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Collor x Bolsonaro: 'apagão' do cinema brasileiro pode se repetir?

Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) - Reprodução
Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) Imagem: Reprodução

André Bernardo

Colaboração para o TAB

15/03/2020 04h00

O casal Luiz Carlos e Lucy Barreto estava em Los Angeles quando a bomba estourou. Foi Cacá Diegues quem, do Rio de Janeiro, pegou o telefone e deu a notícia: Fernando Collor de Mello, entre confisco de poupança e congelamento de preços e salários, tinha decretado o fim da Embrafilme e de outros 23 órgãos públicos.

Apesar do susto que levou, Barreto ainda tentou fazer graça: "O culpado disso é você, Cacá, que demitiu o Collor da função de assistente de produção do filme Joanna Francesa!". Mas a situação era grave. "O impacto foi muito grande porque todos os nossos filmes, incluindo Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) e Bye Bye Brasil (1980), eram distribuídos e comercializados no exterior pela Embrafilme. Para não fechar as portas, passamos a contratar filmes europeus e chineses, e comercializá-los no mercado brasileiro", recorda Luiz Carlos Barreto.

Cacá Diegues não teve tanta sorte. Um dos mais importantes nomes do Cinema Novo, o diretor de Xica da Silva (1976), Chuvas de Verão (1978) e Bye Bye Brasil (1980) se viu obrigado a encerrar as atividades de sua produtora. "Eu não tinha mais onde buscar recursos para fazer filmes", admite o cineasta. "Além de acabar com a Embrafilme e de não colocar nada em seu lugar, Collor acabou com todas as leis de apoio e incentivo ao cinema nacional. Ele nos deixou sem perspectivas de futuro".

A Empresa Brasileira de Filmes S.A. ou, simplesmente, Embrafilme foi criada em 12 de dezembro de 1969, durante a ditadura militar, com o objetivo de estimular a produção cinematográfica nacional. Ao longo de seus 21 anos de existência, a estatal chegou a lançar mais de 100 títulos por ano. Até o dia de sua extinção, em 16 de março de 1990, ajudou a financiar, produzir e distribuir alguns dos maiores campeões de bilheteria do cinema brasileiro. Três dos dez filmes nacionais mais vistos de todos os tempos são daquela época: Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto, com 10,7 milhões de espectadores; A Dama do Lotação (1978), de Neville d'Almeida, com 6,5 milhões; e Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão (1977), de J.B. Tanko, com 5,7 milhões.

"Foi uma tragédia sem igual"

Com o fim da Embrafilme, a produção nacional despencou de 17 filmes lançados em 1989 para apenas três em 1992. Sem ter onde ou como trabalhar, muitos profissionais investiram em outras áreas. Tizuka Yamasaki foi uma delas. A diretora de Gaijin - Os Caminhos da Liberdade (1980), Parahyba Mulher Macho (1983) e Patriamada (1984) migrou para a TV. Em 1991, dirigiu a novela Amazônia, na extinta Rede Manchete. "O escritor Márcio Souza tinha escrito por encomenda o livro O Brasileiro Voador sobre o Pai da Aviação e eu estava dando início à produção. É claro que tive que cancelar tudo. Foi uma tragédia sem igual", define a cineasta.

Se Tizuka Yamasaki começou a fazer TV, Cacá Diegues partiu para a publicidade. De quebra, assinou a coprodução de alguns documentários com a TV francesa. "Fiz coisas das quais me orgulho e outras que preferia não ter feito. Mas nunca fiz nada que não estivesse de acordo com as minhas ideias", avalia o diretor. "Posso não ter feito apenas o que queria, mas nunca fiz o que não queria".

Quem também passou apuros foi o casal Mariza Leão e Sérgio Rezende. "Embora nossa produtora fosse pequena, tivemos que desmontar a sede, demitir pessoal e trabalhar de casa", relata Mariza Leão, produtora de O Sonho Não Acabou (1982), O Homem da Capa Preta (1986) e Doida Demais (1989), todos dirigidos pelo marido, o diretor Sérgio Rezende. Para produzir Lamarca (1994), Mariza precisou fazer um financiamento no banco e, como garantia, hipotecou um apartamento da família. "Reagi ao fim da Embrafilme com indignação", recorda a produtora. "Não podemos achar normal fatos autoritários e desprovidos de qualquer lógica ou bom senso".

"Foi um processo difícil, porém vitorioso"

Cineastas, roteiristas e produtores, entre outros profissionais da indústria cinematográfica, só começaram a acordar do pesadelo em 1993, quando foi criada a Lei do Audiovisual (8.685/93). Sancionada durante o governo Itamar Franco, permitia que pessoas físicas e jurídicas, que direcionassem recursos para projetos audiovisuais, tivessem abatimento ou isenção de tributos. "Só depois que a Lei do Audiovisual foi implantada é que conseguimos voltar a operar com normalidade e produzimos Guerra dos Canudos (1996)", afirma Mariza Leão.

Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995) - Foto: Divulgação - Foto: Divulgação
Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995)
Imagem: Foto: Divulgação

O ano de 1995 entrou para a história do cinema nacional como o ano da retomada. Foram lançados 12 filmes que, juntos, atraíram um público de 2,9 milhões de pagantes. Desses, 1,2 milhões assistiram a Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), uma comédia dirigida por uma cineasta estreante, Carla Camurati. O longa-metragem, estrelado por Marieta Severo e Marco Nanini, marcou o início de uma nova (e bem-sucedida) fase do cinema brasileiro."O Carlota começou a ser produzido sem nenhum incentivo de lei. Tínhamos apenas o prêmio de roteiro da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e patrocínio de empresas públicas e privadas. Eu apresentava o material filmado e fechava os patrocínios. Foi um processo difícil, porém vitorioso", avalia a diretora que, ao longo de oito meses de filmagem, reaproveitou praticamente tudo: dos cenários aos figurinos. Com um orçamento modesto de R$ 600 mil, Carlota Joaquina ficou quase um ano em cartaz e faturou dez vezes mais de bilheteria.

Outro "arrasa-quarteirão" do ano da retomada foi O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto, que levou 1,1 milhão de espectadores às salas de cinema. "O Quatrilho simbolizou outro renascimento do cinema brasileiro: o renascimento internacional", orgulha-se o produtor Luiz Carlos Barreto. "Na ocasião, chegou a ser indicado ao Oscar". Não foi o único. Naquela mesma década, O Que É Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, e Central do Brasil (1998), de Walter Salles, também concorreram à estatueta de Melhor Filme Estrangeiro.

O pós-apagão

Trinta anos depois do "apagão" do governo Collor, o cinema brasileiro volta a viver um período de incerteza. "É cedo para avaliar as consequências do governo Bolsonaro", pondera a produtora Mariza Leão. "Temos que aguardar a Agência Nacional do Cinema (Ancine) recompor sua diretoria e desejar que ela seja a mais técnica possível, com capacidade para fazer o que se espera dela: fomentar, fiscalizar e regular a atividade audiovisual".

O presidente Jair Bolsonaro já avisou que, se não for possível usar "filtros" nas produções nacionais, a Ancine, fundada em 2001, poderá ser extinta ou privatizada. "Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha", declarou em julho de 2019, durante um evento que comemorou os 200 primeiros dias de seu governo. "Não pode dinheiro público ser usado para fins pornográficos", acrescentou ele, embora nunca tenha visto o longa dirigido por Marcus Baldini e protagonizado por Deborah Secco.

"Mais uma vez, o poder arbitrário se volta contra a produção cinematográfica. A diferença é que Bolsonaro e seu pessoal não desejam que o cinema brasileiro acabe. Querem é que só se faça os filmes que eles aprovem. Um dirigismo típico de regimes autoritários"

Cacá Diegues

Os ataques de Bolsonaro ao audiovisual brasileiro não pararam por aí. Em dezembro, durante uma transmissão ao vivo na internet, o presidente defendeu a produção de filmes que interessem a população como um todo e "não as minorias" e, também, a redução gradual da "cota de tela", iniciativa que estabelece um número mínimo obrigatório de exibição de filmes brasileiros nos cinemas do país. "Obviamente que, fazendo bons filmes, não vamos precisar de cota mais. Há quanto tempo a gente não faz um bom filme no país?", questionou.

Apesar das críticas do presidente, o cinema brasileiro teve reconhecimento internacional em 2019. Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e Democracia em Vertigem (2019), de Petra Costa, são bons exemplos disso. Enquanto o primeiro ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o segundo foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Documentário.

"Atualmente, o cinema brasileiro recebe prêmios e aplausos nos mais importantes festivais. Além disso, nossos produtos conquistam um público cada vez maior, seja pela qualidade técnica, seja pela originalidade de nossas histórias. Somos cobiçados por grandes empresas, como HBO, Netflix e Globoplay, entre outras. Amamos o que fazemos e, por essa razão, resistiremos!", afirma a diretora Tizuka Yamasaki.