que cruzavam quatro ou cinco fileiras de carteiras antes de atingir o cesto de lixo ou o colega da frente.

Mas aviãozinho de papel também pode ser coisa séria. Valendo ponto, dando direito a prêmio e a pessoa que lança pode ter até que participar da disputa final em solo europeu. Em sua 6ª edição, o Red Bull Paper Wings é um campeonato mundial de arremesso de aviãozinho de papel, considerado o maior evento do gênero em todo o mundo e voltado, exclusivamente, para o público universitário.

Não eram nem 16h30, horário marcado para o início da competição na quadra da Universidade São Judas Tadeu, na Zona Leste de São Paulo, quando chegou o primeiro concorrente com uma camiseta branca de manga dobrada, calça cropped, óculos arredondados de aro fino e um tênis alvo.

Lá fora, uma tarde de céu de brigadeiro, mas o atleta manteve a cabeça baixa e os olhos fixos em cada uma das dobraduras que ia fazendo. Quando a reportagem se aproximou, Carlos Eron Farias, 20, avisou de cara que não é profissional, mas que é preciso saber dobrar. "O mais importante é fazer bem alinhado e com as pontas bem finas. Esses outros eu descartei porque estão tortos", conta, mostrando uma pilha de aviões aposentados antes mesmo do voo inaugural.

E lá vai o aluno do 3º ano do curso de Arquitetura tentar ensinar a técnica para a equipe de reportagem: "Ó, dobra na metade, junta uma pontinha na outra. Uma você leva para o outro lado. Daí você dobra aqui e faz outra ponta. Depois é só virar. Essa é a parte mais chatinha. O importante é o quão preciso você vai juntando tudo", explica o universitário que, naquela tarde, trocou os projetos de obras pela confecção de aeromodelos de papel.

Segundo ele, há dois tipos: o que voa e o que plana, e logo mostra um aviãozinho cheio de dobraduras complexas que não dão lá muitas pistas para adivinhar se aquilo o que se vê é o que voa ou o que plana. Mais tarde, descobriríamos que, no caso dele, mal voaria e pouco planaria.

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Campeonato de aviãzinho de papel na Universidade São Judas Tadeu
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Mundo de papel

Na outra ponta da mesa, uma das meninas grita um desesperado "ajuda nós, Dani".

"Quer que eu jogue para você ver?", desafia a jovem, lançando seu modelo -- que cai suave no fundo da quadra. Nada mal para quem andou treinando em casa com a prima Clara de três aninhos, "que é muita ativa". "Meus pais acham que eu não tenho o que fazer e só invento coisa", conta, rindo. Mas eles ficariam orgulhos de saber que a filha foi responsável pelo primeiro recorde daquela tarde, um voo de 15,09 metros de distância.

"Arregacei, é recorde. Não estava esperando isso. Foi aquele aviãozinho bonito que eu te mostrei, lembra?", comemora Daniele, cuja voz é abafada pelo K-Pop que o DJ Cobain toca na pickup ao lado e pelos gritos da torcida das amigas enfileiradas diante da pista.

Da seletiva que aconteceu no último mês de março em 20 cidades brasileiras sairão quatro finalistas -- que disputarão, no dia 18 de abril, a final nacional no Rio de Janeiro. Ali serão conhecidos os vencedores que, além do título brasileiro, tentarão garantir vaga para a etapa mundial do Red Bull Paper Wings, em Salzburgo, na Áustria.

Ao todo, foram quase 500 qualificatórias, em 62 países.

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Gustavo Alexandre da Rosa, 28, durante lançamento de aviãozinho na modalidade "Distância de voo"
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Profissionalismo

A competição conta com balcão de check-in para fazer as inscrições, passaporte estilizado para deixar o feito registrado e um hangar improvisado para a criação dos modelos em uma sequência de mesas escolares dispostas em U.

Para evitar fraudes, os atletas não podem usar outro papel que não seja o fornecido pelos organizadores, uma folha timbrada A4, gramatura 100g e feita com material reciclado.

"Depois que o seu aviãozinho estiver perfeito, os atletas devem ir para a área de decolagem", orienta pelo alto-falante o animado copiloto da torre de medição -- na verdade, uma plataforma para árbitro de vôlei que se ergue na lateral da quadra. É ele que anuncia também os resultados medidos pelos fiscais de pista, que controlam a área de decolagem com sinalizadores como os usados pelos responsáveis pelo balizamento dos aviões (de verdade) no aeroporto.

Não pode pisar na faixa vermelha, caso contrário, o atleta é desclassificado. Quando o avião aterriza, um fiscal corre para marcar com o pé a distância alcançada até que alguém venha com uma fita métrica para anunciar o número oficial. A marcação no chão da quadra vai de 5 a 30 metros, mas tem aviões tão mal traçados ou com tão pouca propulsão que despencam a menos de um metro de distância.

Na outra modalidade do campeonato, os fiscais controlam com um cronômetro no celular o tempo que o aviãozinho se sustenta no ar.

Pista liberada

"Assim que eu levantar esse bastão, seu voo está liberado", orienta a fiscal de pista que leva na cabeça um quepe azul-marinho de aviadora. E o primeiro participante lança seu aviãozinho, que roda desengonçado até cair no chão, a 7,85 metros de distância.

Logo atrás, vem Carlos Eron Farias que se posiciona atrás da faixa vermelha colada no chão, dá uma respirada mais funda, abre e fecha os olhos lentamente e lança sua engenhoca de papel. Dessa vez, não deu. Seu modelo tão cheio de dobraduras cai a apenas 4,54 metros de distância.

"Boa, valeu a tentativa", grita o copiloto do evento pelo alto-falante.

Carlos tem direito a mais uma jogada. Volta a se posicionar e tenta a sorte outra vez. "Você viu? [O avião] brochou", analisa quando o fiscal anuncia o voo curto de pífios 2,36 metros de distância.

Insistente e seguro de si, ele se autoavalia. "Bonito o avião está, mas provavelmente eu errei em alguma dobragem. Se eu tivesse treinado mais?", lamenta, antes de seguir para a confecção do próximo modelo que irá usar na modalidade "Tempo de Voo".

Dani já está posicionada e é uma das próximas a decolar. "Agora que eu estou na fila, fiquei nervosa. Mas eu sempre fico nervosa", conta a jovem. Logo atrás, um competidor dá dois goles longos na lata de energético disponibilizado pelo organizador do evento. "Esse quer criar asas", ironiza outro candidato.

A quadra vai lotando de atletas do papel, o DJ vai alternando os estilos musicais ("só não dá para tocar eletrônico para esse público") e logo surge mais um recordista. Após atingir a marca de 19,12 metros de distância, Giovanni Zedde, 21, pega mais uma latinha no cooler e cruza a quadra até o lado de fora. Aluno do 4º ano de Engenharia Mecânica, ele conta que usou os conhecimentos adquiridos na disciplina Mecânica da Partícula, cursada no início do curso. "É questão de dobradura, de fazer o vinco certo", ensina.

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Giovanni Zedda, 21, vencedor na categoria "Distância de voo"
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Questão de tempo

Estudante do 5º ano de Engenharia de Produção, Rafaela Gomes de Campos, 21, acredita que os conhecimentos aprendidos no seu curso são fundamentais para participar da competição.

"Tudo isso é engenharia e física. É pensar nas dobras e na gravidade. Dependendo do peso, ele cai mais rápido", explica.

Para essa quase engenheira, o modelo perfeito para a modalidade de distância é aquele mais longo, que "vai ajudar o avião a chegar mais longe". Já para mantê-lo mais tempo no ar, o ideal é um aviãozinho um pouco mais leve, mais curto e com menos dobras para não pesar o papel.

"Com a pandemia tudo mudou e a gente vem com essa sede maior de fazer as coisas acontecerem. Com certeza, eu mudei porque agora eu tenho mais experiência", avalia Rafaela, que em 2019 participou da competição pela primeira vez.

Mas não foi dessa vez.

Na modalidade "Tempo de voo", cujo vencedor é aquele que conseguir manter seu aviãozinho por mais tempo no ar, Rafaela pilotou dois voos de 2,3 e 0,87 segundos. Em 2022, faltou-lhe engenharia e física.

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Rafaela Gomes de Campos, 21, estudante de Engenharia de Produção
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Até o fechamento deste texto, o melhor colocado, mundialmente, era o indiano Abid A., com seu voo de 23 segundos e 40 milésimos de duração. Já na categoria "Distância", a primeira posição ficou para o alemão Isaac L., cujo aviãozinho avançou 36,60 metros.

Porém, a seletiva paulistana começou mal. Antes de cair de bico no chão, o primeiro arremesso não durou mais do que dois segundos, seguido de outras tentativas que tampouco se mantiveram no ar por muito tempo.

Logo aparece Ana Carolina da Silva, 20, empunhando um modelo com pinta de 14 Bis de Santos Dumont, por conta da estrutura achatada e prolongada. "Moço, eu aprendi agora, Minha meta era atingir dois segundos", comemora a também aluna de engenharia, depois de ouvir que seu voo durou 3 segundos e 61 milésimos.

"É minha primeira vez no evento. Minha família acha que estou estudando", confessa Ana Carolina, antes de deixar a quadra.

Em São Paulo, o campeão daquela noite foi Douglas Santos, 24, com um sobrevoo de 5 segundos e 69 milésimos -- colocação bem distante do australiano Cameron Clark que, na última competição mundial realizada antes da pandemia, em 2019, liderou um sobrevoo de 13 segundos e 33 milésimos.

Douglas ficou sabendo da competição quando chegou na universidade e decidiu se inscrever "depois de dez anos sem brincar disso".

"É uma coisa de infância. Quando eu tinha uns cinco anos meu pai fazia aviõezinhos de isopor para mim e para meus irmãos. Daí veio essa lembrança", descreve, surpreso pela colocação. Da época, esse primeiro anista de Educação Física lembra que o pai sempre recomendava os modelos menores, "quanto menor, melhor".

"Eu ainda estou um pouco eufórico, é como se eu estivesse em uma partida de handebol. Eu tô a mil", finaliza o atleta, empunhando seu prêmio: uma caixa com 24 latinhas de energético e uma placa daquelas do tipo cheque gigante com o título conquistado.

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Douglas Santos, 24, vencedor na categoria "Tempo de voo"
Imagem: Fernando Moraes/UOL