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'Quem vê close não vê corre': a primeira Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo

Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo - Camila Svenson/UOL
Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo
Imagem: Camila Svenson/UOL

Do TAB, em São Paulo

25/04/2022 11h10

Elvis Justino, 35, levou três anos para conseguir botar na rua a primeira Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Desde 2019, ele e outros militantes da região corriam atrás de apoio e patrocinadores porque queriam organizar uma série de atividades, incluindo festas, palestras e intervenções artísticas, além de um desfile pela avenida principal do bairro.

No domingo (24), uma parte dos planos se concretizou. "Não vai ser nada luxuoso, vai ser pobre mesmo. Mas isso mexe em muita coisa, tem um impacto social e cultural que às vezes a gente nem imagina", explicava Justino.

Por volta do meio-dia, um pequeno trio elétrico estacionado em frente à estação Campo Limpo do Metrô tocava as primeiras músicas da festa que se estenderia ao longo da tarde e percorreria as ruas do entorno. Um grupo começou a se juntar próximo ao veículo, e, em poucas horas, já havia algumas centenas de pessoas. A maioria, jovens com idades entre 19 e 25 anos.

Elvis Justino, 35, um dos organizadores da Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo - Camila Svenson/UOL - Camila Svenson/UOL
Elvis Justino, 35, um dos organizadores da Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo
Imagem: Camila Svenson/UOL

'Nossos corpos existem'

Criado em uma família evangélica, Justino foi pastor da Igreja Internacional da Graça de Deus, no Tatuapé. "Eu me dizia heterossexual naquele tempo. Mas na minha igreja iam LGBTs, que sempre tratei mundo bem. Sempre fui progressista, nunca tive problema com a sexualidade dos outros, mas era comigo. Sempre soube que era gay, mas tinha muita autocobrança. Até que conheci a família Stronger, me senti acolhido, e saí do armário de fato", lembra, referindo-se à ONG paulistana que atende pessoas vítimas de preconceito e intolerância.

"Os pastores deixaram de pregar a palavra de Deus para fazer palanque político", afirma. Há 10 anos, ele se afastou da religião e passou a militar pelos LGBTQIA+.

A vontade de fazer uma Parada na zona sul, explicava o coordenador, era, além de descentralizar eventos como esse (a principal festa do tipo acontece da avenida Paulista, a 20 quilômetros de distância), permitir que "um bocado de gay, de sapatão e travestis colocasse seus corpos na rua" da periferia. "[É para] Mostrar que nossos corpos existem", afirmava.

Para fazer acontecer a primeira edição do evento, no entanto, foi preciso resistir, segundo ele, que reclama de boicote. "Existe um grupo político que fala que vai te ajudar e não te ajuda, engana a gente. E, no final, não tem parada", afirma. "Mas, dessa vez, nós vamos botar pra rua, em nome de Santa Cher."

O primeiro obstáculo que tiveram foi a pandemia. Em 2020 e 2021, a proibição de eventos com aglomeração suspendeu a ideia do grupo. Com a retomada das atividades para grandes públicos, agora em 2022, o coletivo resolveu retomar o projeto. A data escolhida no início de janeiro casava com um feriado estendido de Tiradentes, tempo suficiente para organizarem a logística.

Organizadores querem descentralizar a parada em São Paulo - Camila Svenson/UOL - Camila Svenson/UOL
Organizadores querem descentralizar a parada em São Paulo
Imagem: Camila Svenson/UOL
Público da Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo - Camila Svenson/UOL - Camila Svenson/UOL
Público da Parada LGBTQIA+ do Capão Redondo
Imagem: Camila Svenson/UOL

A proibição

Em 21 de janeiro, a Prefeitura de São Paulo anunciou o adiamento do Carnaval que aconteceria entre o final de fevereiro e início de março, justamente para os dias 21 e 22 de abril. O novo calendário, porém, privilegiou as escolas de samba e ignorou os blocos de rua, que não tiveram autorização para realizar os desfiles nos bairros da cidade.

Por considerar a Parada LGBTQIA+ um bloco de rua (em vez de manifestação política), a gestão municipal também barrou o evento e negou qualquer tipo de apoio aos organizadores. Ao longo das últimas semanas, Elvis Justino e outros integrantes da produção tentavam pedir a presença de agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) para interromper uma parte do trânsito por onde passaria o grupo e a disponibilização de banheiros químicos e serviço de limpeza. Nada feito.

"A CET está sendo usada como ferramenta de repressão contra o movimento social, principalmente na periferia. Isso é algo que tem me preocupado muito, não só agora, não só no Capão. Ela está loteada para grupos políticos", acusava. "Tem megabloco, como o Acadêmicos do Baixo Augusta, do Alê Youssef, ex-secretário [de Cultura da cidade], fazendo festa com milhares de pessoas no Anhangabaú, e uma parada na periferia com 200 pessoas, não pode. Que absurdo é esse?"

Justino se referia ao evento que aconteceu também no domingo, à tarde, no Vale do Anhangabaú, no centro da cidade. Cerca de 20 mil pessoas, de acordo com os organizadores, participaram do Festival Baixo Augusta, que teve apoio de empresas privadas e cujo acesso era restrito a quem havia feito cadastro prévio e estivesse vacinado contra covid-19.

Em uma nota enviada ao TAB, a prefeitura confirmou que a Parada do Capão não tinha autorização para ser realizada, porque "o evento citado contará com trios elétricos" e "se configura como bloco de rua e eles continuam proibidos".

O jeito foi se virar como dava. Em poucos dias, o grupo conseguiu apoio do sindicato dos comerciários do bairro e arranjou um minúsculo trio elétrico doado pelo deputado estadual Dr. Jorge do Carmo (PT). "Gente, por favor, coloquem as latas e garrafas de bebidas no lixo. Vamos evitar sujar a rua e que reclamem da gente", dizia um DJ ao microfone, no domingo.

Laura Paz, 19, na Parada do Capão Redondo - Camila Svenson/UOL - Camila Svenson/UOL
Laura Paz, 19, na Parada do Capão Redondo
Imagem: Camila Svenson/UOL
O estudante Anderson Patricio, 19, integrante do movimento pastoral Marielle Franco - Camila Svenson/UOL - Camila Svenson/UOL
O estudante Anderson Patricio, 19, integrante do movimento pastoral Marielle Franco
Imagem: Camila Svenson/UOL

'É tão bom a gente se espalhar'

O perrengue dos bastidores passou bem longe dos participantes. O clima de festa sobressaía.

"Essa parada tem um grande potencial para tornar esses bairros ainda mais acolhedores aos LGBTQIA+", comemorava o sociólogo Jorge Mateus Lourenço, 24, que saiu de Guaianases, na zona leste da cidade, para participar da Parada do Capão Redondo com um amigo, o estudante de antropologia Anderson Patrício, 19. "É importante a gente pensar nessa conexão das periferias e das LGBTs periféricas", explicava.

Os dois rapazes são integrantes da pastoral LGBT Marielle Franco, da paróquia de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera. "Somos bichas católicas", dizia Anderson, segurando uma garrafa de vinho.

Bem próximo a eles, com uma longa peruca loira, blusinha vermelha e saia preta justas, a estudante Laura Paz, 19, cruzava a faixa de pedestre acompanhada de mais quatro amigas para se juntar ao grupo. Todas elas vivem em uma casa de acolhimento a pessoas trans do bairro. "Traz outro olhar para essa região", comentava, elogiando a festa. "É tão bom a gente se espalhar dessa forma."

Por volta das 17h, a Parada do Capão Redondo saiu em desfile pela avenida Carlos Cadeira Filho, ao som de música pop e funk. De surpresa, quatro viaturas da CET apareceram para ajudar a fechar o trânsito por onde seguiria o grupo. "A CET veio", ria Justino. "Foi maravilhoso", comentava ele, eufórico, no final do desfile.

No segundo semestre, os organizadores pretendem estender o evento a outros bairros periféricos da cidade: em julho, devem realizar a parada de Suzano; em setembro, em Cidade Tiradentes; e em novembro, no Itaim Paulista.