PUBLICIDADE

Topo

Compartilhar spoilers é parte da diversão assistindo a séries?

Assistir filmes e séries sem compartilhar spoilers virou teste de caráter - Foto: Georgia Vagim/ Unsplash
Assistir filmes e séries sem compartilhar spoilers virou teste de caráter Imagem: Foto: Georgia Vagim/ Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

11/03/2020 04h00

Atenção: este texto não contém spoilers de nenhuma obra citada

Segunda-feira no Twitter costumava ser sinônimo de uma coisa: discussão sobre "Game of Thrones". A série, exibida pela HBO até maio de 2019, fez eclodir nas redes (principalmente na de @jack) uma guerra de discursos. De um lado, aqueles que assistiam aos episódios no domingo à noite e queriam comentar nas redes sociais no dia seguinte. Do outro, os fãs que não conseguiam acompanhar assiduamente e eram metralhados com o pior dos medos do consumidor de entretenimento moderno: o spoiler.

Mas quando é que as surpresas do enredo de séries e filmes viraram uma discussão tão grande? Por que ninguém falava disso quando o brasileiro só via novela e, no máximo, um "Friends" no SBT?

O debate sobre tema é tão recente que o termo "spoiler alert" (alerta de spoiler) entrou para o dicionário de Oxford apenas em 2018. "Só quando as séries começaram a se popularizar, principalmente com a Netflix, o spoiler ganhou relevância. Todo mundo assistia às mesmas coisas juntos, e aí isso começou a se tornar um problema", observa Fernando Beretta del Corona, especialista em Televisão e Convergência Digital e que pesquisou a cultura dos spoilers de Game of Thrones no Reddit.

Del Corona explica que o uso de múltiplas telas — TV, celular, computador — tem papel central nisso. Assistir a uma série e comentar o episódio em tempo real nas redes sociais não era possível há alguns anos. Hoje, é difícil ver um episódio completo sem dar aquela olhadinha no celular. "Quando tinha um episódio novo de 'Game of Thrones', que foi a série que analisei, ele saía aqui e no mundo inteiro ao mesmo tempo. As pessoas viam em tempo real e comentavam, interagindo digitalmente", lembra.

O episódio de 28 de abril de 2019 ("A Longa Noite") quebrou o recorde de mais tuitado da história: foram quase 8 milhões de posts na rede social. Adivinha qual série tinha o recorde antes? Ela mesma, "Game of Thrones", com o primeiro episódio da última temporada.

Humberto Neiva, coordenador do curso de Cinema da FAAP (Faculdade Armando Alvares Penteado), em São Paulo, afirma que a cultura do compartilhamento é ainda mais presente entre os mais jovens. "A juventude é muito rápida e muito ansiosa, então ela pode revelar algo não por maldade ou para tirar o prazer do outro, mas para comentar alguma cena, um momento daquela obra com os outros." Não que ele seja a favor de contar uma surpresa de uma série ou filme. Pelo contrário. "Penso muito no spoiler como você ter o poder de uma informação e jogar com isso de uma maneira não muito ética. Você acaba estragando a experiência que o outro poderia vivenciar e não vai, porque já tem determinada informação sobre aquela obra."

Da revista de fofoca à timeline

Se é tão chato assim saber o final de uma história antes de assisti-la, como é que a gente explica o sucesso das revistas de fofocas, que revelam já na capa o que vai acontecer no próximo capítulo da novela, ou dos filmes clássicos que adoramos assistir de novo? E dos VTs de jogos de futebol, dos quais você já sabe o resultado e ainda assim sofre na hora de assistir?

É tudo uma questão de experiência, já que consumimos cada um desses produtos de maneiras diferentes, defendem os especialistas. As novelas, por exemplo, têm capítulos diários, sempre no mesmo horário. Pouca gente consegue ver tudo e, por isso, as revistas e sites que detalham o enredo fazem sucesso ao ajudar a recapitular a história para quem perdeu um pedaço, ou até mesmo preencher as lacunas de enredo que a pessoa não vai conseguir ver.

Por outro lado, uma série demora um mês e meio para lançar o mesmo número de episódios que uma novela passa em uma semana. Outros seriados, ainda, saem em temporadas completas nos serviços de streaming. Consequentemente, são consumidos em outro ritmo.

"Em uma série como 'Game of Thrones', todo mundo se junta para assistir e, no dia seguinte, fala sobre a série, esse evento social específico. Outra coisa é o binge watching (assistir a vários episódios na sequência). Sai uma temporada inteira, e ninguém vai conseguir ver com o mesmo ritmo, então vira assunto por alguns meses. É como se a temporada fosse o evento social que é um episódio", compara del Corona.

Netiqueta

Muito antes de "Game of Thrones", "Stranger Things" ou outras séries que fazem sucesso nas redes, "Lost" (2004 - 2010) foi uma das primeiras a ter seu universo expandido para a internet. Naquela época, as discussões ocorriam em fóruns, onde os fãs costumavam debater teorias e dissecar cenas em busca de pistas sobre o futuro do enredo.

Essa busca, explicam os especialistas, tem menos a ver com querer saber o fim da série e mais com compartilhar e conversar sobre a obra com outros fãs (e com a internet em geral) até a chegada do próximo episódio. Faz parte da experiência. Dentro das finadas comunidades do Orkut ou nos subreddits, os fóruns de discussão do Reddit, fica mais fácil controlar o que é dito ou não. "Cada um deles tem suas regras e etiquetas. Há tópicos específicos de discussão do episódio X ou Y", conta del Corona.

Fora desses espaços fechados, ele observa que a sociedade cria uma espécie de etiqueta para falar de séries ou filmes sem estragar a experiência por completo para os outros. Com a popularização das redes, essas regras não escritas se fazem mais necessárias, numa espécie de inteligência coletiva. "As pessoas meio que parecem saber o que podem ou não falar, e acham uma maneira de falar do assunto nas redes sem estragar. 'Você viu que loucura aconteceu ontem?', por exemplo. Acho que é uma regra não dita: passou X tempo, sei o que posso ou não fazer", diz o pesquisador. Faz parte da "netiqueta", a etiqueta da internet.

Mas tem horas em que fica difícil até mesmo definir o que é ou não spoiler. Um filme como "Parasita", por exemplo, tem fatores muito específicos que, se revelados, podem estragar a experiência do espectador que se ambientou com a história antes de assistir, observa João Caetano Feyer, diretor de cinema e sócio da produtora Hungry Man. Como fica, então, a divulgação de um filme como esse?

Feyer tem que lidar com essa questão no dia a dia. Para divulgar "O Rastro", seu thriller de 2017, ele conta que foram feitos dois trailers: um mais artístico, que entrega pouco da trama, e outro comercial, para mostrar o elenco e conquistar o público pelo mistério. O primeiro foi feito por uma empresa especializada em trailers, escolhida a dedo pela equipe, e exibido em festivais e eventos. O segundo, montado pela distribuidora do filme, tinha como objetivo a venda para o público mais amplo.

"Tem gente que acha que um bom trailer é um teaser. Se você tem uma boa história, um tom que quer construir, não precisa mostrar muito dos personagens, basta dar um gostinho", afirma. Um dos casos mais célebres de trailer-resumo é do filme "O Náufrago", que praticamente mostra o enredo todo em pouco mais de dois minutos.

Ainda assim, há filmes de que já conhecemos o final e ainda assim temos vontade de assistir. Neiva, da FAAP, acredita que o cinema vai muito além do roteiro. Apesar de ser totalmente contra o spoiler, ele defende que a experiência de um filme passa pela emoção ao assisti-lo, pela boa atuação, pela ambientação, o clima das cenas... "Acho que temos que ver uma obra com um papel de trazer referências, experiências, emoções que não necessariamente você vai sentir quando alguém te contar uma parte crucial da trama. Mesmo sabendo do spoiler, vou me emocionar muito mais ao ver aquela cena na obra completa, não quando é dita no ouvido."