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Por que Sergio Vieira de Mello seria um líder crucial em tempos de pandemia

Edison Veiga

Colaboração para o TAB, de Bled (Eslovênia)

17/04/2020 04h00

A Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), reunida em 19 de setembro de 2003, teve clima de luto. Exatamente um mês antes, um atentado terrorista havia destruído o hotel que sediava as operações do órgão em Bagdá, no Iraque. Foram 22 mortos, entre eles o alto comissário Sergio Vieira de Mello, então titular do cargo, o mais alto já ocupado por um brasileiro.

Era simplesmente "o Sergio", como ressaltou o então secretário-geral, Kofi Annan, em seu comovente discurso de abertura daquela enlutada reunião. "Hoje compartilhamos nosso choque e tristeza pela perda de pessoas que amamos. Todos eles deixam um vazio enorme", disse Annan, lendo um a um os 21 nomes das vítimas, antes de dedicar algumas palavras especiais ao brasileiro. "Finalmente, Sergio, meu querido amigo. Por que nunca parecia cansado, mesmo trabalhando 18 horas por dia? Por que nunca ficou doente? Por que nunca ficou mal humorado?"

"E você era o único alto funcionário da ONU conhecido apenas pelo seu primeiro nome. Mesmo para quem não o conhecia pessoalmente, você era simplesmente o Sergio", comentou Annan.

A história desse diplomata brasileiro se tornará ainda mais conhecida a partir desta sexta-feira (17), quando estreia na Netflix a cinebiografia "Sergio", produção norte-americana dirigida por Greg Barker. O ator Wagner Moura vive o protagonista.

Nascido no Rio em março de 1948, Sergio era filho de uma professora, Gilda dos Santos, e um diplomata, Arnaldo Vieira de Mello. "Os Vieira de Mello levavam uma vida itinerante típica das famílias de diplomatas. Em 1950, Arnaldo, então com 36 anos, mudou-se com a esposa e os dois filhos da Argentina, onde Sergio passara seus primeiros dois anos, para Gênova, na Itália", escreve a diplomata norte-americana Samantha Power, ex-embaixadora dos Estados Unidos na ONU, na biografia "O Homem Que Queria Salvar o Mundo". "Em 1952, retornou ao Brasil, onde Sergio viveu até quase os seis anos de idade."

O pai voltaria a trabalhar na Itália, no consulado brasileiro em Milão, onde decidiu matricular os filhos na escola francesa local. "Em 1956, ano da crise do Canal de Suez, a família morou em Beirute, no Líbano, e, em 1958, fixou-se enfim em Roma, onde moraram por quatro anos — uma das permanências mais longas de Sergio numa só cidade em toda a sua vida", relata Power.

Findo o período, voltaram ao Rio. As andanças da família foram interrompidas por um período quando Arnaldo acabou designado para o consulado brasileiro em Nápoles, no fim de 1963. Sonia, irmã de Sergio, tinha se casado e esperava um bebê. Sergio estudava no Liceu Franco-Brasileiro, no Rio. Arnaldo foi cumprir a missão e deixou a família no Brasil.

Foi sob esse contexto que a família Vieira de Mello viveu o início da ditadura militar brasileira. Aos 17 anos, Sergio concluía o colégio e havia decidido: estudaria filosofia. "Sergio havia estudado filosofia no ensino médio e, numa redação no seu último ano, refletiu sobre os fundamentos de um mundo justo, que, segundo ele, tinha sua raiz não na moralidade religiosa, e sim nas 'ideias mais objetivas de justiça e respeito'", conta a biógrafa Power. "A política internacional não diferia do intercâmbio social, ele escreveu, na medida em que a chave dos veículos amigáveis estava no que denominou 'autoestima individual e coletiva'. Somente então a estabilidade poderia se basear 'na paz e compreensão, e não no terror'". Começou os estudos na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Àquela altura, seu pai havia acabado de assumir novo cargo: era cônsul-geral do Brasil em Stuttgart, na Alemanha.

Frustrado com o início do curso, perguntou ao pai se não poderia passar um tempo na Europa — e, no Velho Mundo, estudar. Arnaldo assentiu. Matriculou-se na Universidade de Friburgo, na Suíça. Um ano depois, candidatou-se a uma vaga na Sorbonne, em Paris. Conseguiu o posto. "Foi na Sorbonne, estudando com o lendário filósofo moral Vladimir Jankélévitch, que Sergio recebeu uma introdução mais profunda a Marx e Hegel e proclamou-se um estudante revolucionário", escreve Power.

Sergio nas ruas

Era o começo de algo que se tornaria corriqueiro na trajetória de Sergio: participar de episódios históricos da humanidade. "Ele esteve nos principais conflitos da segunda metade do século 20", afirma ao TAB o jornalista e historiador Wagner Sarmento, autor da biografia "Sergio Vieira de Mello: o legado de um herói brasileiro". "É impossível falar do Sergio, o homem, dissociando-o dos momentos históricos."

Assim, naquele maio de 1968, Sergio era um dos 20 mil estudantes que ocupavam as ruas de Paris exigindo voz ativa e defendendo a abolição do "establishment capitalista", nas palavras de Power. "No pior conflito visto em Paris desde 1945, a polícia antidistúrbio atacou as barricadas dos estudantes com gás lacrimogêneo, canhões de água e cassetetes e prendeu, além de Vieira de Mello, quase 600 outros manifestantes", conta a diplomata norte-americana. "O corte que sofreu sobre o olho direito foi tão grave que exigiria cirurgia corretiva 35 anos depois. Arnaldo foi até Paris, num carro oficial do consulado brasileiro em Stuttgart, para ver o filho. Quando Sergio soube que o pai havia estacionado no Quartier Latin, exclamou: 'Vá correndo retirar o carro! Os estudantes estão queimando todos os carros lá hoje!'."

No Brasil, o regime ditatorial ficava cada vez mais intolerante. Mãe e irmã de Sergio acompanhavam aflitas as notícias. Houve uma vez em que correu um boato de que ele teria sido preso e morto em Paris, por causa de suas posições políticas. Sergio escrevia cartas regularmente, procurando tranquilizá-las. Do pai ouviu um conselho: não pisar no seu país naquele momento, por segurança.

Em 1969, contudo, a vítima foi Arnaldo. Seu nome constava de uma lista de funcionários aposentados compulsoriamente pelo regime militar. Quando soube da notícia, Sergio se enfureceu. Para ele, era uma perseguição do governo, que queria atrapalhar sua família. E, para ele, era a hora de arrumar um emprego e sustentar-se por meios próprios.

Chegada à ONU

Sergio tentou se empregar como professor de filosofia — sem sucesso. Em viagem à casa de amigos em Genebra, pensou em procurar trabalho em algum dos organismos internacionais ali sediados. Contou com a influência do pai: um conhecido da família, sabendo que Sergio era fluente em quatro línguas — espanhol, italiano e francês, além do português nativo —, apresentou-o ao diretor da divisão de idiomas da Nações Unidas.

Foi assim que Sergio Vieira de Mello, em novembro de 1969, começou a trabalhar para a ONU: como revisor de francês do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Dentro da organização, Sergio passou a ganhar destaque. Era carismático e demonstrava uma incrível capacidade de negociação, temperada com idealismo e boa persuasão. Na definição de Samantha Power, era um "maquiavélico idealista".

Essas características foram importantes para que ele fosse cada vez mais requisitado em trabalhos de campo e cada vez mais acionado em áreas de conflito. "Eu olhava para ele como se fosse um 007, que não morre", diz seu sobrinho e afilhado André Simões, no documentário "Sergio", também dirigido por Greg Barker e lançado em 2009. "Perguntava a ele: 'por que você vai para esses países que estão em conflitos perigosos?'. Ele ria e não respondia."

Pela Acnur, Sergio atuou na missão de paz em Bangladesh, recém-emancipado do Paquistão. Foi para o Chipre depois de o país ter sido invadido pelos turcos. Em Moçambique, coordenou a assistência aos refugiados durante a guerra civil. Nos anos 1980, exerceu atividades no Líbano.

A partir de 1983, começou a trabalhar diretamente com Kofi Annan. No Camboja, Sergio coordenou a repatriação de 360 mil refugiados no Vietnã. Em seguida, novo trabalho de campo: desta vez, nos Bálcãs. Sergio atuou diretamente na Bósnia.

"Ao longo de 34 anos na ONU, ele atuou em mais de 15 países", pontua o biógrafo Sarmento.


"O Pelé da democracia"

Mas o grande trabalho de sua vida foi no Timor Leste. Na ex-colônia portuguesa do sudeste asiático, Sergio teve um papel fundamental, não só para consolidar a independência como para criar as estruturas básicas para o funcionamento do país. Nobel da Paz em 1996, o jurista José Ramos Horta — que foi presidente do Timor Leste entre 2007 e 2012 — o definiu como "o Pelé da democracia".

"Foi o grande local para a carreira do Sergio. No Timor Leste ele se tornou reconhecido como grande negociador, artífice da paz. E, ao mesmo tempo, era muito pragmático", avalia Sarmento. "Ele sabia ser menos pacífico quando julgava necessário."

O Timor Leste estava completamente destroçado quando a ONU interveio. Depois da dominação portuguesa, o país havia sido ocupado pela Indonésia por 24 anos. Foi um período de destruição da infraestrutura — e de genocídios. Em setembro de 1999, as Nações Unidas criaram uma administração transitória, com o objetivo de reconstruir o Estado e, em seguida, devolvê-lo aos timorenses.

Sergio foi o encarregado. A missão era complexa. Uma Constituição nova seria criada, eleições precisavam ser convocadas e os Três Poderes, estabelecidos. Também foi escolhida uma nova moeda e oficializado o português e o tétum como idiomas oficiais.

"O país sofria com massacres, humilhação, estava em situação insustentável", contextualiza Sarmento. "Noventa por cento da infraestrutura estava destruída, escolas, pontes, estradas, tudo. Sergio chegou ali em um contexto de completo caos."

Na missão, Sergio tinha plenos poderes. Contudo, buscou uma participação popular. "A ONU tinha um mandato quase que absolutista. Sergio podia ser o Luiz XIV do Timor Leste, mas como era extremamente hábil e inteligente, criou um conselho para trazer os timorenses para o lado dele", conta Sarmento. "Ele não podia levar o país para o futuro sem que os cidadãos participassem disso. Essa atitude trouxe o povo para o lado dele."

"Um legado de Sergio Vieira de Mello foi a consolidação da democracia no Timor Leste", afirma o embaixador brasileiro no país do sudeste asiático, Adelmo Serafim Garcia Júnior, no documentário "Sergio Vieira de Mello: O Legado de Um Herói Brasileiro", filme da ZAZ Produções baseada no livro homônimo.

Concluído o trabalho, em 2002, com a independência do país, Sergio foi nomeado Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Passou a ser visto como sucessor natural de Kofi Annan, como futuro secretário-geral da ONU.

Apesar de chamado de diplomata, há um preciosismo que precisa ser ressaltado: Sergio não era representante de um país — diplomata de fato, no caso do Brasil, ligado ao Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty. Atuava em trabalhos de diplomacia como funcionário de um organismo internacional — daí a natureza um tanto análoga. "Ele não ficaria ofendido se fosse chamado de diplomata, mas em texto mais bem pesquisado não cabe fazer confusão", esclarece ao TAB um diplomata brasileiro. "Além disso, ele foi um brasileiro extraordinário e classificá-lo como diplomata só honra ao Itamaraty." A Netflix usa o termo ao apresentar, em comunicado à imprensa, a sinopse do filme.

Em tempos de covid-19, Sergio faz falta

O envolvimento de Sergio em tantos momentos históricos cruciais permite imaginar que, neste contexto de pandemia, ele estaria atuando em alguma causa humanitária, se vivo fosse. "Qualquer previsão seria mera opinião. O importante é dizer que Sergio sempre se sentiu muito confortável na posição de liderança", comenta o biógrafo Sarmento. "Além disso, era muito hábil, carismático e sabia unir as pessoas em torno de uma causa. São características que ajudam qualquer líder a enfrentar momentos difíceis."

E sua liderança carismática seria importante para a crise que virá depois de vencido o novo coronavírus, acreditam os que com ele conviveram. "A pandemia destacou que estamos aterrorizados com a incerteza e, pior, com a mudança", afirma a economista argentina Carolina Larriera, ex-funcionária da ONU e última mulher de Sergio. Antes, ele foi casado com a francesa Annie Personnaz Vieira de Mello, mãe de seus dois filhos, Laurent e Adrien.

"Se não tivesse sido morto, ele teria trabalhado com populações vulneráveis para prepará-las e equipá-las para se adaptarem lentamente a aceitar essas perdas, ajudando-as a identificar as novas oportunidades que aparecem e dando-lhes ferramentas para se adaptarem lentamente a essa nova realidade de doença: cuidado, solidariedade, proteção aos mais vulneráveis. E mudança. Era isso que estávamos fazendo junto dos iraquianos na dura transição. E tínhamos feito, antes, no Timor Leste. Essa abordagem de adaptação é atemporal e mantém a humanidade em movimento", afirma ela ao TAB.

Memória e legado

"O legado de Sergio é bem simples. É para todos nós entendermos que o que nós intuímos como sendo nossas deficiências, na verdade são as nossas maiores fortalezas", diz Larriera. "Desde cedo, enfrentamos inúmeras dificuldades para a vida internacional: precisamos aprender inglês, precisamos ser aceitos em universidades estrangeiras, precisamos lidar com as inúmeras frustrações que fazem parte da falta de planejamento. E, no caminho, a gente acaba se desenvolvendo."

Larriera ressalta as trajetórias de ambos — ele, na Sorbonne, ela, em Harvard, como prova de que é possível ascender internacionalmente, "com muito orgulho e felicidade disso". "Precisamos nos fortalecer mentalmente, compreender e abraçar que nos obstáculos superados justamente está a nossa maior fortaleza", acrescenta ela, que vive no Rio. "E deixar de achar que tudo de fora é melhor, para começar a valorizar nossa própria cultura, pessoas, instituições, e os nossos próprios talentos."

"Os países estrangeiros recrutam o melhor talento do Brasil e levam para fora -- antigamente a França, hoje os Estados Unidos e, no futuro, será a China -- por meio de bolsas para universidades ou empregos prestigiados", ressalta. "Não podemos perder esses talentos ou apenas valorizar o talento de fora. Temos que nos fortalecer internamente, e valorizar nossas próprias aptidões. Acredito esse ser o maior legado de Sergio."

Com o apoio da mãe de Sergio, Gilda, Larriera criou no Rio o Centro Sergio Vieira de Mello. A ex-mulher do diplomata, Annie, fundou em Genebra a Fundação Sergio Vieira de Mello. Desde 2003, a ONU tem uma cátedra com o nome do brasileiro, dedicada a "promover a educação, pesquisa e extensão acadêmica voltada a população em condição de refúgio" -- conforme descrição da própria instituição.

No Brasil, os Correios chegaram a lançar um selo comemorativo em memória de Sergio. Timor Leste criou um prêmio de Direitos Humanos com o nome do brasileiro, com o objetivo de reconhecer bons trabalhos desenvolvidos na área. Desde 2008, a ONU reconhece a data da morte de Sergio, 19 de agosto, como Dia Mundial Humanitário.

Em carta publicada pela ONU, o sobrinho Simões ressaltou uma curiosidade histórica que liga Sergio à própria instituição. "Sergio nasceu junto, no mesmo ano, com a Declaração dos Direitos Humanos, no ano de 1948, e dedicou sua carreira a dar sentido a cada um dos seus 30 artigos", escreveu.

"Uma mistura de James Bond com Bobby Kennedy, o Sergio"

No documentário lançado em 2009, Larriera lembra que Sergio não queria ir para a missão no Iraque. Depois da intensidade do trabalho no Timor Leste, ele estava planejando um tempo mais calmo. Falavam em passar um período no Rio, inclusive.

Samantha Power afirma que a decisão, diante da necessidade de enviar uma missão para o Iraque, recaía sobre Sergio porque era preciso "mandar o mais experiente e mais carismático" dos funcionários da ONU, "uma mistura de James Bond com Bobby Kennedy, o Sergio". "E ele gosta de estar no centro da ação, de ser o centro das atenções. Quando a pergunta lhe foi feita [sobre ir], ele achou que não poderia dizer não", diz ela.

Era um trabalho de assistência. O Iraque estava em sangrento conflito após ter sido invadido por uma coalização liderada pelos Estados Unidos. O plano era ficar por quatro meses. Então conselheira de Segurança Nacional do governo George W. Bush, a cientista política e diplomata norte-americana Condoleezza Rice conta, no documentário, que conversou com Sergio sobre a missão a ele conferida. "Eu pedi pessoalmente para ele [aceitar]. Você é a pessoa certa para o trabalho", comenta ela.

"Ele não queria ir, vinha de uma sequência desgastante de trabalhos", relata o biógrafo Sarmento. "Mas a situação estava tão complicada, tão difícil de ser negociada, que Kofi Annan, que era amigo do Sergio, ficou sem opção: precisava colocar o Sergio lá."

Em 19 de agosto de 2003, um caminhão-bomba explodiu em frente ao Hotel Canal, utilizado como quartel-general da ONU em Bagdá. O mais violento ataque até então realizado contra uma missão civil das Nações Unidos deixou mais de 150 feridos e 22 mortos — entre eles, o brasileiro Sergio Vieira de Mello.

Ou, simplesmente, o Sergio.