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Caso da menina incendiada pela família em Frutal (MG) tem clima de mistério

A casa da família onde ocorreu o ritual com Maria Fernanda, em Frutal (MG) - Rodrigo Ferrari/UOL
A casa da família onde ocorreu o ritual com Maria Fernanda, em Frutal (MG) Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Rodrigo Ferrari

Colaboração para o TAB, de Frutal (MG)

22/06/2022 04h01

Na sala da casa dos avós, Maria Fernanda Camargo, 5, é colocada dentro de uma bacia. É noite de 23 de março. O médium Bruno Santos Fernandes, 24, pede à avó da criança que lhe entregue uma garrafa, contendo um preparo com álcool 70% e ervas. A solução é espalhada pelo corpo da menina, a partir dos cabelos. À medida que o homem despeja o líquido, ele se acumula no recipiente onde está a criança. A mãe e o avô também estão na sala, assim como um assistente do médium, identificado apenas como Kaio.

Dentro de instantes, suas vidas serão esfaceladas. Não vai haver milagre, mas uma tragédia repleta de não-ditos e reviravoltas.
Fernandes solicita uma vela. Edivaine Camargos, tia materna de Maria Fernanda que estava no cômodo ao lado, levanta-se, vai até a sala, entrega o objeto ao médium e torna a sair.

Os segundos seguintes passam ligeiros feito a fagulha que acendeu o pavio. Fernandes aproxima a chama da garota enferma banhada em álcool. Naquele instante, ele estaria em estado de transe. O fogo se espalha pelo corpo de Maria Fernanda e fica incontrolável. Mãe e avós entram em desespero e tentam a todo custo apagar o incêndio, em vão.

O fato ocorreu na residência dos avós e ali, na sala ao lado, estava o irmão da garota. Em meio ao tumulto, o garoto de 12 anos foi capaz de vislumbrar a irmã com o corpo quase inteiramente queimado.

Maria Fernanda foi levada pela tia ao Hospital Municipal Frei Gabriel, em Frutal (MG), onde recebeu os primeiros socorros. Horas depois, foi encaminhada ao Hospital Austa, em São José do Rio Preto (SP). A partir daí a história ganhou contornos ainda mais impressionantes.

Quando a menina deu entrada no segundo hospital, seu quadro era estável. Por isso, o pai e a tia, que a acompanhavam, resolveram percorrer 115 km e retornar a Frutal para pegar roupas e objetos pessoais, acreditando que o tratamento da menina fosse demorar. Durante a madrugada, o estado de saúde de Maria Fernanda agravou-se.

Quando os familiares voltaram a Rio Preto pela manhã, foram recebidos pela médica responsável. A criança não resistira aos ferimentos. Cacildo Carrijo Camargo, 50, nunca teve a chance de ver como a filha ficou depois do incidente, nem de se despedir dela. "De tudo o que aconteceu, esse é meu maior remorso", afirma.

A denúncia feita pelo Ministério Público no início de junho e divulgada no último dia 14 indica que Maria Fernanda morreu devido a queimaduras nas vias aéreas e também lesões de primeiro, segundo e terceiro graus por quase todo o corpo.

'Meu mundo acabou'

Maria Fernanda celebraria 6 anos dentro de poucos dias. A vela usada no ritual religioso impediu-a de apagar as velas de seu aniversário. "Meu mundo acabou naquela hora", afirma o pai da menina.

Cacildo estava no trabalho no momento em que a filha teve o corpo queimado. Pela manhã, a esposa Edilaine havia ido ao sítio dos pais em Fronteira (49 quilômetros de Frutal), a fim de colher algumas ervas medicinais para preparar um chá.

À noite, ao sair do trabalho, Cacildo recebeu um telefonema de uma cunhada. "A Maria Fernanda queimou! Queimou muito." Cacildo correu para casa, mas notou que não havia ninguém. Resolveu, então, ligar para a casa do sogro.

A sogra, Luzenilda Camargos, atendeu e, em meio ao choro, teria dito: "Foi o Bruno...".

"Que Bruno? Aquele Bruno?", questionou Cacildo. Não teve resposta. Quando chegou à casa dos sogros, Maria Fernanda e a esposa já haviam sido levadas ao hospital, ambas com queimaduras graves. Edilaine precisou passar por várias cirurgias e perdeu os movimentos da mão direita devido aos ferimentos. Embora machucada, está presa desde abril.

Cacildo Carrijo Camargo, pai de Maria Fernanda, a menina de 5 anos que morreu depois de um ritual de cura - Rodrigo Ferrari/UOL - Rodrigo Ferrari/UOL
Cacildo Carrijo Camargo, pai de Maria Fernanda, a menina de 5 anos que morreu depois de um ritual de cura
Imagem: Rodrigo Ferrari/UOL

Que Bruno?

Nascido em Frutal, Bruno Fernandes passou boa parte da infância e da juventude na cidade. Aqueles que o conheceram na adolescência descrevem-no como alguém voluntarioso, que gostava de aparecer em eventos públicos como rodeios e exposições.

Ele trabalhava como mototaxista quando o caso aconteceu. "Não tem nada dessa história de pai de santo ou líder espiritual. Ele é um médium em formação, que apenas tentou ajudar uma família", afirma a advogada Juliene Sabino, uma das que representam Fernandes no caso.

Uma amiga do jovem, moradora da região e que prefere não ser identificada, confirma que ele não era líder espiritual. "Ele é médium. Ficou em minha casa algumas vezes e sempre se comportou de maneira exemplar."

Cacildo, porém, não tinha boa impressão de Bruno. Ele conta que chegou a se encontrar com o médium em algumas reuniões de família. "Falei para minha esposa e minha sogra que não queria aquele rapaz perto de meus filhos."

Reconstituição da cena do crime em Frutal (MG) foi fundamental para as investigações avançarem - Divulgação - Divulgação
Reconstituição da cena do crime em Frutal (MG) foi fundamental para as investigações avançarem
Imagem: Divulgação

'Cura milagrosa' de covid-19

Em abril, Alcimiro Camargos, 71, avô de Maria Fernanda, chegou a ser preso temporariamente pela participação no caso. Devido a problemas de saúde e à idade avançada, foi posto em liberdade algumas semanas depois.

Ele está morando com o irmão, mas vai quase diariamente à antiga casa, onde tudo ocorreu, para cuidar das plantas. À reportagem de TAB, limitou-se a dizer que nunca imaginou que algo assim pudesse acontecer em sua vida. "Durante minha vida toda, eu só havia entrado na delegacia para fazer meu RG."

Depois, com voz embargada, conta que em 2021 quase perdeu a filha para a covid-19. Edivaine chegou a ser intubada, mas conseguiu sobreviver. A cura veio, por coincidência ou não, após um trabalho conduzido por Bruno Fernandes. A família acreditava que o médium poderia ajudar a solucionar os problemas de saúde recorrentes de Maria Fernanda, ocasionados por sua baixa imunidade. "Agora eu perdi a minha neta", diz, chorando.

Os advogados José Rodrigo de Almeida e Juliane Martins do Carmo, que representam a família de Maria Fernanda Camargo - Arquivo Pessoal/Reprodução - Arquivo Pessoal/Reprodução
Os advogados José Rodrigo de Almeida e Juliane Martins do Carmo, que representam a família de Maria Fernanda Camargo
Imagem: Arquivo Pessoal/Reprodução

Estigma religioso

A defesa da família trabalha com a tese de que Fernandes foi responsável pela tragédia. "Os avós e a mãe acreditaram que ele sabia o que estava fazendo", afirma o advogado José Rodrigo de Almeida.

Atualmente, a mãe, a tia e a avó permanecem presas preventivamente em Uberaba (MG). No começo, elas chegaram a ser juradas de morte pelas outras detentas e precisaram ser mantidas em celas separadas. Com o passar dos meses, no entanto, a fúria das demais presas aplacou-se.

Em Frutal, a percepção das pessoas sobre a morte de Maria Fernanda também oscila. Inicialmente, houve um clima de revolta, depois que a Polícia Civil divulgou que a menina havia sido morta em um "ritual maligno". Com o avanço das investigações, lideranças da umbanda foram sendo ouvidas. Ficou claro que o ocorrido não tem nada a ver com a prática religiosa.

"As pessoas falam muita besteira, principalmente sobre coisas que não entendem. Para comentar a respeito de algo, você precisa conhecer. É como alguém dizer que não gosta de jiló. Mas ela já comeu jiló para saber? A umbanda é para o bem", afirma o médium Clóvis Antônio de Morais, 82, que mantém um dos mais antigos centros de Frutal.

O que aumentou a comoção em torno do caso foram as versões desencontradas, lançadas pela família logo após Maria Fernanda sofrer as queimaduras. Num primeiro momento, todos declararam à polícia que a menina havia sofrido um acidente com uma churrasqueira.

"Edivaine é professora de catequese, ao passo que sua mãe trabalhou por muitos anos em uma entidade ligada à Igreja Católica. Elas ficaram com medo do estigma que a repercussão do caso traria", alega a advogada Juliane Martins do Carmo.

'Só queria saber a verdade'

Cacildo, porém, não engoliu a história da churrasqueira. Durante o velório, tentou tirar a situação a limpo com a esposa. "Vamos aguardar, pois não é o momento", respondeu Edilaine. No dia seguinte, após o enterro, os dois voltaram a conversar. O diálogo ficou tenso e a esposa insistiu no relato da churrasqueira. O marido não aceitou e resolveu ir à polícia. "Eu queria saber a verdade."

A partir do depoimento prestado pelo pai, a Polícia Civil resolveu alterar a linha de investigação, concentrando esforços no médium. Na semana seguinte à morte de Maria Fernanda, o médium foi convocado a prestar depoimento na 3ª Delegacia Regional de Polícia de Frutal e resolveu abrir o jogo, admitindo sua participação no episódio e revelando que a história da churrasqueira era falsa. Em 4 de abril, foi a vez de Edilaine ser ouvida e acrescentar detalhes, confirmando que a menina havia sido queimada com álcool, em uma cerimônia religiosa. Em 20 de abril, Bruno Fernandes foi preso.

O julgamento dos envolvidos ainda não foi marcado. Antes, a defesa de Fernandes tentará desqualificar a acusação feita pelo promotor Rogério Toledo, que denunciou os seis adultos presentes na casa por homicídio doloso "praticado contra uma criança, do sexo feminino, em contexto de violência doméstica e familiar, com emprego de fogo e recurso que dificultou a defesa do ofendido".

O promotor afirma que procurou, em sua denúncia, esquivar-se das questões religiosas ou de ordem subjetiva. "Minha denúncia é técnica e se baseia no tipo e na quantidade de álcool utilizada no ritual", diz.

"Todos ali tinham apenas a intenção de ajudar a criança. Ninguém teve intenção de prejudicá-la", rebate a advogada Juliene Sabino. Na véspera do ritual que resultou em sua morte, Maria Fernanda precisou ser levada a Barretos para receber atendimento de emergência, por conta de um mal-estar.

"Na volta para Frutal, ela passou muito mal e vomitou", conta Cacildo. Ele espera que a esposa seja libertada, para que juntos possam retomar a vida.

"Quero isso, por mim e pelo meu filho. Ele passa os dias se lamentando pela Maria Fernanda e dizendo: 'Minha vida acabou. Perdi minha irmã e minha mãe está presa'", afirma o pai.