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Carreira, alma, sexo, DNA: o que é e o que não é coaching, segundo coaches

"Coaching é a arte de perguntar", define Geronimo Theml, fundador do Instituto Geronimo Theml de Coaching e Desenvolvimento Humano - Divulgação
'Coaching é a arte de perguntar', define Geronimo Theml, fundador do Instituto Geronimo Theml de Coaching e Desenvolvimento Humano Imagem: Divulgação

Marina Santa Clara

Colaboração para o TAB, de São Paulo

27/04/2022 04h00Atualizada em 28/04/2022 14h30

A moça em situação de rua aguarda na fila para receber uma cesta básica. Um ano depois ela volta, agora com casa e emprego — dessa vez, para fazer a própria doação.

Outra garota estava arrasada porque levou um fora do namorado. Quer reconquistá-lo. Mas, dois meses depois, conhece sua alma gêmea. Casam-se e, hoje, têm dois filhos.

Roteiro de ficção? Não, é "case" de coach. Ao menos é o que garantem Geronimo Theml e Luiza Vono, profissionais que relatam ter, respectivamente, esses feitos no currículo.

Life coaching, business, executive, team coaching, coaching de carreira. Para os não familiarizados, essas são as áreas em que tradicionalmente o coach (profissional formado em coaching) atua. Quem o procura (coachee) busca atingir metas na área pessoal ("life") ou profissional (os demais).

Mas basta uma pesquisa rápida no Google para perceber que essas vertentes são só a porta de entrada para outras mais exóticas, vendidas País afora, em cursos presenciais ou online, por autointitulados coaches quânticos, coaches de alma, constelação familiar, reprogramação de DNA, hipnose, PNL (programação neurolinguística), coaches de gratidão, dieta, sexo. Também não é preciso procurar muito no YouTube, por exemplo, para achar vídeos em que o discurso do coach se confunde com o motivacional ou de autoajuda — ou em que a profissão é conectada à religião, com coaches falando como pastores.

"A palavra 'coaching' se tornou vendável. Um cara que tinha um curso de oratória e comunicação agora chama de 'vocal coaching' ou 'coaching de comunicação'. Só que o curso continua igual, ele continua dando conselho, palpite, orientando. E essas três coisas são proibidas dentro do processo", diz Sulivan França, coach, CEO e fundador da Slac (Sociedade Latino-Americana de Coaching).

Sulivan França, coach - Divulgação - Divulgação
A palavra 'coaching' se tornou vendável, diz Sulivan França, CEO da Sociedade Latino-Americana de Coaching
Imagem: Divulgação

Isso não é coaching

A profissão é alvo de desconfiança e de humoristas. Em 2019, chegou a tramitar no Congresso uma proposta para criminalizar a atividade. E, diante de uma realidade que por si só às vezes parece absurda, quem está fazendo piada precisa deixar claro. Nas redes, Christian Cardoso, por exemplo, se autointitula dark coach e vampirista quântico, prometendo fazer "desbloqueio mental de habilidades biomecânicas" e "atualizar com hipnose o seu Java Script Mental". "Hoje várias pessoas percebem a brincadeira, mas muitos acreditam."

Somem-se a isso vídeos de "treinamento" que se tornaram virais, como o do "grito da masculinidade", dos alunos que têm de caminhar em brasa ou dançar a Haka, típica dos povos Maori, da Nova Zelândia, em uma versão adaptada para o mundo corporativo, com gritos como "yes, yes, yes" e "eu mereço". Ou notícias como a do coach Pablo Marçal, que liderou uma expedição para um treinamento motivacional no pico dos Marins, em São Paulo, sem estrutura adequada, e precisou ser resgatado com o grupo por bombeiros.

"Coaching é a arte de perguntar, não vou te dizer o que você tem que fazer. Quando o cara começa a falar 'vou te dar uma receita', não é coaching. O coaching tem uma metodologia básica, que deveria ser seguida por todo mundo", afirma Geronimo Theml, fundador da escola IGT (Instituto Geronimo Theml de Coaching e Desenvolvimento Humano). Em meio a essa aura de certo descrédito, também ecoa a desconfiança de inúmeros coaches em relação à imprensa: muitas foram as negativas ou ausências de retorno para os pedidos de entrevista.

Bem ou mal, falem de mim

Aquecida pela pandemia, a profissão está em ascensão no Brasil — que já aparece em segundo lugar no ranking global de profissionais, com 120 mil coaches. Em primeiro estão os Estados Unidos, com 180 mil, segundo dados da Slac.

De olho nesse mercado, instituições tradicionais de ensino, como FGV (Fundação Getúlio Vargas), PUC (Pontifícia Universidade Católica) e até a Universidade de Harvard, nos EUA, oferecem em sua grade cursos livres para formar profissionais na área.

A remuneração mensal que se pode atingir é um dos atrativos: em torno de US$ 4 mil (cerca de R$ 20 mil) no ramo de life coaching e US$ 9 mil (cerca de R$ 45 mil) no mercado corporativo. A falta de regulamentação também contribuiu para o boom. Assim como os métodos, a carga horária pode variar radicalmente: há cursos online, de dois dias e de meses, com valores igualmente díspares, de R$ 1 mil a R$ 10 mil, em média.

Técnica da frestinha

Luiza Vono, coach - Victor Moura - Victor Moura
Luiza Vono dá curso de 'Sedução Online'
Imagem: Victor Moura

Há quem dê a sorte de se tornar um coach influencer. Foi o que aconteceu com Luiza Vono, que, em 2016, depois de fazer um curso de coaching voltado à área corporativa, adaptou os ensinamentos para um nicho onde todos parecem precisar de uma forcinha em alguma altura da vida: o afetivo.

Hoje, ela segue ativa nas redes sociais, com vídeos no YouTube com mais de 1 milhão de visualizações, como "Mexa com o Inconsciente Dele". O carro-chefe de sua atuação é o curso "Sedução Online", em que promete "uma fila de homens interessantes correndo atrás de você". "Eu ensino [a mulher] a dar espaço para que um homem tome a atitude. No fundo a gente quer ser conduzida", opina. "O cara vai empurrar a porta e entrar, mas [a mulher] deixa uma frestinha aberta."

Das discussões sobre feminismo, diz estar distante: "É engraçado que muitas alunas me consideram feminista, mas eu não tô nem aí para esse negócio. Meu foco é realizar sonhos, da minha família, das minhas clientes."

O perigo de o coach cruzar a linha da psicologia sem que tenha formação adequada para tratar traumas é uma das críticas mais recorrentes à atividade. Luiza diz tomar cuidado. "As feridas se abrem. Mas aí é o ponto em que 'opa, agora você trata na terapia'."

Geronimo Theml defende que não se invada essa seara. "Entre os princípios universais do coaching está o foco no presente orientado para o futuro, que é onde muitos coaches erram. Eu não sou psicólogo. Se eu abro uma ferida emocional em você, eu não sei fechar."

Luiza Vono, coach - Divulgação - Divulgação
'É engraçado que muitas alunas me consideram feminista', diz coach de relacionamento
Imagem: Divulgação

Eu mereço amar

Em uma tarde de quarta-feira de fevereiro, o TAB acompanhou parte de uma das etapas do curso de formação de coaches na sede da Febracis, escola com 40 unidades pelo Brasil, que se diz a maior instituição de coaching do mundo. A entidade é presidida por Paulo Vieira, celebridade da área.

No 12º andar de um prédio na avenida Paulista, em São Paulo, cerca de 70 pessoas assistiam à aula com seus laptops em um auditório. Nas telas, o software criado pela própria empresa (assim como o método, idealizado por Vieira), e que depois pode ser comprado pelos alunos. À frente, "treinadores", como preferem ser chamados.

Vestindo ternos de cores sóbrias, eles se revezam nas explicações e na interação com o público. Além de ensinar a mexer no programa, têm no discurso falas em que destacam a importância de "fazer o bem" e pedem que os alunos repitam frases como "eu mereço amar, eu mereço ser amado".

Na recepção há uma loja com diversos produtos, entre livros do próprio Vieira e obras de outros autores, como sua mulher, Camila Saraiva Vieira, coach com foco nas mulheres. O mercado editorial é, de maneira geral, um nicho importante — e é comum que livros de coaching figurem em várias listas de mais vendidos no país.

Geronimo Theml, coach - Divulgação - Divulgação
Segundo Theml, coaching não é necessariamente para a pessoa ter 'mais', mas ter o que quer
Imagem: Divulgação

Coaches celebridades e ciladas

De volta à loja da Febracis, há ainda itens personalizados de merchandising, como o caderno "Eu Posso Mais" e o squeeze "O Melhor Ainda Está por Vir". A loja tem versão virtual, e a empresa conta com outro braço online: o portal "Tem Poder Quem Age", espécie de "Netflix do Coaching". Por meio de assinatura mensal ou anual, na casa dos R$ 40, é possível ter acesso ao conteúdo.

Outras escolas levam a assinatura de coaches celebridades, como o IBC (Instituto Brasileiro de Coaching), de José Roberto Marques, que chegou a ser conselheiro de Roberto Justus no reality show "O Aprendiz".

Autor de livros como "Mindset Milionário", ele já teve seus reveses: em 2020, chegou a ter R$ 1 milhão bloqueado pela Justiça em razão de dívidas. TAB pediu entrevista a Marques, mas, após alguns contatos com sua equipe, não houve mais retorno. Já a SBC (Sociedade Brasileira de Coaching), de Villela da Matta, vive atualmente seus momentos de turbulência. A plataforma EaD usada para as aulas saiu do ar sem aviso, deixando à deriva os alunos com cursos pagos.

Segundo Da Matta, em entrevista por e-mail, todos que o procuram diretamente estão sendo assistidos. "Uma dissolução societária culminou em algumas consequências que me impediram de tomar atitudes prontamente. Tive que aguardar resoluções jurídicas para agir."

Diante de um caminho tortuoso, em uma atividade ainda amadurecendo, como evitar ciladas? "No mercado tem um monte de pseudoformadores de coaches que nunca fizeram uma sessão individual. Então é bom perguntar onde esse cara atua, que empresas ele atende. Não pode ser só postar Porsche, mansão e frase de efeito no Instagram e levar a galera para uma imersão de dois, três dias.", sentencia França. "Coaching não é necessariamente para a pessoa ter mais. É para a pessoa ter o que ela quer", diz Theml.

Errata: o texto foi atualizado
A primeira versão deste texto afirmava que Luiza Vono é casada com Geronimo Theml. Na verdade, ela é casada com Leonardo Angelos.