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Machismo matou Ângela Diniz, mas sua vida degringolava por causa da inveja

Ângela Diniz, socialite mineira que foi assassinada em 1976 pelo companheiro Raul Doca Street - Acervo UH/Folhapress
Ângela Diniz, socialite mineira que foi assassinada em 1976 pelo companheiro Raul Doca Street Imagem: Acervo UH/Folhapress
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do UOL

14/10/2020 04h02

Devo a Branca Vianna, podcaster e fundadora da Rádio Novelo, o tema desta coluna. Depois de dois anos escrevendo neste espaço, vez por outra me pego sem saber sobre o que refletir. Não por falta de assunto. Não há tédio no Brasil. Mas a enxurrada de questões comezinhas aprisionam o colunista ao instante. E vamos cumprindo nossa missão, já colocada anos atrás, por Claude Lévi-Strauss, em "Tristes Trópicos": "aqui tudo parece que ainda é construção mas já é ruína".

Que inveja que eu tenho dos colunistas da Islândia, Finlândia ou Tuvalu. Deve ser mais fácil escrever por lá!

Branca nos salva da maldição francesa para contar, em oito episódios, a vida e morte de Ângela Diniz — mulher estonteante, famosa na alta sociedade brasileira em meados dos anos 1970, quando foi morta pelo seu namorado Doca Street. Com uma pesquisa profunda e uma voz melódica (de causar inveja!), vemos como as balas que mataram a Pantera de Minas ainda tiram a vida de uma mulher a cada sete horas no Brasil. Como a musa mineira, mulheres são mortas apenas porque sua simples presença causa um "certo desconforto nos homens" (pelo menos, é como justificam alguns dos entrevistados do podcast).

O feminicídio deve-se à contínua fricção do charme e da beleza estonteantes com a tradição machista da sociedade de Minas Gerais, ao senso de liberdade de Ângela para lidar com a própria vida, o que causava inveja às casadas, às amigas prometidas a jovens com futuro, aos homens apaixonados, aos amigos e inimigos. Em síntese: o machismo a matou, mas a vida de Ângela começou a degringolar mesmo foi com a inveja.

Não há no cotidiano brasileiro um sentimento ou emoção que gere mais debate. Ao contrário da alegria, tristeza, ira, ódio ou vergonha, que viram tema de conversa e se vão, sem maiores reverberações, a inveja divide opiniões (sou invejoso?), gera acusações, disputas por sentido (é ou não é?), e o pior, no final saímos com mais dúvidas do que certezas.

Depois de uma carreira de sucesso como jornalista e escritor, Zuenir Ventura decidiu olhar para o olho gordo, mau-olhado e a zica para entender os meandros da emoção. Decidiu escrever um livro sobre o tema, "Mal Secreto: Inveja" (1998). Entrevistou gente de todo tipo, leu uma horda de autores e contos míticos e terminou sem conseguir defini-la. Porém, na busca pela resposta, terminou com três certezas: todo mundo tem inveja; trata-se de um sentimento oculto; se você o revela, talvez ele já tenha virado outra coisa (admiração, cobiça, entre outros); por fim, ele é sempre em relação ao outro.

O fato de estarmos lidando com um sentimento compartilhado por toda a sociedade se alinha à perspectiva antropológica. Há pelo menos 100 anos, a disciplina pontua que emoções e sentimentos fazem parte dos grupos sociais. Culturas diferentes dão pesos diferentes ao que sentem. E, se assim o fazem, é porque sabem do papel de cada um na dinâmica social.

É certo que a inveja tem um lugar central em nossa cultura. Por aqui, não há casa sem um olho de boi ou uma cabeça de alho atrás da porta, jardim sem espada-de-são-jorge, comigo-ninguém-pode, arruda ou pimenteira, uma vida sem um banho de sal grosso, um pulso sem um olho grego, um crucifixo, uma figa ou uma visita a uma cartomante.

Isso porque a inveja é o sentimento relacional típico da ambiguidade cultural brasileira (causa aproximação e repulsa). É a homeostase social em ação. Do ponto de vista bioquímico, homeostase é mecanismo acionado sempre que o equilíbrio corpóreo corre risco, em nível celular ou corporal. A engrenagem biológica serve como metáfora para a vida social.

Para alguns, o ímpeto da mudança pode ser brecado pela inveja dos outros, o que faz das biografias dos novidadeiros mais alvoroçados um verdadeiro inferno. De uma hora para outra, tudo começa a dar errado. É a sociedade a agir, com seus mecanismos de controle. Do mesmo modo, os que conquistam certa notoriedade e caem na boca do povo devem ter cuidado para não serem rotulados, estigmatizados e perseguidos.

Por ser secreta e sorrateira, a inveja como mecanismo de controle mina o trânsito social e a identidade, encurrala aos alvejados nos becos da cultura e os deixa sem ação. O fascínio que despertam se esvai. Os costumes e as regras se mantêm e tudo segue no mesmo lugar. O trabalho foi feito.

Nos episódios já disponíveis de "Praia dos Ossos", fica claro que Ângela Diniz não era feminista, não carregava bandeiras e nem organizava movimentos. Foi criada por uma uma mãe narcisista, desde a primeira infância, para ser protagonista, surpreender e se destacar em todos os lugares da sua vida.

Antes de morrer num crime bárbaro, matou de inveja as amigas nos bailes da Pampulha, as jovens mineiras em busca de bom casamento, a família tradicional do marido, as damas da sociedade carioca ávidas por um espaço das colunas sociais, a conservadora elite de São Paulo e de Curitiba e por aí vai.

Pouco a pouco, uma sucessão de problemas foi dominando sua vida. O casamento acabou. Perdeu a guarda dos três filhos. Um namorado matou o seu caseiro no quintal. Foi pega com um punhado de maconha em casa e ocupou manchetes dos jornais. Foi acusada de sequestrar a própria filha. Perdeu os amigos. Resolveu se isolar numa vila de pescadores em Búzios. Morreu com quatro tiros. O assassino pegou uma pena mísera. Anos depois, seu filho mais novo morreu num acidente de carro. O mais velho caiu de uma moto, sofreu danos e ainda hoje luta pela vida. Os amigos se recusam a falar sobre sua vida. Os ex-amores desapareceram.

Quarenta e três anos após o crime, Ângela segue causando repulsa e admiração. Quando os tempos andam agitados, sua história é água em fervura. Quando tudo parece um marasmo, o caso é lembrado para nos mostrar que é possível viver de forma diferente.

A inveja que matou Ângela Diniz antes do crime na Praia dos Ossos ainda a mantém viva.

Deus nos proteja. Que vida!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL