'A leitura me salvou': quem frequenta as maiores bibliotecas públicas de SP

Pedro de Sousa Araújo, 74, está no fim de "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Abre nas páginas finais, ajeita o livro num suporte de madeira, pega seus óculos e liga um aparelho eletrônico acoplado com um ímã em uma das hastes. O dispositivo utiliza a tecnologia "OrCam MyEye", capaz de escanear as páginas e realizar a leitura oral para o senhor aposentado que perdeu 90% da visão, em 2015, após um glaucoma e uma catarata.
"A leitura me salvou da depressão", diz ele, ex-trabalhador da construção civil, com voz serena, em uma das salas de convivência da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo.
Na época em que Pedro perdeu quase toda a visão, São Paulo tinha 842 bibliotecas públicas, segundo o SNBP (Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas), mantido pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo. No estado, o número caiu para 304 em 2020. No Brasil foram fechadas ao menos 764 bibliotecas públicas entre 2015 e 2020.
Próxima ao Anhangabaú, a Mário de Andrade é uma das 54 bibliotecas municipais da capital paulista que continuam abertas. Fundada em 1925, é a maior da cidade e a segunda maior biblioteca pública do país, superada, apenas, pela Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.
Pedro só descobriu a unidade em 2018, por indicação de uma terapeuta que atende moradores no hotel social onde vive, no centro. Hoje, vai lá todos os dias após o almoço. Na quarta-feira (20), ele e outros cinco visitantes estavam na sala de leitura.
O estudo Retratos da Leitura do Instituto Pró-Livro, de 2019, indica que 68% dos brasileiros diziam nunca frequentar bibliotecas. O fechamento de unidades, conforme destacou reportagem recente da BBC News Brasil, parece influenciar o quadro, já que, 45% também diziam não existir biblioteca pública na sua cidade ou no seu bairro.
'Biblioteca mudou minha vida'
Sentada sob uma castanheira gigante num dos jardins da Mário de Andrade, a revisora de textos Lorrane Fortunato, 27, intercala a atenção entre um bloco de anotações e o celular. Nas últimas semanas, ela decidiu trocar as cafeterias pela biblioteca.
"Decidi pegar a bicicleta e vir aqui todos os dias porque é um espaço impressionante", diz ela, enquanto fecha o caderno com o esboço de um livro que está escrevendo. Também tem uma editora de livros de autores independentes.
A história de Lorrane gira em torno dos livros. Antes de se mudar para São Paulo, ela morou em Bom Jardim, município de 30 mil habitantes no interior do Rio de Janeiro, onde há apenas uma biblioteca. Foi, nas suas palavras, onde sua vida mudou.
"Era adolescente e não podia ficar sozinha em casa, porque minha mãe trabalhava. Então eu ficava o dia todo lá, depois da aula", diz. "Penso como a biblioteca foi importante para mim e como é triste que muita gente não tenha essa possibilidade."
Antes de Bom Jardim, a família também morou em Itaboraí (RJ), onde não tinha biblioteca. "Minha mãe sempre gostou muito de ler, mas a gente só tinha cinco livros. Líamos aqueles mesmos cinco livros sempre: acabava e a gente começava de novo. Quando me mudei para uma cidade com biblioteca foi um dos dias mais felizes da minha vida", diz.
Para Lorrane, poder aproveitar a tarde em uma biblioteca como a Mário de Andrade é um "privilégio". Segundo ela, o horário de funcionamento prejudica quem mora longe ou trabalha das 9h às 18h. Até 2017, a unidade funcionava 24 horas por dia; hoje, está aberta das 10h às 18h.
'Esqueceram de mim'
A cerca de 10 km dali, a Biblioteca Pública Hans Christian Andersen, no Tatuapé, zona leste, tem bexigas coloridas na entrada. Fundada em 1952 e focada em títulos infantojuvenis, a unidade foi a primeira biblioteca da região.
Duas meninas desenhavam atividade de iniciação artística na quinta (21). "As crianças vêm com os pais e é muito gostoso. Para você virar um leitor você precisa que alguém traga as crianças e, no momento que o pequeno chega, ele precisa se encantar", diz Ivana Brugnoli, 49, assistente administrativa da unidade.
A biblioteca lembra uma casa, e coletivos de teatro e música aproveitam para ensaiar seus espetáculos. Ali, diferentemente da maioria das unidades, não há silêncio. Embalando um modão sertanejo, o som dos instrumentos invade a sala e parece agradar as crianças e os leitores que por ali se ajeitam entre jornais, livros e revistas.
"A gente faz um acordo: durante a manhã ensaiamos e, no fim da tarde, fazemos uma apresentação no auditório", conta o professor de música Wilson Hermógenes, 47, ministra uma aula de viola e violão para idosos na biblioteca desde 2017.
Hermógenes conhece a Hans Christian Andersen há mais de 40 anos. Na infância, passava as tardes de sábado lendo lá enquanto o pai trabalhava. "Gostava tanto que aprendi o caminho de casa até a biblioteca", conta. "Um dia, meu pai ficou preocupado, foi me procurar e eu estava aqui, lendo gibi da 'Turma da Mônica'. Foi como o filme 'Esqueceram de Mim', só que na biblioteca."
Um lugar silencioso (e com internet)
Do outro lado da cidade está a Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima, na altura do número 777 da rua Henrique Schaumann, uma das mais movimentadas de Pinheiros, zona oeste.
Apesar de ter sido reformulada em 2016, quando passou a contar com um andar exclusivo para poesia, a unidade tem tido movimentação baixa, principalmente na pandemia e no período das férias de julho.
O sossego, porém, parece perfeito para a estudante de engenharia naval Maria Lia Scalli Fonseca, 22. Com fones de ouvido, ela dá um gole na garrafa d'água, coloca o celular na mesa e abre o computador tranquilamente. Foi ali, no segundo dos três andares da unidade, que ela encontrou o lugar para estudar para as provas da faculdade e entregar as atividades do estágio.
"Eu vinha muito aqui na época do ensino médio e do vestibular. Vejo estudantes com várias apostilas", diz. O silêncio e a internet aberta ajudam. "Estudei em escola pública e conheci muita gente que parou de frequentar as aulas porque não tinha (ou pensava que não tinha) um lugar tranquilo para fazer as tarefas", relata.
Maria Lia teme o fechamento de mais bibliotecas públicas. Para a estudante, isso impactaria principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade. "Estou com primos passando uns dias em casa e é muito difícil me concentrar devido ao barulho. Então, devo voltar aqui mais vezes nesta semana."
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