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Fé e oração viram tábua de salvação e equilíbrio para enfrentar pandemia

Pela primeira vez na história, Papa reza sozinho na Praça São Pedro, no Vaticano - Reprodução/Vaticano
Pela primeira vez na história, Papa reza sozinho na Praça São Pedro, no Vaticano Imagem: Reprodução/Vaticano

Thiago Varella

Colaboração para o TAB

13/04/2020 13h00

Nos últimos dias, você deve ter visto alguma mensagem no WhatsApp ou post no Facebook pedindo para entrar em uma corrente de oração em determinado momento do dia para rogar a Deus proteção contra o novo coronavírus. Ou, quem sabe, para que o criador ilumine os cientistas para que encontrem logo uma cura ou uma vacina contra a doença.

Os católicos brasileiros, por exemplo, foram convocados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no último dia 18 para se unir em uma corrente de oração com o papa Francisco. Foi a chamada reza do "terço da esperança e solidariedade", transmitida por todas as rádios e TVs católicas do Brasil.

E não são só os cristãos que estão fazendo suas orações. Todas as segundas-feiras, praticantes do candomblé em todo o país rezam e fazem suas oferendas para Obaluaiê ou Omolu, o orixá das doenças e também da cura.

"A fé pode servir como um alívio, uma busca de amparo diante do desespero. Pode dar às pessoas uma sensação de segurança, proteção e de não estarem sozinhas. A pessoa que tem essa fé consegue ter amparo. A fé tem essa capacidade de dar esse alívio ao crente", afirmou o professor Vitor Barletta Machado, doutor em sociologia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Praticantes das religiões de matrizes africanas também se apoiam na fé para lidar com a ameaça no novo coronavírus. "A fé do ponto de vista do equilíbrio emocional e psíquico nos devolve a possibilidade do equilíbrio. Eu acredito que quando se tem fé, a gente atravessa esses momentos de profundo desafio com mais tranquilidade, serenidade e mais calma. É o que a humanidade precisa para que consiga manter o discernimento", afirmou o babalorixá Rodney de Oxóssi, que também é antropólogo e doutor em Ciências Sociais.

Salvação em tempos de coronavírus

Para a professora Blanches de Paula, pastora metodista, psicóloga e doutora em Ciências da Religião, as pessoas de fé estão com uma oportunidade de vivenciar a salvação de maneira concreta.

"As pessoas pensam em salvação como algo que vem após a morte. A origem da palavra, no entanto, está ligada a shalom, que é paz em hebraico, e a saúde. Essa paz é algo que você vivencia, não é ficar descansando, mas é ser sábio diante de situações críticas e de tensão. Ou seja, ao pensar em salvação, é possível pensar em enfrentar a realidade com sabedoria para se ter saúde", disse.

29 mar. 2020 - Movimentação no Templo de Salomão, região central de São Paulo - André Lucas/UOL - André Lucas/UOL
29 mar. 2020 - Movimentação no Templo de Salomão, região central de São Paulo
Imagem: André Lucas/UOL

No entendimento da professora Blanches, não faz sentido uma fé de espera, de aguardar por algo mágico. Se orar é algo fundamental no exercício da fé, agir também é. E, no caso do novo coronavírus, ação significa se preservar, se cuidar, ouvir e acatar o que as autoridades médicas têm a dizer. "A fé que não toca a existência é manca. A vivência da fé me ajuda a lidar com a dúvida, as incertezas, com aquilo que eu não consigo controlar. Ela me põe na realidade e me ajuda a lidar com a realidade", afirmou.

Já a oração caminha junto com quem tem fé. Orar, para Blanches, é terapêutico. É expressar suas angústias, tristezas e expectativas em um diálogo com o sagrado, com o divino, com Deus. "Ao orar, você acredita que pode ter suas esperanças e sua salvação renovadas. Não é errado se lamentar na oração, porque acredito que o lamento vem repleto de esperança", disse.

Relação entre fé e cura é antiga

Então, se a fé traz salvação, e a oração traz esperança, por que ao conversar com Deus ele simplesmente não elimina o agente infeccioso e restabelece a ordem no planeta? Bem, antes de responder à pergunta, é curioso dizer que essa relação entre fé e cura é pra lá de antiga. Quem afirma é Ceci Baptista Mariani, doutora em Ciências da Religião e professora na pós-graduação da PUC-Campinas.

A história das religiões mostra que não é possível desatrelar a saúde física da espiritual, assim como não se pode trabalhar a salvação da alma sem considerar a saúde total da pessoa
Ceci Baptista Mariani, professora de Ciências da Religião

No mundo antigo, segundo ela, doença é desordem, é possessão e é castigo dos deuses imposto aos pecadores. Na Mesopotâmia, por exemplo, os médicos recorriam aos métodos divinatórios para descobrir o pecado cometido pelo doente.

Mariani conta que mesmo na Bíblia, o livro sagrado dos cristãos, no livro de Levítico, a lepra era a doença dos impuros e a identificação entre a doença e o pecado justificou exclusões, condenações e perseguições.

Doença não é castigo divino

Mas, na mesma Bíblia há o livro de Jó, que, segundo a professora, é exemplar para ajudar na reflexão sobre a relação entre fé e cura. Jó tem de enfrentar provações como a perda de seus bens, dos filhos e uma doença maligna. Mas ele reage contra a concepção de que o mal e o sofrimento são castigos divinos pelo pecado cometido.

"O livro de Jó ensina que o humano deve buscar o sentido da doença além dos limites de uma teologia da retribuição que afirma que o justo é recompensado pelo bem-estar e a saúde, e que o pecador é castigado com pobreza e doença", explicou Mariani.

O livro de Jó não dá uma solução ao problema do mal e do sofrimento, mas supera a falsa imagem de Deus e à compreensão de que é possível recorrer a recursos mágicos para encontrar o alívio para o sofrimento.

"Nesse sentido é que a oração tem poder, isto é, quando nos retira do âmbito da preocupação exclusivamente individual e nos coloca diante de um criador, nos irmana a todos na participação de seu projeto de salvação integral", disse Mariani.

Fé não é magia

Claro que há quem recorra à fé como algo mágico que pode salvar qualquer pessoa de qualquer doença e que, por isso, não adianta nada ouvir o que os médicos, os cientistas ou o que qualquer especialista tem a dizer.

"Infelizmente, existe uma parcela de gente que tenta vivenciar a fé de maneira verticalizada, individualista. E isso vai prejudicar a pessoa e as igrejas que seguirem esse caminho. Acreditam que Deus vai criar uma bolha protetiva, não aguentam ser questionados e tendem a culpabilizar o outro", disse Blanches de Paula. Para ela, essa é uma fé que só inclui a dimensão do ganho e se esquece da perda, do sofrimento, que está presente mesmo na vida de quem acredita no divino. "Na fé dessa pessoa não cabe o limite, o sofrimento. E, por isso, é perecível. Quando vivencia a dificuldade, ela abandona a fé", afirmou.

Deixar que a fé substitua os conhecimentos acumulados pela sociedade por meio da ciência é um risco muito grande para o professor Vitor Barletta Machado. Segundo ele, não dá para achar que a oração é suficiente para se livrar de um problema ou uma doença como o novo coronavírus.

"O crente tem que entender que a ciência é uma das formas de Deus agir no mundo. A ciência é uma forma de você ter acesso a uma proteção divina, na medida em que homens são seres divinos e que exercem a vontade de um criador", disse.

Templo fechado, igreja aberta

Artigos religiosos como velas, imagens e terços são formas de levar a religião para qualquer lugar, ainda que longe do templo - Daniele Levis Pelusi/ Unsplash - Daniele Levis Pelusi/ Unsplash
Artigos religiosos como velas, imagens e terços são formas de levar a religião para qualquer lugar, ainda que longe do templo
Imagem: Daniele Levis Pelusi/ Unsplash

Outro risco é o de achar que a igreja precisa de um templo aberto para existir. Ou que quem crê precise estar em um prédio para exercer sua fé. Para impedir aglomerações e tentar conter o crescimento do número de casos do novo coronavírus, autoridades determinaram o fechamento de templos religiosos em diversas partes do país.

"O templo está fechado, mas a igreja não. O templo é onde a gente está. As igrejas do cristianismo começaram em casa. Era uma dimensão de diálogo e conversas. Depois é que surgiram os templos", afirma Blanches de Paula.

Doença dá possibilidade de restauração

O candomblé se relaciona com a doença de forma diferente do cristianismo. Obaluaiê ou Omolú é o orixá das doenças e, ao mesmo tempo, também o da cura. É ele quem, em um momento de pandemia, por exemplo, dá a possibilidade da restauração à humanidade.

"Omolú nos revela que ter saúde é a maior riqueza. E é justamente por meio dessa riqueza que ele mostra seu poder, pois ele nos livra das dores, das doenças, das epidemias, ele nos ensina a agir com solidariedade e empatia. A grande lição que a gente tira da pandemia é restaurar os sentimentos de solidariedade e empatia que estão perdidos na sociedade", explicou Pai Rodney de Oxóssi.

Segundo Rodney, Obaluaiê vem cobrar respeito em uma pandemia como a do novo coronavírus e nos avisa que a sociedade está doente. "Obaluaiê tem como saudação 'atoto', que quer dizer 'silêncio'. A doença é momento de recolhimento, de reflexão, sobretudo as epidêmicas. Elas nos fazem praticar o recolhimento. Obaluaiê nos faz descobrir o valor da vida, do cuidado com a saúde, o valor do ser humano, do criador e dos orixás. E a doença nos ensina que saúde é um bem precioso. Nesses tempos, a gente precisa pensar se a lógica consumista de acumulação de bens e capital vale a pena", disse.

No espiritismo, fé dá suporte às ações

O Brasil é o país com o maior número de espíritas no mundo e, na crise da covid-19, eles também recorrem à fé como ajuda no combate à doença.

Segundo Eduardo Miyashiro, diretor-geral da Aliança Espírita Evangélica, a fé, no espiritismo, dá suporte às atitudes de confiança, superação, aceitação e esperança.

"A fé causa efeitos no equilíbrio da mente e no funcionamento adequado do corpo. O isolamento, o medo da dor e da morte, as perdas e outros choques emocionais são fatores que acabam por afetar a saúde. As atitudes baseadas na fé ajudam a manter este complexo equilíbrio que é a vida humana, permitindo melhor nível de imunidade ou ajudando na recuperação das enfermidades", afirmou.

Na doutrina espírita, a fé pode levar à cura das doenças como fator de reequilíbrio da combinação entre alma, mente e corpo. Além disso, o espírita acredita no poder da intercessão divina, que é o resultado da solidariedade de seres mais evoluídos que, tendo mais conhecimento, podem utilizar suas capacidades para colaborar na recuperação da saúde.