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"Democracia em Vertigem" faz guerra de narrativas parar no Oscar

Parlamentares comemoram o impeachment de Dilma Rousseff no Senado - Alan Marques/Folhapress
Parlamentares comemoram o impeachment de Dilma Rousseff no Senado Imagem: Alan Marques/Folhapress

Marie Declercq

Do TAB

13/01/2020 18h39

Assim como grande parte das discussões que envolvem política no Brasil, a indicação do longa-metragem "Democracia em Vertigem" na categoria de Melhor Documentário no Oscar de 2019 dividiu opiniões.

Para uns, trata-se da confirmação em escala mundial de que o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016 configurou um golpe institucional. Para outros, o filme é uma narrativa fantasiosa sobre a ascensão da direita ao poder: basta ver o twitter oficial do PSDB parabenizando o filme "pela indicação de melhor ficção e fantasia".

Assim como fez em seus longa-metragens anteriores como "Elena" e "O Olmo e a Gaivota", a cineasta mineira Petra Costa narra os acontecimentos recentes do Brasil, da ditadura militar à redemocratização, de forma bastante pessoal. A documentarista foca a análise no percurso de seus próprios pais como militantes de esquerda durante a ditadura militar, e seus anseios sobre os acontecimentos políticos que culminaram na eleição de Jair Bolsonaro à presidência, em 2018.

Como narradora, Costa se compromete a contar a história a partir de seu lugar privilegiado, como parte da elite brasileira e de acesso amplo à alta cúpula do Partido dos Trabalhadores. Não só por meio de sua mãe, Marília Andrade, que nutre relação próxima aos líderes do PT, como Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, mas também como membro da família Andrade-Gutierrez, dona de uma das maiores construtoras do Brasil e também uma das investigadas na Lava Jato, citada negativamente no documentário.

Na imprensa internacional, o documentário foi bastante celebrado, especialmente pelo tom didático em explicar algumas particularidades da política brasileira para estrangeiros. Apesar da surpresa de Costa pela indicação ao Oscar, o longa-metragem já estava sendo muito bem avaliado em veículos como o jornal The New York Times.

No Brasil, a recepção ao documentário lançado pela Netflix foi diversa. Pouco tempo após o lançamento de "Democracia em Vertigem", uma reportagem apontou que a cineasta adulterou digitalmente uma fotografia, sem avisar o espectador.

A foto em questão mostrava Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar e Angelo Arroyo, dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) mortos pelos militares em dezembro de 1976. Ao lado dos corpos, duas armas foram plantadas pelos militares. No entanto, esses elementos foram apagados na edição do filme. Para Petra Costa, tratou-se de uma forma de homenagear Pomar, apontado como "mentor" de seu pai, e trazer uma "verdade" para o caso.

Mesmo que parte da crítica tenha mal avaliado a forma com que Petra Costa narra a história do Brasil recente — a diretora ignora a facada de Bolsonaro e menciona de passagem as marchas de junho de 2013 —, não é injusta ou descabida a indicação ao Oscar. Para Fernão Pessoa Ramos, professor de cinema documentário no Instituto de Artes da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a questão central de obras como as de Petra não é a busca pela verdade, mas sim novas proposições sobre um acontecimento.

Não há a obrigação de a cineasta ser um narrador confiável, representante de todo o Brasil, e a própria Costa aponta seu agendamento ao longo do filme. "Ela é uma ótima documentarista e isso vem de antes, já nos primeiros filmes dela, Não vou entrar na questão política, mas acho que o tom adocicado me incomoda. No meu ponto de vista, a primeira pessoa dela puxa um pouco pro sentimental para tentar "enganchar" [ganhar] o espectador. Isso poderia ter sido explorado de outras formas," defende Ramos.

O estilo de Costa remete diretamente a outras obras, como "Entreatos", de João Moreira Salles, onde o cineasta acompanhou os bastidores da campanha eleitoral que levou Lula à vitória em 2002. "A partir dos anos 1990 surge um estilo de documentário mais ensaístico, em primeira pessoa, que encara formas mais subjetivas de tratar os temas", diz o professor da Unicamp.

"Colar a verdade no documentário é complicado no meu ponto de vista. (...) São formas de contar uma história. O fato de você não concordar com a visão pessoal da Petra Costa não faz do filme uma 'ficção' ou mentira; ele segue sendo um documentário," explica.

A própria cineasta destacou que o que está sendo contado em seu longa parte de sua perspectiva, como disse em entrevista à Folha de S. Paulo. Para Ramos, também é necessário separar o documentário do jornalismo. "Meu ponto de vista é que documentário é uma arte, assim como a dança, a pintura, e tem que pensar nesse viés. A ética cobrada no jornalismo não é a mesma da do documentário. Não é porque você concorda ou discorda que deixa de ser documentário."