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Música de protesto não é mais a mesma: agora é parte do mercado da lacração

Criolo e Chico Buarque, símbolos da música de protesto de diferentes gerações, se encontram em camarim de show - Daniel Marenco/Folhapress
Criolo e Chico Buarque, símbolos da música de protesto de diferentes gerações, se encontram em camarim de show Imagem: Daniel Marenco/Folhapress

Kalinka Iaquinto

Da Agência Eder Content, colaboração para o TAB, em Curitiba

02/10/2019 04h00

Rock in Rio 2019, último fim de semana: Karol Conka disse que colocaria "fogo nos racistas"; Alok pregou o amor e provocou na plateia uma reação contrária ao presidente Jair Bolsonaro. Lelê homenageou Marielle Franco e Ágatha Félix. Plutão já foi Planeta lembrou as crianças baleadas e mortas no Rio de Janeiro, citando seus nomes no telão.

Zé Ricardo, o curador artístico do Palco Sunset, reagiu à tomada do palco pela política, dizendo que palco não é palanque e que protesto maduro se faz compondo. "Faz mais sentido (o artista) escrever uma letra com teor político do que ficar discursando sobre o assunto. A forma de protestar tem que ser madura", criticou. A resposta veio nas redes e no palco, na voz da veterana Elza Soares.

A música está uma merda?

Poucos dias antes, Milton Nascimento gerou polêmica ao dizer, em entrevista, que "a música brasileira está uma merda". Às reações contrárias, explicou que se referia à música que toca nas rádios. Ainda assim, o artista comparou a produção musical do período militar e a de hoje, período que classifica como "quase uma ditadura". Para ele, "o povo não está sabendo escrever".

Milton Nascimento tem certa razão: tem músico resgatando música do passado para criticar o presente. O novo álbum de Elza Soares, "Planeta Fome", traz uma canção lançada em 1973. É uma composição de Gonzaguinha com críticas ao conformismo de quem aceita a perda de direitos sem protestar. No clipe da música "AmarElo", do rapper Emicida, a voz que soa nos primeiros versos é de uma canção de Belchior lançada em 1976. "Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro / Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro", diz o refrão de uma letra que fala da depressão e do peso da vida difícil na periferia.

Mauro Pimentel / AFP
Imagem: Mauro Pimentel / AFP

Controvérsias à parte, o que se observa é uma movimentação ainda bastante tímida na cena musical para criar a trilha sonora do atual momento político do país. Ainda é um movimento pulverizado entre ritmos e estilos, e mais concentrado na cena independente. "O resgate das canções de protesto de artistas do passado, especialmente os contrários à ditadura, ocorre por um motivo perverso, alheio à arte", afirma o crítico musical Tárik de Souza.

Há reação, segundo Souza. Cada qual em sua área e com pautas específicas, Emicida, Chico César, Marina Lima e Criolo, entre outros, estão na linha de frente. "O motivo comum é a indignação cidadã contra um país cada vez mais opressivo e retrógrado", avalia o crítico musical.

Não é de hoje que a música verbaliza o pensamento político de um tempo. Músicas como "Pra não dizer que não falei das flores" (Geraldo Vandré, 1968), "Apesar de você" (Chico Buarque, 1970), "Alegria, Alegria" (Caetano Veloso, 1970) e tantas outras denunciavam por metáforas a privação das liberdades e os abusos do Estado durante o regime militar. Canções de protesto forjaram a MPB, e os famosos Festivais da Canção com transmissão nacional popularizaram músicas e artistas.

Outros tempos, outras vontades

Hoje o cenário é outro: a lógica do mercado musical foi alterada, assim como a forma de consumir música. A reação é mais pulverizada e tampouco as metáforas são necessárias nos dias atuais para driblar censores. Chico César, por exemplo, faz críticas escancaradas no álbum "O amor é um ato revolucionário" — um trabalho que o artista define como uma obra de "verdades inconvenientes". Na letra do reggae "Pedrada", com um refrão que incita ao "fogo nos fascistas", Chico César sentiu a ira de quem discorda dele e foi atacado nas redes sociais.

"Eu não quero viver assim, mastigar desilusão
Este abismo social requer atenção
Foco, força e fé, já falou meu irmão
Meninos mimados não podem reger a nação"

("Menino Mimado", Criolo, 2019)

O trecho acima é cantado em ritmo de samba por um rapper e está tudo bem. Mano Brown, no fim de agosto de 2019, colocou os públicos do Rio de Janeiro e de Curitiba contra a parede, ao questioná-los sobre a votação de 2018 e tudo bem também. Representantes do rap, negros e provenientes da periferia paulistana, eles são, ao lado de outros nomes do rap, referências quando se fala em pautas identitárias.

Gabriel o Pensador é outro rapper que faz um desabafo sobre temas sensíveis em sua nova música, "Sobrevivente". "Historicamente temos um país muito problemático. Se as pessoas começarem a ficar ainda mais insensíveis, egoístas e cheias de ódio, os problemas só vão aumentar", disse ele em entrevista ao UOL.

"Penso que o rap é um dos gêneros que mais se manifestam política e socialmente", avalia Heloísa Aidar, diretora executiva da Altafonte Music e coordenadora geral da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo.

Palanque virtual e 24/7

Se não há espaço no mainstream, na internet há de sobra. Palco frequente de artistas com posicionamentos críticos às políticas do governo Bolsonaro, redes como Twitter e Instagram reverberam opiniões de músicos como Ana Cañas, Criolo e Maria Rita, por exemplo.

Outro recurso adotado por artistas de diferentes vertentes e estilos que as redes sociais amplificam é o uso das narrativas proporcionadas pelo audiovisual. Quem recorda o burburinho causado pelo clipe "This is America", do rapper Childish Gambino? A obra é carregada de críticas sociais e políticas e gerou uma série de debates nos EUA.

Nessa mesma linha, o clipe de "Flutua" (2017), de Johnny Hooker e Liniker, retrata a violência contra a comunidade LGBTQIA+. Um manifesto importante se lembrarmos que no Brasil ao menos uma pessoa é morta diariamente por causa da homofobia. Criolo, em "Boca de Lobo", segue a mesma linha ao mostrar a desordem social e econômica do país.

Pautas que podem parecer específicas e distantes das questões nacionais, mas não é bem assim. Heloísa Aidar, da Altafonte Music, diz que os temas defendidos pelos estratos marginalizados estão sendo atacados pelos discursos dos governantes, o que torna suas abordagens ainda mais necessárias e nacionais. "Sinto que na música, principalmente, quando sobe uma Liniker no palco, uma Pablo Vittar, as Bahias e a Cozinha Mineira ou o Johnny Hooker, temos ali figuras que têm seus corpos politizados. E eles em si já são um questionamento do velho pensamento", avalia.

"Nas veias abertas da América Latina
Tem fogo cruzado queimando nas esquinas
Um golpe de estado ao som da carabina, um fuzil
Se a justiça é cega, a gente pega quem fugiu"

("Sulamericano", BaianaSystem, 2019)

A temática, a origem e o perfil dos artistas engajados politicamente mudou. Na luta atual por direitos e mais visibilidade, muitas vozes vêm da periferia. Escutam-se vozes negras, feministas, LGBTQIA+ e muitas outras. Ana Cañas em "Todxs" propõe a reflexão de pautas que abraça -- mulher, bissexual e de esquerda -- num país que registrou aumento de 17% de mortes por feminicídio nos últimos cinco anos. A música de protesto que falava de "povo" ou "nação" como um todo agora se divide em várias lutas pelos marginalizados da sociedade.

"Será que pode um nordestino pobre
E uma menina classe média, sim
Juntar os trapos, romper as barreiras
De um país que ainda pensa assim"

("Primeiro Amor", Lucas Santanna e Duda Beat)

Mercado da lacração

À frente da Camará Produções, a empresária Amanda Souza critica o que chama de "panfleto music", que acabou virando um nicho de mercado. "O mercado da lacração, querendo ou não, rende visibilidade, convites para festivais", diz ela. O termo mercado da lacração ganhou conotação pejorativa nos dias atuais em razão de como os artistas foram alçados à categoria de vilões.

Para a produtora, há figuras politicamente atuantes no mercado musical, mas nem todos se dispõem a doar um dia de suas agendas para shows em prol de causas que apoiam no ambiente virtual. "É muito confortável dizermos que o posicionamento acontece só na bolha da música independente, enquanto no mainstream -- sertanejo e funk --, que efetivamente movimenta dinheiro no país, não se vê isso", diz Amanda.

"Aos idiotas falsos patriotas
Vendilhões do templo-nação
Digo: não
Aos canalhas e à toda tralha
Que odeia quem trabalha
Digo: vês chegará vossa vez
E a vocês restará o lixo da história"

("Cruviana", Chico César, 2019)

Para Heloísa Aidar, as novas tecnologias contribuem para que um maior número de pessoas tenha acesso aos materiais e as faça pensar. Mas o erro é acreditar que apenas isso seja suficiente. "Está cada vez mais difícil fazer com que as pessoas se manifestem de uma maneira efetiva, contundente e eficaz", resume a coordenadora geral da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo.

Para o crítico musical Tárik de Souza, ouvir as vozes inconformistas de ontem e de hoje é importante para que o país possa se reencontrar com sua própria história e cultura, numa sociedade tão pulverizada e polarizada politicamente. "Que caiam as mordaças", propõe.

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