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Quiosque Moïse abre no Rio: 'dia de alegria, tristeza e luta', diz família

Quiosque Moïse, no parque Madureira, no Rio - Marcela Lemos/UOL
Quiosque Moïse, no parque Madureira, no Rio Imagem: Marcela Lemos/UOL

Marcela Lemos

Colaboração para o TAB, do Rio

01/07/2022 10h08

O dia era de festa, mas os semblantes sinalizavam luto. Foi com o punho cerrado na altura do peito que Ivana Lay posou para fotos ao lado da imagem do filho pintada em uma das paredes do quiosque Moïse, inaugurado na tarde de quinta-feira (30) no parque Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro.

Mãe de Moïse Kabagambe, jovem congolês de 24 anos espancado até a morte no fim de janeiro, Ivana sorriu pouco durante a inauguração do espaço, que ocorreu no aniversário de 62 anos da independência da República do Congo. Ela fez questão de lembrar que o dia era uma mistura "de alegria, de tristeza e de luta por justiça".

Apesar da dor ainda presente em cada fala da família, a festa de inauguração do quiosque foi uma festa tipicamente africana, animada com muita música, especialmente congolesa, e performances culturais. O ritmo atípico para o parque, que costuma tocar samba e funk, chamava atenção de quem passava.

Atendentes de quiosques vizinhos também passaram à condição de espectadores da inauguração. Houve quem cruzou o espaço com uma escada de alumínio nas mãos e improvisou um banco no alto para conseguir ver a performance de Paulinho do Fogo, artista com adereços tipicamente africanos que quis levar um pouquinho do antigo continente ao bairro de Madureira.

Atrás do quiosque foi montado um palco. Ali o Terremoto Clandestino tocou diversos ritmos em homenagem à ancestralidade de Moïse. O grupo é composto por refugiados e imigrantes, assim como a família Kabagambe.

Quiosque Moïse, no parque Madureira, no Rio - Marcela Lemos/UOL - Marcela Lemos/UOL
Dia 'de alegria, de tristeza e de luta por justiça', diz Ivana, mãe de Moïse Kabagambe
Imagem: Marcela Lemos/UOL

'Um menino amado por todos'

Moïse foi brutalmente assassinado no quiosque Tropicália, onde trabalhava informalmente, na orla da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, no dia 24 de janeiro.

A ideia inicial da prefeitura era que a família assumisse a administração do quiosque na Barra da Tijuca, onde Moïse foi assassinado, e transformasse o espaço num memorial. A proposta foi desconsiderada, devido às lembranças ruins do endereço.

A família escolheu o parque para a construção do quiosque (cedido pela prefeitura em parceria com a concessionária Orla Rio) pois Moïse gostava de passar seu tempo livre ali. Aberto e arborizado, o espaço tem mais de 3 km de extensão e acompanha a linha férrea que corta Madureira, bairro considerado acolhedor pela família congolesa.

Pai, mãe, irmãos e primos de Moïse escreveram um discurso que foi traduzido para a língua portuguesa com antecedência e proclamado pelo advogado Rodrigo Mondego, integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB no Rio, que prestou apoio jurídico à família no início das investigações sobre o assassinato do jovem.

Mondego foi escolhido para representar os Kabagambe no momento do discurso, pois a família ainda tem certa dificuldade de se expressar em português — eles se comunicam principalmente através do lingala, idioma presente em parte do Congo, apesar de a língua oficial ser o francês.

A carta começou com uma pequena biografia de Moïse, "um menino que irradiava alegria, brincalhão e que nunca foi de brigar". "Um menino que era amado por todos e sempre disposto a ajudar quem precisava."

Os familiares pediram um minuto de silêncio em homenagem ao jovem e relembraram a dor da partida dele. "Nossos corações sangraram com o assassinato selvagem do nosso filho e irmão. Esse quiosque é um sinal de compaixão para prestar homenagem a esse ilustre imigrante."

O pronunciamento terminou com um agradecimento para quem apoiou a família e se posicionou diante do assassinato de Moïse — no fim de fevereiro, o Tribunal de Justiça do Rio aceitou a denúncia do Ministério Público contra Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, Brando Alexander Luz da Silva e Fabio Pirineus da Silva, acusados de homicídio.

Outros respondem pelo crime de omissão, acrescenta a procuradora Mariana Rodrigues, da Comissão de Direitos Humanos da OAB do Rio. Até o momento, ainda não ocorreu nenhuma audiência na Justiça sobre o caso.

Quiosque Moïse, no parque Madureira, no Rio - Marcela Lemos/UOL - Marcela Lemos/UOL
'Queremos receber todos os congoleses em Madureira, um lugar super democrático'
Imagem: Marcela Lemos/UOL

Uma 'embaixada' do Congo no Brasil

O quiosque de Moïse é o único parque Madureira semelhante às estruturas das praias do Rio. O diferencial é a decoração inspirada nas origens de Moïse.

O balcão conta com um grafite africano do artista Airá Ocrespo, conhecido por imprimir nas suas obras o empoderamento negro. No topo do quiosque, o nome Moïse aparece duas vezes, com a letra "o" representada pela bandeira do país.

Logo na frente, é possível observar uma arte em azulejos com o rosto do jovem congolês estampado. Na parte de trás, o rosto do filho de Ivana aparece novamente, ao lado de uma pintura com a mão fechada — símbolo de resistência. Ao fundo, parte da bandeira do Brasil.

Próximo ao portão 1 do parque Madureira, o quiosque tem 154 m² e capacidade para receber 60 pessoas sentadas. A ideia da família é tornar o local uma referência da cultura congolesa no Rio. O cardápio, feito com consultoria do chef João Diamante, conta com Fufu, Liboke e Makayabu, pratos típicos do Congo e com influência brasileira. Os preços variam de R$ 10 a R$ 50.

Na equipe do quiosque, brasileiros, congoleses e outros imigrantes se revezam nos afazeres do estabelecimento. Todos são fáceis de identificar: eles usam uma bandana com as cores da bandeira do Congo, azul, vermelha e amarela.

O DJ congolês Chancel Vuete, que chegou no Rio há seis anos, disse que será presença garantida à frente da mesa de som do lugar. "Esse quiosque vai virar a embaixada do Congo no Brasil, uma referência do país", destacou. "Queremos receber todos os congoleses em Madureira, um lugar super democrático."

Segundo a família, o sonho de Moïse era ser chef de cozinha e ter um restaurante no Rio, "cidade que ele tanto amava".

Moïse jamais será esquecido, disse Djodjo Barake, um dos quatro irmãos. "Ele continuará para sempre em nossos corações."