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Como o novo filme de Ken Loach retrata a crise inglesa para além do Brexit

Cena de "Você não estava aqui" (2020), de Ken Loach - Divulgação
Cena de "Você não estava aqui" (2020), de Ken Loach Imagem: Divulgação

Leticia Sepúlveda

Colaboração para o TAB

27/02/2020 04h00

"Você não estava aqui", novo filme do diretor inglês Ken Loach, é um soco no estômago de quem ainda encara com bons olhos os empregos sob demanda da era digital. Como fez em "Eu, Daniel Black", o cineasta critica o ultraliberalismo e suas formas modernas de exploração do trabalho, assim como a degradação da rede de proteção social britânica. O dado novo é o filme coincidir com o período de transição do Brexit — a situação da "Inglaterra profunda" já está difícil, mas em breve, esse quadro pode se alterar ainda mais.

Ken Loach é um velho conhecido do Festival de Cannes. Ganhou a Palma de Ouro duas vezes. A primeira em 2006, com "Ventos da Liberdade", e a segunda, em 2016, com "Eu, Daniel Blake". "Você Não Estava Aqui", que estreia nesta quinta-feira (27) no país, foi um dos grandes favoritos na edição de 2019, e gerou comoção entre os presentes.

O longa conta a história de Rick (Kris Hitchen), um pai de família de Newcastle que compra uma van para virar entregador autônomo. Com a expectativa de ser seu próprio chefe, passa a trabalhar exaustivamente. O novo emprego altera sua vida e a dinâmica da família, que anos antes já havia perdido a casa em meio à crise econômica e a falência dos bancos.

Logo nos primeiros minutos, ouvimos do empregador que Rick não trabalhará para ele, mas com ele. A frase é um clichê da "gig economy" ("economia de bicos", em tradução livre) e reflete a crise econômica britânica atual. Em 2007, a gig economy empregava 200 mil pessoas no Reino Unido; dez anos depois, o número era de 1,8 milhão de empregados em postos precarizados. Os dados são de uma pesquisa desenvolvida pelo especialista em empregos, Andreas Giazitzoglu, com pós-doutorado pela Universidade de Newcastle, e pelo professor de educação e justiça social da Universidade de Huddersfield Robert MacDonald.

A produção também se destacou na avaliação da crítica britânica. De acordo com reportagem do The Guardian, "muitas pessoas irão ver esse filme como um retrato dos problemas reais que as pessoas enfrentam (...) essa produção brilhante focará pensamentos." Para o jornal Independent, "o filme captura brilhantemente a alienação e a angústia existencial que seus personagens principais sentem."

Uma era de pessimismo

Em entrevista ao El País, Ken Loach disse não acreditar que a saída do Reino Unido da União Europeia irá alterar esse quadro. "O Brexit é absurdo, porque os grandes problemas das pessoas, como o trabalho precário, a pobreza, a insegurança, a falta de moradia e o colapso dos serviços públicos não serão solucionados."

No período pós-Brexit, Ruy Braga, especialista em sociologia do trabalho e professor da USP (Universidade de São Paulo), prevê que "a economia inglesa vai atravessar um período agudo de turbulência". "A tendência é que se aumente a desigualdade social e estes postos de trabalhos ligados a 'gig economy'."

O pesquisador e professor do curso de Relações Internacionais da FAAP, Carlos Gustavo Poggio, pensa diferente. Ele acredita que ainda é cedo para falarmos em consequências socioeconômicas da saída do Reino Unido da União Europeia. "Questões relacionadas a subempregos são muito mais profundas que o Brexit em si. Elas se relacionam mais com as transformações da economia atual. Nós estamos passando da fase industrial para a fase pós-industrial."

Cena de "Você não estava aqui" (2020), de Ken Loach - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

"Em comparação a outros países europeus, como a Alemanha e a França, o Reino Unido sempre teve uma legislação trabalhista mais flexível. Entretanto, a era do trabalho seguro, em que você fica em uma mesma empresa por muitos anos até se aposentar, já acabou", aponta.

País envelhecido

Para escapar do desemprego, Abby (Debbie Honeywood), esposa de Rick no filme, também trabalha informalmente como cuidadora de idosos. Segundo o relatório "Later Life in the United Kingdom 2019", feito pela instituição de caridade Age UK, 3,8 milhões de britânicos com 65 anos ou mais vivem sozinhos. O envelhecimento da população britânica poderá sobrecarregar o NHS (National Health Service), o SUS inglês.

Os idosos votaram em peso pela saída do Reino Unido da União Europeia. Para os mais conservadores, a ideia de retomar a soberania do país, o protagonismo na Europa e as promessas de mais investimentos em serviços básicos falaram mais alto na hora de tomar uma decisão sobre o Brexit.

Aos jovens inseridos na "gig economy", a crise vai bater pesado; a rede de seguridade social esgarçou demais. "As pessoas que trabalham informalmente não recebem o suficiente para guardar dinheiro e ter uma aposentadoria confortável no futuro. Os britânicos estão em uma sinuca de bico", afirma a pesquisadora e professora de economia da PUC-SP Leslie Beloque.

As perspectivas também não animam. Hoje, o teto da pensão oferecida aos aposentados britânicos é de 129,20 libras por semana (cerca de R$ 2.900 por mês). Em 2037, a idade mínima para receber o benefício deve aumentar de 67 para 68 anos. A mudança originalmente estava programada para acontecer entre 2044 e 2046.

De acordo com o então ministro de trabalhos e pensões, David Gauke, a medida iria permitir ao país uma economia de 74 bilhões de libras entre os anos de 2045 e 2046. No mesmo período, os dados oficiais também apontaram que, até 2042, o número de beneficiários da pensão estatal aumentará para algo entre 12,4 e 16,9 milhões de pessoas.

Carolina Pavese, especialista em estudos europeus e professora de Relações Internacionais da ESPM, explica que no contexto das aposentadorias, o Brexit também traz seus impasses.

"A União Europeia tem um acordo que permite que a população do bloco trabalhe e contribua com a aposentadoria em outros países membros. Assim, esse mesmo tempo de contribuição é aceito também na nação de origem, não se perde. Agora com o Brexit, não sabemos como fica essa questão."

"Este é um ponto bem importante e polêmico, porque estamos falando de milhões de europeus que residem no Reino Unido e que, em sua maioria, são pessoas em idade economicamente ativa", conclui ela. De acordo com dados publicados em 2018 pelo Escritório Nacional de Estatísticas do Reino Unido, 784.900 britânicos viviam em países do bloco até 2017. Segundo a organização The 3million, formada depois do primeiro referendo sobre o Brexit, em 2016, há pelo menos 3 milhões de europeus vivendo no Reino Unido.