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Por que alguns famosos estão divulgando seus números de telefone

Diddy foi um dos famosos que divulgou seu número nas redes - Instagram/@diddy
Diddy foi um dos famosos que divulgou seu número nas redes Imagem: Instagram/@diddy

Luiza Pollo

Do TAB

07/02/2020 04h00

Se você pudesse mandar uma mensagem para o celular de Ashton Kutcher, o que diria? E Ellen DeGeneres, ou Amy Schumer? Bem, para quem mora no Estados Unidos ou no Canadá, já é possível conversar com diversas celebridades por mensagem de texto.

A palavra da vez é privacidade, reconhecem as redes sociais (Facebook que o diga), e não há nenhuma conexão online mais privada do que uma conversa exclusiva. Essa é a premissa do Community, a plataforma que permite essa interação de gente como a gente com pessoas famosas. Criado em 2019, o Community tem como um de seus investidores o próprio ator Ashton Kutcher, o primeiro famoso a chamar atenção para a plataforma.

No Twitter, ele publicou: "me manda uma mensagem, é mais fácil", seguido de um número de telefone com código de área de Iowa, estado onde nasceu e cresceu. Não precisamos nem dizer que um monte de gente desconfiou e achou que a conta tinha sido hackeada. As respostas foram dominadas por memes. Mas, no meio disso tudo, começaram a aparecer fãs confirmando que, de fato, o ator estava respondendo. Mandando até áudios personalizados — pasmem.

Autonomia ou marketing?

Ao fuçar as perguntas frequentes e os termos de uso do Community, fica claro que a plataforma é também uma ferramenta de marketing para figuras públicas — exceto para uso político, que fica proibido. Quem paga pelo serviço é a celebridade, e o preço varia com o número de inscritos no canal de comunicação. Os usuários pagam as taxas normais das operadoras pelo envio de SMS. Aqui no Brasil não foi possível conversar com Kutcher. Ao mandar uma mensagem de texto para o número do ator, TAB recebeu como resposta a informação de que o serviço não estava disponível no país, mas que poderíamos clicar num link para que o contato ficasse salvo e "conversássemos depois".

Com as redes sociais como Twitter ou Instagram, os famosos ganharam autonomia sobre o que queriam compartilhar com os fãs. Sem a mediação de revistas, sites ou programas de fofoca, eles puderam publicar suas próprias curadorias da vida pessoal — além de publicidade. Mas aí vieram os algoritmos e as frequentes críticas às redes. Enquanto muitos fãs nem veem os posts dos ídolos por uma questão de ranqueamento, o Community se apoia no dado de que 90% das mensagens de texto são lidas apenas três minutos após o recebimento. Ou seja, alcance garantido.

"Estou aqui sentado, pensando: estou prestes a entrar em uma nova era da minha vida e vou fazer muitas coisas positivas, disruptivas. Muitas coisas que eu não quero que todo mundo, tipo todo mundo, fique sabendo", disse o rapper Diddy em um vídeo postado no Instagram. "No 'gram todo mundo sabe de tudo. E eu quero uma conexão mais profunda com meus fãs." No fim, ele diz: "cara, vou dar a p* do meu número: 917-746-1444".

O rapper explica que, com esse número, vai poder avisar os fãs de cidades específicas sobre shows, convidá-los a festas, compartilhar novidades, receber currículos e responder a perguntas. O telefone seria para "família, amigos" e basicamente quem mais quiser.

Contato "autêntico"?

O tom usado por Diddy, Kutcher e outros famosos ao revelar o número, como se estivessem passando uma informação secreta ou refletindo se realmente deveriam compartilhar algo supostamente tão pessoal com o público é encenado. Nenhum desses números corresponde à linha pessoal das celebridades. Veículos como o The New York Times e a Fast Company relatam que, quando você tenta fazer uma ligação, ouve uma mensagem automática avisando que aquela linha é apenas para mensagens de texto.

Mesmo o Community admite que a conta pode ser administrada por alguém da equipe, e não necessariamente pela celebridade — apesar de algumas delas, como Amy Schumer, afirmarem que são elas próprias que respondem. No fim das contas, a verdade é que muita gente fica sem resposta e parece meio frustrada.

Mas isso não significa que aquela conexão será menos importante para os fãs, observa Tiago Monteiro, professor do Curso de Produção Cultural do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ). "Há certos níveis de relações que são fundamentalmente simbólicas. Não é necessariamente com a pessoa física, mas muito mais com a persona artística, uma representação", afirma.

Monteiro explica que criar essa sensação de aproximação do público com os artistas é uma estratégia antiga da indústria cultural. "Essa plataforma tem seus antecedentes porque também reencena essa reaproximação, sempre sob a supervisão, sob a égide da indústria e do mercado — de quem cria essas relações."

Sim, Monteiro fala em reaproximação entre consumidores e produtores de conteúdo artístico porque a distância entre eles já foi menor. O pesquisador resgata conceitos do estudioso de música e sociedade Simon Frith para lembrar que nem sempre na história atribuímos autoria às obras. "Houve um momento em que a relação entre quem produzia e quem consumia arte não era uma de separação", afirma ele. Músicas eram passadas de geração em geração, e pertenciam a determinada cultura. "A partir do momento em que você começa a identificar e atribuir autoria para a obra e começa a criar formas de reproduzir mecanicamente essa obra, você acaba aumentando essa distância."

Do ponto de vista psicológico, a atração que temos pelos astros tem tudo a ver com o próprio termo da astronomia. "Astro e estrela são objetos que têm luz que irradia. Quando me aproximo, é como se a luz que sai deles me iluminasse também", compara Liliana Liviano Wahba, professora da pós-graduação em Psicologia Clínica na PUC-SP. Há, portanto, uma "busca psíquica" de aproximação com os astros.

Shows fazem isso muito bem: colocam ídolo e fãs no mesmo espaço físico. Pista premium, espaço VIP e camarote conferem ainda mais proximidade — e cobram por isso. Um passo a mais é o "meet and greet", quando fãs pagam para conhecer a celebridade ao vivo. E não precisa nem ser um grande artista da música ou do cinema. Influenciadores digitais também capitalizam suas imagens dessa forma.

Wahba explica que essa relação pode ser positiva ou negativa, dependendo do grau de envolvimento do fã com o famoso. "Se eu exagero na ilusão de que vou me comunicar diretamente com o astro, pode se criar uma frustração, já que obviamente essas pessoas vão responder a algumas mensagens, mas não todas, e nem sempre de forma direta", observa a psicanalista junguiana. Por outro lado, a sensação de proximidade pode fazer bem — sentir-se informado sobre shows exclusivos, ter certa correspondência, faz o fã se sentir importante.

E isso pode ser positivo principalmente para os jovens, afirma Wahba. Ter modelos inspiradores a seguir é importante, e o interesse por algum famoso pode até criar grupos em torno de uma identidade comum. No entanto, buscar "a luz" dos astros para te iluminar quando adulto pode ser um pouco mais complicado, principalmente se isso se transformar em idolatria.

"Uma pessoa mais velha já tem noção um pouco mais clara de sua identidade e espera-se que ela transite com seus semelhantes e possa trocar luzes — ter admiração em um trabalho legal, por exemplo", analisa a psicanalista. "É possível gostar, sim, admirar um ator ou uma atriz. Mas acho que o limiar é quando passa de admiração para idolatria. É uma linha tênue."