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Luiza Sahd

BBB 21 não é a alienação de que o Brasil precisa, mas a que merecemos

Fiuk está no "BBB 21" - João Cotta/Globo
Fiuk está no 'BBB 21' Imagem: João Cotta/Globo
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Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do TAB

04/01/2021 04h00

Qualquer pessoa que não tenha participado de aglomerações desde março de 2020 mereceria um kit contendo vacina + passe livre para Carnaval, rave, suruba, procissão ou o calor humano intenso de sua preferência para esquecer que um dia usou máscara — e que, durante esse tempo todo, não pôde lamber o dedo para soltar as sacolinhas de supermercado.

O que o povo brasileiro precisaria para desopilar um pouco de tanta desgraça concomitante seria no mínimo uma Copa do Mundo, mas a FIFA também não dá sinais de que pretenda adiantar o evento ou solucionar esse problema aí de covid-19.

É neste cenário baixo-astral que a Rede Globo entrega, pela segunda vez na pandemia, o único produto capaz de emular um sentimento de comunhão nacional nas atuais circunstâncias: mais do que um jogo de relacionamento, o Big Brother Brasil é o punhado de alienação do qual todos precisamos, inclusive quem não admite esse papo e recomenda que leiamos livros.

Só quem não leu um monte de livros no isolamento (e ficou sem ter com quem conversar sobre eles depois) teria coragem de aconselhar uma barbaridade dessas no momento em que finalmente podemos todos falar sobre as mesmas histórias — as de confinados que não sejam nossos amigos e familiares. O ser humano é gregário demais e tem sido agredido justamente na imposição de não poder se aglomerar. Só o que faltava era a gente não poder aproveitar o reality para falar do mesmo assunto que todo mundo nas redes sociais ou nas figurinhas de zap.

A vingança nunca é plena?

Já eram quase 2h de segunda para terça-feira (26) quando sorri pela primeira vez na semana: assistindo à estreia do BBB 21, fiquei apavorada e encantada por Juliette, uma advogada de 31 anos que aparentemente veio ao mundo para vingar todas as fãs do cantor Fiuk — essas, tratadas por apelidos odiosos como "mores" ou "vida". As fiuketes também são submetidas a vídeos do tipo POV, em que o artista se declara para uma namorada imaginária. Assim, ó:

Voltando ao episódio de vingança acidental veiculado na estreia do BBB 21, ver Fiuk acuado por uma mulher que pode passar os próximos 100 dias se declarando para ele, sem motivação ou abertura aparente, é o que podemos chamar de entretenimento de qualidade. Não é novela, não é ficção: é uma pessoa pública tendo que gerenciar, ao vivaço e sem edição, o desespero de lidar com uma xavequeira obstinada. Só quem não curte os mistérios do comportamento humano poderia desprezar um conteúdo com tamanha oportunidade de reflexão.

Ano novo, novos bodes

Se você passou 2020 inteiro sentindo ódio de figuras políticas incompetentes na gestão da crise, as novidades são boas. Agora, você tem 20 pessoas mais ou menos desconhecidas sendo filmadas em período integral — e pode escolher quantas quiser para nutrir raivas inéditas. É importante renovar os pensamentos para que não se tornem obsessivos, circulando energia vital.

Nada como sentir rancor de alguém que não seja, por exemplo, o veio da Havan (também conhecido como Luciano Hang). Ontem experimentei direcionar esse sentimento para o rapaz que já queria combinar votos apenas nas mulheres da casa e até minha pele acordou mais bonita.

Amizades verdadeiras

Você conheceu gente nova no último ano? Eu não. Estou em casa privada de socialização aleatória, essa grande paixão nacional, há quase um ano.

Agora, tenho a oportunidade de escolher um amigo imaginário na TV — que nem precisa concordar com essa amizade — e acompanhar tudo o que ele faz, do banho à lavagem da louça, da briga com um colega à realização de uma prova estapafúrdia a que ele se submete por nós, geralmente em situação de ressaca, pé na bunda ou, com sorte, ambos ao mesmo tempo. Gente como a gente.

Temos agora a oportunidade de nos apegar aos confinados como nos apegaríamos a personagens de livros ou de bons filmes. Finalmente, poderemos discutir com nossos amigos da vida real sobre questões éticas, estéticas, filosóficas, políticas ou afetivas sem romper (muito) o tecido social.

No Brasil, infelizmente, não existe mais discordar sobre um assunto civilizadamente —- ou sem querer estrangular o interlocutor. No BBB, sim. Olha que coisa bonita.

Os livros sempre estarão à disposição. Ver gente confinada enquanto estamos na mesma situação é um alento. Que Deus perdoe essas pessoas ruins criticando os fãs de BBB sem sugerir coisa melhor.