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A educação pós-pandemia: maior inclusão e alunos mais independentes

 Annie Spratt/Unsplash
Imagem: Annie Spratt/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

25/06/2020 04h00

Se antes os eletrônicos eram estritamente proibidos em sala de aula e até mesmo confiscados pelos professores, hoje eles são a solução encontrada para adaptar a modalidade de ensino, respeitando as medidas de isolamento.

A pandemia do novo coronavírus escancarou as desigualdades sociais em vários campos, e a dificuldade em conectar alunos e professores é uma reclamação frequente. Desde alunos que não têm acesso a internet ou a computadores, até professores que encontram desafios para transpor o conteúdo para plataformas online — que muitas vezes têm seus próprios problemas —, ficou claro que o Brasil não está preparado para o ensino digital.

A falta de preparo não fica restrita à dificuldade de acesso. Especialistas relatam que a área da educação tradicional costumava caminhar a passos lentos em direção à digitalização. "De uma hora para a outra, fomos obrigados a dar um jeito e fazer avançar. Eu acredito que muitas coisas evoluíram em tecnologia nos últimos anos, e a educação sempre teve um... Vamos dizer, 'ranço' disso", observa Sônia Bonelli, coordenadora do curso de pedagogia da PUC-RS. As aulas presenciais pouco mudavam, enquanto EAD (o ensino a distância) crescia.

Mas ela ressalta que, durante a pandemia, estamos em um sistema diferente, não passamos simplesmente de um modelo a outro. "A gente não pode esquecer que a gente saiu do presencial, mas não entrou na modalidade EAD. Estamos num ensino remoto, tentando dar conta de um sistema que é todo presencial."

A entrada da tecnologia na educação, mesmo que aos trancos, pode ao menos trazer mais autonomia aos alunos e até mesmo mudar os sistemas atuais de avaliação, obrigando uma grande renovação de mentalidade, avalia a professora.

COMO ERA: A pesquisa TIC Educação 2019 (tecnologias de informação e comunicação) aponta que 34% dos alunos de escolas urbanas no Brasil não tinham acesso a nenhum tipo de computador em casa — desktop, laptop ou tablet. Entre os alunos de escola pública (ainda urbana), esse número sobe para 39% e, nas particulares, cai para 9%. Por região, são 48% sem acesso no Norte e 27% tanto no Sul quanto no Sudeste. Além disso, em apenas 23% das escolas do país os professores haviam recebido formação para uso de computador e internet em atividades de ensino e aprendizagem.Bonelli afirma que no ensino superior a digitalização já estava mais presente. "A questão da educação a distância como um todo no país era algo que vinha avançando muito, principalmente na graduação. Muitas universidades vinham oferecendo cursos de graduação utilizando tecnologias próprias ou já existentes", afirma. De 2017 para 2018 (dados mais recentes disponíveis), o número de matrículas em cursos de graduação a distância cresceu 17% e nos presenciais caiu 24,3%, segundo o Censo da Educação Superior do Ministério da Educação. Mauricio Jucá de Queiroz, Diretor Geral e coordenador do curso de graduação em Administração da FIA (Faculdade Instituto de Administração), também atesta essa mudança. Ele explica que percebia a necessidade cada vez maior de oferecer cursos tanto em modalidade síncrona (com professor e alunos conectados ao mesmo tempo) e assíncrona (gravada, que permite ao aluno estudar quando preferir).

"A primeira mudança foi na educação executiva. Os profissionais queriam ter a possibilidade de fazer o curso de qualquer lugar. Ao mesmo tempo, tínhamos a entrada mundial dos treinamentos MOOCs (massive open online course), como Coursera, edX, Udemy. A gente já via uma crescimento desses outros players, essas plataformas online que já estavam oferecendo cursos livres", relata Queiroz.

COMO FOI ADAPTADA NA PANDEMIA: Quem já tinha estrutura para cursos a distância precisou ampliá-la para abarcar todos os alunos. Vale lembrar que isso não é sinônimo de EAD, como destacou Bonelli. O EAD pressupõe pensar o curso já para internet, o que não exigiu mudanças durante a pandemia.

Já nos cursos presenciais transpostos para o online, a FIA, por exemplo, manteve a mesma grade para os alunos presenciais, mas via internet e em aulas síncronas. Queiroz conta que estava na Itália quando as escolas fecharam por lá, e logo percebeu que a educação brasileira iria se adaptar também.

"Quando as primeiras escolas fecharam aqui, em março, em um dia a gente já colocou o primeiro curso de pós no Zoom e começou a negociar com a plataforma. Rapidamente começamos a treinar os professores e, em uma semana, a gente virou o jogo todinho. Uma coisa que, se você me perguntasse no ano passado, eu diria que era impensável", afirma.

O diretor da FIA reconhece que, por ser uma instituição privada, o perfil costuma ser de alunos que já têm computador e acesso à internet em casa. Para os que não têm, a faculdade conseguiu emprestar notebooks, garante Queiroz.

No entanto, a realidade das instituições de ensino varia muito, assim como o acesso dos alunos e das famílias à tecnologia. "Algumas escolas, principalmente da rede pública, tiveram que se valer de outras possibilidades para manter as crianças em contato. Algumas organizam os materiais da semana [impressos] e alguém da família passa buscar com um professor", exemplifica Bonelli, da PUCRS.

Do ponto de vista da regulamentação, o MEC autorizou oficialmente o ensino a distância para cursos presenciais, o governo de São Paulo criou um sistema de videoaulas por televisão e diversas localidades fortaleceram (ou criaram) transmissões de aula via rádio. Isso deve gerar disparidades grandes de aprendizado durante a pandemia, alerta Bonelli. Além das diferenças pedagógicas, o ambiente em que os alunos estão passando esses meses de isolamento também deve contar muito no desenvolvimento das habilidades sociais, parte importante da vida escolar, ressalta ela. "Uma questão importante é que nem todo mundo tem um espaço para estudar. Às vezes a cozinha, a sala, viram sala de aula. E preciso dizer que os professores estão fazendo um trabalho muito significativo também, filmando, gravando?"

COMO SERÁ DEPOIS: Com a volta gradual prevista para as escolas, que dever ser uma mistura entre presencial e a distância, a tecnologia vai se manter presente, mas vai ficar na mão dos educadores observarem de perto as necessidades de cada aluno."Os professores vão precisar fazer um diagnóstico e retomar muitas questões. Uma delas é a disparidade em decorrência do uso da tecnologia, mas outra é a criança ter ficado muito tempo isolada", avalia a especialista. Para Bonelli, o distanciamento social pode ter consequências diversas em cada aluno, e algumas crianças podem ter o psicológico abalado. "Essa questão de não poder tocar, não chegar perto, isso é muito ruim. A criança pode começar a achar que não deve mais ter contato", afirma.

Por outro lado, ela acredita também que o tempo de estudos em casa pode ter ajudado a melhorar a autonomia de boa parte dos alunos no aprendizado, e deve deixar uma herança tecnológica que pode ser benéfica em várias situações. Um exemplo são os alunos em longos tratamentos de saúde, que muitas vezes poderiam se beneficiar do ensino online enquanto passam algum tempo internados, diz a professora. Para isso, a adoção das tecnologias precisará ser consistente, mesmo para a interação dos alunos que estiverem em casa com aqueles que forem à aula. "Isso é uma questão que estava demorando muito, e a pandemia fez avançar", reconhece.

No ensino superior, Queiroz também cita o ganho de autonomia dos alunos como um dos pontos positivos do ensino a distância. Outra mudança que ele acredita ser provável é na forma de avaliação dos alunos. Sem um controle rígido das colas durante as provas, pode ser que os professores precisem repensar, numa mudança mais macro de mentalidade, em como medir o nível de aprendizado dos alunos.

"A educação é um setor em que a digitalização aconteceria, mas era uma dos mais resistentes", opina. "Esse ambiente de 2020 virou tudo de cabeça para baixo, e agora é de vez."

Fontes: Sônia Bonelli, coordenadora do curso de pedagogia da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e Mauricio Jucá de Queiroz, Diretor Geral e coordenador do curso de graduação em Administração da FIA (Faculdade Instituto de Administração)