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Por que estão cancelando Raul Seixas, que foi intimidado pela ditadura?

Trinta anos depois da sua morte, Raul Seixas é confrontado por episódio durante os anos de chumbo - Reprodução
Trinta anos depois da sua morte, Raul Seixas é confrontado por episódio durante os anos de chumbo Imagem: Reprodução

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

26/10/2019 04h00

Um episódio obscuro e inconclusivo, que teria acontecido há 45 anos, fez Raul Seixas ser "cancelado" em outubro de 2019. Não poderia ser diferente. O termo "cancelar" circula diariamente nas redes sociais, pronto para invalidar artistas e pessoas públicas com posicionamento considerado moralmente errado.

A suspeita de que Raul Seixas poderia ter entregado aos militares seu parceiro musical, o escritor Paulo Coelho, é levantada na nova biografia do baiano, "Raul Seixas: Não Diga que a Canção Está Perdida", do jornalista Jotabê Medeiros. A obra será lançada na próxima sexta-feira (1).

A informação foi antecipada pela Folha de S. Paulo na quarta-feira (23). Foi o bastante para que o roqueiro entrasse na mesma lista de personas non gratas que corre nas redes sociais e que já inclui personalidades como Anitta e, mais recentemente, MC Gui, ainda que Raul esteja morto há 30 anos e que a suposta delação teria acontecido no período mais repressor da ditadura militar no Brasil, em 1974. Não precisa nem usar o termo. Rapidamente, teve quem dissesse que nunca mais ouviria o artista depois de saber do episódio.

Paulo Coelho não confirmou nem negou a história. "Águas passadas não movem moinhos", disse em um tuíte, assim que a repercussão tomou as redes sociais. No primeiro "pedido" de cancelamento do antigo parceiro, no entanto, rebateu: "Não faça isso".

Paulo Coelho sabe bem que aquele era um tempo de exceção. Em um longo e doloroso artigo, publicado pelo jornal The Washington Post em março, para rebater os elogios feitos pelo presidente Jair Bolsonaro a um dos piores torturadores da época, ele relembra com detalhes as sessões de tortura pela qual passou. "Repito que assino o que desejarem, confesso o que quiserem, apenas me digam o que devo confessar. Eles ignoram meus pedidos."

Estado que cancela

"Isso de cancelar não é novo na música brasileira", observa ao TAB Bruno Baronetti, pesquisador da música popular brasileira na Universidade de São Paulo (USP). Nos anos de chumbo, era o próprio Estado quem cancelava os artistas. "Rolos de filmes eram confiscados, músicas não eram lançadas. Era outro contexto, e com pressão completamente diferente. A vida das pessoas realmente corria risco", explica o historiador.

Mas uma coisa era o mecanismo de censura, que picotava obras e tinha o poder de vetar músicas e discos. A outra era a polícia política. Com o AI-5 em vigor, um indivíduo podia ser intimado para depor e nunca mais voltar para a casa.

"Era o Dops que prendia, torturava, interrogava, às vezes podia processar ou não. Às vezes eram sequestros", observa Marcos Napolitano, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP).

Raul Seixas e Paulo Coelho entram na mira da repressão logo após "Ouro de Tolo" estourar nas rádios, em 1973. Com a popularidade em alta, a dupla passou a fazer passeatas no Rio de Janeiro e a distribuir um gibi-manifesto, "A Fundação de Krig-Ha", com mensagens contra o sistema, bancado pela gravadora Philips para a divulgação do LP "Krig-Ha, Bandolo". Os agentes da Polícia Federal viam ali material subversivo e uma mensagem clara contra o governo militar. A censura questionou algumas letras, mas liberou o primeiro disco de Raul. Já a polícia chamou Raul para prestar depoimento no Dops, o Departamento de Ordem Política e Social da ditadura militar.

Raul Seixas e Paulo Coelho durante passeata para divulgação de "Krig-Ha, Bandolo"  - Reprodução
Raul Seixas e Paulo Coelho durante passeata para divulgação de "Krig-Ha, Bandolo"
Imagem: Reprodução

A suspeita ventilada na biografia tem origem em um documento emitido pelo Dops no Rio de Janeiro. No parecer do pedido de busca na casa dos compositores, cujo assunto é descrito apenas como "Raul Seixas", Paulo Coelho é listado como militante do PCBR [Partido Comunista Brasileiro Revolucionário] — o escritor nega que tenha sido filiado do grupo —, enquanto sua mulher, Adalgisa, era ligada ao PC do B [Partido Comunista do Brasil]. Ambos eram tidos como foragidos.

As informações a respeito do casal são creditadas a Douglas Alberto Milne-Jones (cujo codinome supostamente era Geraldo). No entanto, uma referência a Raul levanta a suspeita: "É possível, por intermédio do compositor, localizá-los e prendê-los", diz o documento.

Mais à frente, um trecho descreve os dados solicitados com o pedido de busca: "Por intermédio do referido cantor, tentar localizar e prender Paulo Coelho e Adalgisa Rios". Poucas semanas depois, um grupo de homens armados invade o apartamento de Paulo Coelho. Ele é interrogado e fichado no Dops e passa por várias sessões de tortura, ao longo de duas semanas.

O documento está anexado na dissertação de mestrado do historiador Paulo dos Santos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Ao TAB, Jotabê Medeiros confirmou que é este o mesmo documento presente no livro. No trabalho acadêmico, PCBR está referendado como "PDBR", por erro de digitação do autor da tese ou no próprio documento.

Napolitano, porém, chama a atenção quanto à credibilidade dos documentos produzidos pela ditadura. "Não se pode tomar esses documentos ao pé da letra. Eles não eram redigidos apenas para produzir informação, mas para produzir culpa, para jogar um ator político contra o outro. Eles faziam muito isso", explica. "Já encontrei documentos da repressão que falam que o Caetano Veloso era do Partido Comunista."

Wilson Simonal foi "cancelado" pela classe artística nos anos 1970 após o boato de que teria delatado artistas ao governo militar - Divulgação
Wilson Simonal foi "cancelado" pela classe artística nos anos 1970 após o boato de que teria delatado artistas ao governo militar
Imagem: Divulgação

Fake news

Hoje sabemos que a própria polícia política produzia informações no mínimo questionáveis, graças à abertura desses arquivos e ao trabalho minucioso de órgãos como o da Comissão da Verdade, mas na época, nenhuma informação do que se passava nos interrogatórios era de conhecimento público.

Foi o que aconteceu com Wilson Simonal. Em 1972, ao ser acusado de delatar colegas da cena artística ao Dops, um dos cantores mais populares da música brasileira foi sumariamente "cancelado" pela mídia e pela classe artística.

Hoje considerado uma dos primeiros casos de fake news a circular no Brasil, a história foi publicada pelo jornal satírico "O Pasquim", com tiragem de 200 mil exemplares, abrangência ínfima se comparada ao que o Facebook tem hoje. "Desagravar Simonal era desagravar a ditadura", observa o jornalista Ricardo Alexandre, autor da biografia "Nem Vem que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal". "A grande comparação com a era das redes sociais é que os assuntos vão se arrastando uns aos outros. Um caso que não tinha a ver com delação acaba se transformando em delação."

Elis Regina também caiu em desgraça na mesma publicação, após participar das Olimpíadas do Exército, evento que integrava a Semana da Pátria, em pleno governo Médici (1969-1974). Ela ainda participou de um vídeo publicitário para divulgar o evento: "Nesta festa, todos vamos cantar juntos a música de maior sucesso neste País: o nosso hino. Pense na vibração que vai ser você e 90 milhões de brasileiros cantando juntos, à mesma hora, em todos os pontos do país", diz a cantora na peça, de acordo com seu biógrafo, o jornalista Julio Maria.

O cartunista Henfil chegou a colocar a cantora em um cemitério de mortos-vivos, em uma charge publicada no jornal. Elis sempre afirmou ter sido intimidada por agentes do Estado para aceitar cantar no evento.

Entretanto, a participação de artistas nos eventos cívicos era mais comum do que se imaginava. Nos anos de chumbo, Roberto Carlos foi condecorado com a Medalha do Pacificador, mas passou incólume ao cancelamento — institucional e midiático.

"Em relação ao Simonal, eu diria que todos, situação ou oposição, governo ou sociedade civil, militares ou artistas, viviam um momento excepcional do Brasil, onde as regras não só eram muito diferentes do que eram ordinariamente, como também podiam mudar a qualquer momento, especialmente a partir de 1968", observa Alexandre. "É muito difícil cobrar coerência, ou que as pessoas soubessem como agir no calor do momento numa situação como aquela."

Para o jornalista, no entanto, há alguns pontos que aproximam aquele momento da história do Brasil com o atual tribunal de milhões de juízes anônimos das redes, como aconteceu recentemente com Raul Seixas.

"No caso do Simonal, as pessoas se apropriaram [da suposta informação] para ostentar sua consciência social. Quão horrorizado você se mostrasse publicamente em relação ao Simonal dizia muito sobre sua consciência e sua luta pela liberdade e pelos direitos humanos, independentemente se você estivesse sendo leviano na sua afirmação", observa. "Hoje, essa construção perversa é muito maior. Hoje você não precisa do Pasquim, você é seu próprio Pasquim. As pessoas se apressam para referendar sua teórica consciência política condenando o Raul."

Na sua visão, sendo verdade ou não a suspeita sobre Raul, a ditadura mais uma vez manchou uma página da nossa história. "Eu não sei o quanto essa história mexeu na relação entre o Paulo e o Raul, mas se mexeu, já foi um grande desserviço à cultura popular brasileira. E mais, um grande desserviço à vida dessas pessoas."

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no 13° parágrafo desta matéria, o historiador se chama Paulo dos Santos, e não Paulo de Castro. A informação já foi corrigida.

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